quinta-feira, 8 de maio de 2008

• Índio quer i-pod / parte 2

Poizintão. De volta ao tema.
Já tem um tempinho que pinto índios e assim sublimava minha curiosidade. Estava na hora, senti, de começar a posicionar-me para além da fascinação: molhei os dedos num assunto onde gostaria de ter mergulhado com mais possibilidades (e olha que nem é Dia do Índio) e espero em breve ir mais além.
Vi "O Povo Brasileiro", do Darci Ribeiro, e aproveitei pra rever o "Xingu". Fui parar no Villas Boas, fucei mais um pouquinho e trombei com o Juruna, o Raoni e até o Paiakan. Curti as notícias do
Kaká Werá Jecupé (pude vê-lo ao vivo em 1992) e fiquei feliz com as novidades.
Gostei dos comentários do post anterior e agradeço pelas opiniões!
Segue abaixo um texto nada enxuto sobre um ponto de vista.
O contraponto, se houver, segue num post futuro.


***

"Quer saber como é? Visite a aldeia"

Qual?
Primeiro, é preciso dizer que há uma constelação de 'tribos' - muitas delas, não mais que vilas (quase favelas) mal sustentadas pelo assistencialismo da consciência pesada, que quer salvar o defunto no dia da exumação. Minizoológicos cheios de gente cuja única herança autóctone é um cocar mofado, usado em eventos para inglês ver, vazios de sentido e vestidos para a foto do gringo a vinte Reais.
Não são silvícolas não. Não têm oca, não têm taba. Não que o cenário faça o ator, mas... viver num trailer com parabólica, caçar embalagem de isopor no Carrefour... não é ser índio. Ao menos, não a imagem de índio usada para justificar ambiguidades. Não há esse grupo coeso ao qual batizamos - alguns nem mesmo aceitam outras tribos como iguais. Muitos vivem em Itaquera enquanto outros estão em Rondônia. Tal generalização é a mãe vadia do paradigma.

Segundo, convém sublinhar que os amplos territórios dedicados ao arremedo de compensação histórica, dos quais uns poucos (chamemos "sortudos") são detentores e ocupam tanto pulverizada quanto minimamente, não se encontram nos cálculos do Incra e muito menos são regidos em recursos por qualquer órgão nacional relevante (não que não sejam explorados - apenas o país está fora dessa). Estas terras, mantidas para garantir espaço de nomadismo a muitos sedentários de velha data, não entram no debate da redistribuição territorial, não entram na questão dos latifúndios, não entram na avaliação de potencial econômico ou ambiental. Só pra adoçar o glacê, pense você que o índio tradicional já provocava impacto ecológico e imagine o que não faz um com picape e garimpo ilegal. Lembre-se disso quando falarmos dos demais brasileiros ou ao questionar a importância do tema.

Terceiro, o dito acima faz parte do paradoxo onde muitos encontram-se num absoluto estado de pobreza, na máxima carência tanto em recursos quanto em dignidade. Do alcoolismo aos confrontos com grileiros... vê-se apenas a ponta do iceberg. Doenças abundam e só não são maiores do que o caos de inocuidades promovidas pela sociedade pseudoativista, em seu esforço por dormir com a consciência tranquila no travesseiro do dever cumprido. Acrescente os temperos da dispersão, no quais órgãos obscuros têm diante de si terreno fértil para lavagem de dinheiro (ou alguém vai ao Xingu ver se a verba é bem aplicada?) e lembre-se que aquele índio no jornal, com seu facão no pescoço de um funcionário (ato que, feito por você, seria passível de processo e prisão), também é movido pelo desespero ao abandono.

Os clichês são tantos que mal sabemos por onde começar.


CULTURA
Difícil definir algo tão permeável e mutante. Ótimo por um lado, péssimo por outro. Péssimo porque não se defende a fronteira do que não se conhece. E lá vamos nós.
Do modo como segue a maioria, ser índio hoje é quase como bolinho de chuva: uma tradição da bisavó que alguém manteve por saudosismo, entre uma e outra lazanha congelada. E a profundidade disso, digamos... é a mesma do óleo que frita o bolinho. Nem a genética, suposto patrimônio étnico, se manteve: o que tem de índio Jeferson com cabelo pichainho não tá no gibi (se você acha difícil definir quem é negro num país de pardos, imagine o trabalho das cotas universitárias diante disso). Do mesmo modo, cacique Uóchito fazendo acordo com traficante e madeireiro você não vê no Discovery Channel.
Ótimo absorver conhecimentos herbais. Lindo compreender contextos históricos e filosóficos. Magnífico valorizar artes únicas. Mas... você sente saudade do arado? De lavar roupa no rio?
Então por que acha que alguém gostaria de ser mantido, por terceiros, na rusticidade absoluta? Qual não-romântico gostaria de permanecer na primitividade?
"Bom pra eles"? Tão bom quanto era pra você tratar câncer com reza ou procurar água por quilômetros. Todo dia.

