sábado, 31 de maio de 2008

• Você já foi bytezado?

Inclusão digital é a nova religião. Logo logo vai-se imprimir a hóstia, como diria o Danilo. Hoje em dia é mais importante que ter feijão no prato: não precisa nem comer, mas tem de saber o login e senha. Meu avô, que é do tempo do arado, se perde com tanto botão.
Como adaptar-se? Como sobreviver a, viver sem?
É... mas tua avó vivia (e olha só, chegou lúcida aos noventinha). Você, periférico do computador, tá aí pelo hábito e pelo encantamento, lendo o que digo ao invés de ouvir o que falo. E se bobear estamos perto, num raio de poucos quilômetros (que nossos avós cruzaram a pé, veja só).
Tudo bem, distâncias são bem vindas ao mundo moderno. Quando se diz, por exemplo, que 1000 indianos morreram numa colisão de trem, ninguém chora. 1000 é um número. Mas se um, apenas um, AQUELE seu amigo morrer, aí complica. Isso, no supermundo moderno deverasmente supimpa, que você sustenta em seu lombo ao custo de não ver crescer seus filhos, é fundamental para que os Rockfellers continuem tendo os orgasmos que você não tem. O chato é que muitas vezes eles apenas acham que gozam, mas na verdade estão tão embotados quanto eu e você. Se alguém gozasse nesse jogo, ao menos faria sentido.
E por falar em orgasmos, nunca os homens tiveram uma contagem de esperma tão baixa. Excluindo desse comparativo os casos históricos onde a 'culpa' pela infertilidade "era sempre da mulher" (assim como o sexo do bebê, o gênio ou qualquer outra culpa), casos estes que alimentaram os erros de diagnóstico do passado, o fato é que a galera anda meia-bomba mesmo.
Trabalho sedentário, péssimos hábitos alimentares e recreativos, poluição... tudo aquilo que inventamos (tá, tá, nascemos e já estava lá) pra poder viver, gozar e ser feliz, quem diria, cobra o preço de não podermos fazer nada disso.
Hum... Pra poder gozar, o preço é castrar-se. Curioso, né?
Curioso mesmo é como caímos nessa. E curiosíssimo mesmo é o porquê de continuarmos na mesma, mesmo depois de sabermos.

'Não há jeito', dizem os profetas.
Não? É, não consigo rebater. Parece que não há mesmo jeito para nós, assim como para minha mãe em pânico quando o microondas dá problema. "Como vou cozinhar agora?" - questiona-se ela. Pois é, mamãe. Como? Que dirá vovó, que alimentou você e seus irmãos na base do fogão de lenha...

Quando se fala em qualidade de vida, só falam em tóchico, pinga e cigarro.
Ora, viciados em merdas destrutivas, somos todos.
Mais do que os coturnos dos Reis, somos reféns dos nossos apegos.
Todos esses aí, que nos tornam brochas, coxos, deprimidos e burros. Por opção.


Ma lascia star, ecco? Venha tomar uma cerveja comigo* que ganhamos mais.


*(Não sem antes me deixar um e-mail ou SMS!)

• Notícias exclusivas! Kaghanda no Brasil!

Interrompemos este empolgante marasmo sepulcral para trazer as mais recalcinofolejantes notícias!

Kaghanda (ao centro, no Papamóvel) é ovacionado e omeletado em NY


Um flagrante de máxima importância que irá atrair leitores e anunciantes ocorreu nesta última quinta (29). O devoto R.M.S. (23) de Ortolândia, RJ, enviou à Redação de Uaderrel um flagra exclusivo do Divino e Bojudo Mestre Swi Swami Kaghanda Yan Dandha (10.008), que, após seu retiro espiritual em Miami Bitch, reiniciou sua world tour pelo mundo e, pasmem, dirige-se para o Brasil! Sua chegada, ainda sem previsão, é esperada por dezenas de milhares de dúzias de fiéis.

Dona M.d.L.J. (59), de Carapicuíba, em Massachutis, fotografou por telefone celular uma recente manifestação sem fins lucrativos com o objetivo de arrecadar fundos para custear a vinda do Mestre ao continente Sul-americano.
As fotos, avaliadas pela nossa Equipe de Imagem, mostraram-se autênticas. Os proprietários, que pediram para não ser identificados, cobraram pelas imagens um preço exorbitante. Aqui, cabe uma denúncia: a despeito da relevância extrema do evento registrado, nenhuma emissora de Rádio interessou-se em adquiri-las. Veja, Estadão e Folha também declinaram, alegando "desconhecer o assunto" (sic). Já a Rede Globo disse que o preço era absurdo e que criaria seu próprio messias (de novo).
Mas a Redação de Uaderrel, que sempre lesou zelou pela imparcialidade e qualidade de informação, topou a empreitada e comprou as fotos por um bauru com Caracu e um boné de posto de gasolina. Foi custoso, mas a liberdade de informação vale a pena.