UADERREL ISDÉT?
Sem discursos Iluministas: não creio que a razão ocidental vá clarificar qualquer ponto desta situação (do contrário, pelo menos a tentativa de manter os índios intocáveis teria dado certo).
Assumamos a hipocrisia. Não adianta viver de paliativos sob o pretexto de responsabilidade social, niilismo, pseudointelectualismo ou, para os mais francos, remorso histórico. Inês é morta. Milhões desapareceram por doenças, bacamartes e bíblias. Dizimados. O que restou é substrato, tão nativo quanto eu sou dos Alpes Italianos, mas nem sei o que é neve (nem seu nome em genovês arcaico).

Se não se pode julgar uma cultura pela ótica de outra, então comecemos por esquecer as fantasias que sustentam sua figura.
Por exemplo, se índios tivessem consciência ecológica, não teriam derrubado pau-brasil pra portuga a troco de miçanga. "Só derrubar árvore morta"? Sei. Também mataram e escravizaram inimigos, cometeram seus infanticídios, logo são humanos sob contexto e não elfos celestiais.
A tal pureza, tão idealizada pelos arrependidos, não se sustenta nem sobrevive ao escrutínio. Primeiro porque foi maculada por séculos, obviamente. Segundo, que o novo lifestyle foi abraçado até o caroço. E nem é preciso minúcia para perceber: pergunte a alguns deles o que desejam. Pode crer que uma Hylux 6 cilindros vai ganhar mais votos que um cocar novo para louvar ancestrais. Normal: todo humano busca facilidades e eles não vão cozinhar na fogueira sabendo que, com três toques, o microondas cospe o pirão quente.


CURIOSIDADE...
Já viu os velhos documentários naturalistas? Índios não falavam seus nomes quando discursavam; não havia EU nas sentenças. "Índio isso", "índio aquilo" não era mera primitividade gramatical do tipo "mim Tarzan": sua mentalidade era coletiva - um índio falava pela tribo, o que dizia era a voz de sua raça (entre tantas). Ego é adição recente. Parece exagero, mas aquele que busca benefício estritamente pessoal já não é índio: está inserido no modelo-base de comportamento 'civilizado'.
Sendo assim o Pagé Kleberson, ao desmatar hectares e empenhar para o plantio de maconha as terras de reserva, é tão índio quanto um morador da Rocinha: um oportunista sobrevivendo numa situação instalada à revelia de sua vontade. Um sobrevivente dos novos tempos. Se ele reza pra Tupã e um outro pra Jesus é secundário: onde jaz um índio, resta um brasileiro. Esta é sua nova realidade, que nenhum chapéu de penas ofuscará.

Então... por quê?
Já foi dito: a culpa travestida de ativismo terminou por criar (ou arrebanhar) nativos viciados em esmolas caridosas (algo que todo cristão latino adora entregar em público). Paga-se a mãos anônimas por um perdão histórico, ao custo de uma ou outra adulação e muita indulgência. Mas não há indenização para a morte, para a perda cultural irremediável.
O fato é que os séculos de espelhinhos habituaram estes povos e completaram o serviço de catequização. Perdão, mas... tentar mantê-los artificialmente num estado de imaculação é como estuprá-los e depois cobri-los para que não sintam frio nos pés. É tentar manter a virgindade via sexo com meio falo: fazemos não mais que gracejar o último dos pandas. Meio tarde para tentar, não?
Esse estado ambíguo, esse 'nem lá nem cá', é a pior das heranças. Só intelectualóide não vê, porque é bonito imaginar uma Pasárgada qualquer onde se possa depositar sonhos, melancolias e nostalgias do que não se teve.

***

Indenizações
Cá entre nós, somos históricamente péssimos na tradição de recompensar: parimos Israéis louras por todos os lados. E só insistimos porque é mais fácil remendar do que evitar furos - nesse exato momento, numa Roraima qualquer da qual nunca ouvimos falar, há brancos travando contato com aqueles poucos índios ainda selvagens (sim, existem - por enquanto). Brancos que você preferiria não saber quem são.
Gostaria de entender melhor o que é essa borracha histórica dos erros idos. Acaso os negros da Bahia, Bantus e Quetus, Senegaleses e Angolas, não mantiveram suas culturas a ponto de influenciar todo o país? Esses, ninguém 'indenizou' - nem com um mísero shortinho da Adidas. E os imigrantes, escravos das vendinhas das fazendas de café, engrenagens da Revolução Industrial tardia, que mantiveram suas festas de Achiropitta e Oktoberfests, foram menos oprimidos quando expulsos pelo Ducce, por Franco, Hitler, peste ou fome?
Ia faltar chinela havaiana, viu.

Sempre ouço aquele "roubamos suas terras". Não vou nem perguntar quem é esse "roubamos", muito menos quem era o dono (lembra do índio Seattle? Pois é). Todos os povos desse planeta já foram conquistados por alguém e anexados - infelizmente isso parece inerente ao contato entre civilizações díspares, entre dominantes e frágeis. A humanidade conta sua história por genocídios e se em algum momento uma Roma tornou ibéricos e germânicos uma só nação, isso é fenômeno que não cabe a este blog elucidar, apenas aceitar. O que tão coesamente chamam hoje europeu um dia foi um enxame de vilas separadas por poucos quilômetros e contextos quilometricamente distintos. Visigodos, ostrogodos, gauleses, anglo-saxões, celtas, gregos, nórdicos, mouros - só receberam o devido respeito ao aproximarem-se da igualdade, inclusive no direito às diferenças. Tanto quanto nós, espanhóis, italianos, portugueses, japoneses, angolanos, nigerianos e alemães nos chamamos brasileiros e lutamos por esse nivelamento gradativo, sem o qual não há nação. Exceto o tal índio, mantido de fora do jogo, visto como um souvenir exótico do passado que deve continuar fechado no baú, como quem foi e não como quem é; herança segregacionista da mentalidade imperial. Aquele inquilino distinto de nós, vítima do apartheid cultural maquiado como um suposto respeito que, de quebra, boicota a formação de uma identidade nacional.

É claro que possuem direitos: uma dúvida dessas, a essa altura, não tem cabimento. Não é esta a discussão do blog nem é este um manifesto racista. Não é meramente a questão de sermos justos ou não com aqueles, mas sim se temos sido justos também com os não-índios ao criar novas castas num mar de negligenciados. Não vejo onde estes merecem ser tratados de modo diferente dos sem-terra (não raro, igualmente mestiços - como a maioria da nação) nem porque estão sob as asas do paternalismo falido.
Por fim, ninguém liga pra minorias: se cidadão com RG e IPTU já padece, imagine...
Chega desses tais esforços, desse faz-de-conta vendido como se benefício ao índio, àquele que já morreu. Se a busca fosse pelo melhor (ou menos pior) aos descendentes desfigurados, essa gente trancafiada à condição de mausoléus de si mesmos, bastava simplesmente integrá-los, com dignidade e oportunidades, à sociedade brasileira.

Ah... só isso?
Sim. Se por 'só' você entende retirar a máscara de vítima e trazer um povo ao status de dignidade que tanto nós quanto os próprios verdadeiramente entendemos como tal.
Que integrem logo esses brasileiros, antes que um garimpeiro ilegal o faça. Que ao menos possam tornar-se cidadãos do império que os digeriu. Se, sujeitos às leis e desafios de todo brasileiro, estarão sob um fardo que também a nós pesa muito e pouco retorna, é valioso pensar que somarão forças na luta pelos interesses comuns e estarão finalmente num palco que, se não funciona, ao menos chama mais a atenção do que os guetos obscuros nos quais, ignorados em sua condição real, naufragam.
Por enquanto é no que creio.


E você, o que acha do assunto?


10 comentários:

De Marchi ॐ disse...

"Putsgrila, que fulano prolixo!"

Não se preocupe, eu também não li. Ao menos comente para parecer participativo como eu fiz. :D

Vinícius Castelli disse...

Ao indio o que é do indio por direito, né!

Luiz Rogério disse...

Caramba... Realmente é difícil analisar tamanha profusão de idéias...
Deixa eu abrir uma cerveja...

Walter disse...

Realmente, da maneira que vejo, não dá prá levar "índio" a sério. Eles tinham seus costumes, tinham tradições, tinham um modo de vida próprio. Hoje, contaminados pelas tentações e comodidades da "civilização", apenas buscam formas de se beneficiar de sua ascendência - como muitos brasileiros fazem, escarafunchando um resquício europeu para justificar um passaporte italiano, por exemplo, e assim facilitar seu ingresso pelo mundo - apoiados por ongueiros oportunistas, batendo às portas de um orgão incompetente e - pior ainda - corrupto, a Funai.
Não se sentem minimamente obrigados a qualquer coisa em relação ao Estado, pois "são índios", mas têm uma noção bem encorpada de "direitos", só são cidadãos na hora de reivindicar - o tempo todo, diga-se de passagem, porque tempo não lhes falta. Em sua maioria, só são "índios" quando lhes interessa.

웃 Mony 웃 disse...