Brasil na Nova Era
Rumores, ardores e tumores de que o Mestre traria junto de sua pequena comitiva os 450 chineses que carregam a tocha olímpica parecem agora não mais que uma manobra para desviar a atenção do Fisco público. Em rápida aparição no sagüão das Nações Unidas, em Detróiri (NY), Sri Swami Kaghanda, convidado pelo G8, declarou: "O Brazil é o país do futuro e para ele a Nova Era já É, se não Será" - disse, enfático, em espanhol.
Tais evidências demonstraram de modo sub-reptício o interesse do Mestre em nossas paragens nacionais. A futura presença do Divino Sri Swami Kaghanda etc no Brasil demonstra que finalmente o país entrou para o primeiro mundo, para a ONU, para a categoria de país estável ao capital estrangeiro e, obviamente, para o Novo Aeon.
E por falar em capital, em nota oficial, a Assessoria de Imprensa de Sri Kaghanda afirma, categórica: "Kaghanda ama o Brazil e as brasileiras! O Mestre envia mensagens de paz e Saramaléin a todos e demonstra estar feliz por brevemente estar convosco em Buenos Aires".

Da Redação

quarta-feira, 28 de maio de 2008

• Dignidade

Pois é. O que era pra ser uma festa em nome da tolerância e da diversidade virou uma quizumba pra adolescente emo encher o rabo de ecstasy e Jurupinga. Sempre gostei de pensar nos gays como mais um grupo de didadãos merecedores dos direitos dos demais, por definição e princípios. Foi isso o que aprendi com os muitos e excelentes seres humanos que conheci. Além disso, quebra de preconceitos e tabus é exercício obrigatório e legado de toda juventude que se preza.

Mas aí vai meu puxão de orelha:
Euforia não é alegria. A Parada Gay sempre passou longe de ser cisuda, e é pra ser assim mesmo. Mas porra... se pelo menos os trocentos assaltos que rolaram nesta última não foram culpas vossas, dá pra me explicar que diabos passou na cabeça dos infelizes que resolveram transformar a Paulista num vomitório, num prostíbulo, numa boca de drogas e num ringue de brigas?
Estive em três dessas passeatas, com mais de um milhão de pessoas e nenhuma, nenhuma briguinha sequer foi registrada. Era riso, alegria, cordialidade e respeito.
Nessa rolou porrada. Muita. Rolou trepada na rua. Não me venha com merda de "ai ti exageru di papinhu conservador, mona"; meter na frente de criança é mau pacas (crianças de colo, filhas daqueles adultos que foram lá se divertir e caminhar com vocês em apoio à causa, que levaram seus filhos pra aprender desde bem cedo o caminho da convivência - convivência que alguns macularam com seus excessos).
Homossexualidade não é vício, mas é assim que muita gente vai encarar a falta de tato. Que belo andar pra trás, hein?

Ora, vão à merda. Arruaceiro, homo ou hétero, tem mais é de ficar no gueto. Não tem a ver com sexualidade e sim com educação e civilidade, mas a festa era gay, perceberam a associação? Pelo jeito, não. Mas podem crer que seus algozes sim e não vão hesitar em usar contra vocês.
Os homossexuais na história sempre primaram pela liberdade, não pela libertinagem. Sempre gozaram de elegância - sabiam da importância de se buscar com sensibilidade, de ultrapassar os impulsos reaças da sociedade com estilo. Moeda de troca: respeito com respeito. Essa molecagem aí... sinto muito, não houve orgulho gay porra nenhuma, é ravezinha vagabunda pra aborrescente idiota, pra Prefeitura fazer seu jabazinho, pra gringo gastar el dinherito enquanto solta la franguita.
Não teve NADA a ver com a busca por respeito, igualdade e aceitação. Pelo contrário. Aquela festa de cores, música, de sorrisos e tolerância... virou barraco, arquibancada de futebol de várzea. Cadê aquela emoção de ver o casalzinho homo finalmente de mãos dadas, caminhando juntos, dançando, beijando e rindo com amigos de todas as escolhas? Ofuscada pela ignorância.
Espero que os gays dignos (são muitos) tenham o senso de separar o joio do trigo - não como um novo appartheid (a luta é justamente contra esse tipo de coisa) mas com a elegância de dizer "ei, aqui o objetivo é outro". Não tenham medo de parecer castradores, tolerar não é ser impassível. Espero que na próxima não se perca o foco.