O que mais me pegou nessa história toda é a agonia que é não ser uma coisa e nem outra...
Os que visitei, pelo que pude perceber, não se sentem assim. Mas, os do Xingu, por exemplo, se suicidaram aos montes e outros tantos abraçaram o alcoolismo como fuga justamente dessa situação.
É muito triste saber que uma cultura tão rica já foi perdida em grande parte. E que a que não foi, brevemente será vista apenas nos livros didáticos por mais algumas décadas e nos poucos documentários sérios que foram feito tempos atrás, como esse de Darci Ribeiro...

De Marchi ॐ disse...

Tenho pesquisado um pouquinho, tento encontrar um contraponto mas... tá difícil. Tô encantado com os Kaiabi, Yudja e Suyá do Xingu, mas justamente o fato das pretensas políticas se extenderem para além do cultural os obriga a armar-se e 'civilizar-se' para defender seu território - deixam a vida índia do dia-a-dia do mesmo jeito e suas crianças não pintam mais peixes (senão no artesanato comercial), pintam carros.
Há elementos riquíssimos a serem presenvados, é fato, mas não do modo como é "feito". Cada cultura e tradição, de cada canto desse país, tem peso equivalente - uma vila de caboclos nordestinos não perde em riqueza. Essa esterilidade forçada, que impete a indígena de transformar-se, parece subestimar a capacidade desse povo de misturar-se conosco e acrescentar muito mais do que em estado de dependência. Como civis plenos, talvez fosse diferente. Ao menos, mais justo.

De Marchi ॐ disse...

P.S.: Pedi pro Claudio (que viveu 5 anos no Macapá) para dar sua opinião. Observar a população de lá, em boa parte descendente de índios, pode ajudar a entender se há como preservar valores culturais e viver numa realidade civil ao mesmo tempo. temos esses exemplos do Kaká Werá e outros, mas acredito que seus resultados venham pelo próprio mérito; não sei se a população comum acompanharia o mesmo ritmo ou se perderia a raíz rapidamente.

JOBSON disse...

É óbvio que há excrescências no modo através do qual a Sociedade Brasileira tenta lidar com os Indios,mas os UOCHTO,os Jeferson são exatamente o sintoma desse equívoco.
Não devemos cair nos relativismos fáceis.E essa idéia de integração de etnias numa sociedade tb é problemática.Talvez os índios não queiram ser civis plenos,como disse o Denis.Certamente que há elementos da Cultura Branca que eles incorporaram ,não por reconhecer qualquer superioridade implícita nessa Cultura.
Índios sempre foram pragmáticos.No início da Colonização já trocavam pau Brasil por facões,mas não tinham qualquer necessidade de ler Camões.
O fato de um indio usar uma antena parabólica não quer dizer que ele queira ser um Civil pleno.O próprio Darcy Ribeiro fala que ao longo de todo o processo de contato entre o Indio e o Branco ,jamais houve integração plena.Pode ter havido alguma integração individual,mas nenhuma Etnia jamais foi assimilada integralmente.
Em "Os Indios e a Civilização"ele elenca inumeros casos do que chama de dissociação de personalidade,o sujeito que não se enxerga nem como indio nem como branco,vive num processo de não existência Cultural.Uma não personalidade,em suma.
Eu acho que as Politicas de delimitação de terras estão corretas.A cultura indigena deve ser novamente colocada nas suas condições primevas e o processo dialético de caldeamento das Culturas deve se dar a partir dai.
Não uma integração forçada,mas um processo...

Kamilah disse...

eu ia dizer alguma bobagem como de costume, mas ao ler no comentário do jobson a palavra "excrescências", me assustei tanto q me abstive...

Um dia, enquanto galopava, um cowboy encontrou um índio. No lado do índio tinha um cachorro, um cavalo e uma cabrita. O cowboy começou então um diálogo com o índio:

Cowboy: Olá, belo cão você tem aí. Você se importa se eu falar com ele?
Índio: Cão não falar.
Cowboy: Olá cão, como vai?
Cão: Bem, obrigado!

O índio ficou absolutamente chocado.

Cowboy: Esse cara é o seu dono?
Cão: Sim!
Cowboy: E como ele te trata?
Cão: Muito bem. Todo dia ele me deixa correr livremente, me dá uma boa comida e me leva ao lago para brincar uma vez por semana.

O índio ficou totalmente boquiaberto.

Cowboy: Se importa se eu falar com seu cavalo?
Índio: Cavalo não falar.
Cowboy: Oi cavalo, como vai você?
Cavalo: Muito bem!
Cowboy: Esse aí é o seu dono?
Cavalo: Sim.
Cowboy: E como ele te trata?
Cavalo: Muitíssimo bem. Cavalgamos regularmente, ele me escova sempre e me mantém sob uma árvore para me proteger da chuva e do sol.

O índio, simplesmente abobalhado.

Cowboy: Se importa se eu falar com sua cabrita?
Índio: Cabrita muito mentirosa!

Anônimo disse...

minserzénenli