Aos retardados, se souberem ler, uma sugestão: façam a Parada do Orgulho Imbecil, do Orgulho inconsequënte, do Orgulho Junkie, do Orgulho violento, do Orgulho Hiena que come bosta mas vive rindo. Só não usem como pretexto uma opção sexual que já tem inimigos demais - isso vai além, muito além das vossas mesquinharias pessoais. Muita gente lutou pra valer e morreu, das doenças do sangue e do ódio, para que agora milharezinhos de babacas pseudoliberais venham boicotar e cagar na batalha pela dignidade. Não desandem a meta nem transformem esse exercício político (sim, alegre, mas bem político) numa Micareta mal fadada, num Balbúrdiafolia, num mero Carnagay. Essa palhaçada não vale um Rimbaud, um Cazuza, um Oscar Wilde, um Ney Matogrosso. Não vale o AMOR livre que é o motivo maior da passeata.

Aos imbecis ativos e passivos que estragaram a festa, minha tristeza de não poder mandá-los tomar onde dizem gostar, apenas pra aparecer e não porque sabem o que querem ou quem são. Você, que adora o estigma porque "é fashion, é diferenciado e choca", limite-se à vossa incapacidade de destacar-se por algo mais que não o uso dos genitais. Hoje, muita gente digna que sofre com os dedos que apontam, com os comentários maldosos e com a repreensão injusta, sofrerão mais um pouquinho. Eu posso beijar minha amada numa padaria e eles, infelizmente não. Agora talvez demore mais um pouco até que esse dia chegue. Agradeço em nome deles, que se calaram pelo cansaço de serem postos no mesmo balaio que os montes de merda aos quais dirijo-me.
Parabéns por piorarem a situação, por alimentarem a incompreensão dos demais, por associarem uma imagem irresponsável ao que sempre foi, antes de tudo, um ato ético e civilizado.
Estúpidos. Vocês não valem o esforço.


Ninguém respeita quem não se respeita.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

• Inércias & refluxos

Os blogs estão parados mas as vidas caminham.

Será que este brinquedo afinal é como tantos outros?
Sofisticamos as ferramentas de sublimação. Tenho cá comigo que meus comentários nos blogs dos outros são melhores que meus posts aqui. Eu pensava que era apenas pelo desejo de interação, e nisso não estava totalmente errado - apenas parcial em medidas.
É gostoso e sem dúvida mais dinâmico criar em cima dos dizeres dos outros, o que reforça aquele papo de que as idéias não pertencem a ninguém.
Ainda assim nosso ego blogueiro quer ver mais comentários e caras diferentes a cada post, assim como queremos aplausos e elogios a cada nova criação, transformação e repaginada.
No fim das contas, a mesma velha sublimação, não é?
Quem vive o que sonha não precisa sonhar. Migra do sonho para a vida.

Já pensei isso um dia.
No momento não sei se estou pensando. Nisso ou em qualquer outra coisa.

***

"Será que a inspiração se alimenta apenas da dor?" - perguntou-me X, que parou de escrever quando curou-se de uma paixão. Já Z nunca curou-se de paixão alguma, mas hoje raramente exercita a instrospecção da poesia - antes, revisita sombras e publica velhos desesperos. Pudera, seu momento demanda a extroversão dos jogos eróticos do aqui, do agora. Y e W, a encher seus tanques, recompõem-se entre um silêncio e um espasmo. K luta contra seus controles tentando controlar-se e, quando relaxa, vocifera as volúpias de uma alma em transição.
E todos vão conseguir. Todos chegarão lá.

"Onde?"
No oposto de onde estão.
E eu aqui, a dizer dos outros porque de mim nada tenho no momento.
Mas chegarei lá.

"Onde?"
No oposto de onde estou (o que talvez signifique que em breve eu só diga de mim por nada ter dos outros).

Chega-se lá, queiramos ou não.


"A madrugada fria só me traz melancolia"
Na voz de Maria Bethânia

sexta-feira, 23 de maio de 2008

• Fatos inegáveis nº1

"Promessa de vida saudável
sempre dura menos que o doente"

Seu Hamirto

***

Outra coisa também é inegável:
Putaquipariu, como esse homem ronca!
Não é bolinho não. Dessa vez ele expulsou o companheiro de enfermaria... hehehehe!
No sábado passado eu vim do hospital pensando rapidamente se o ronco não incomodaria. Soube então que a certa altura o fulano chamou a enfermeira e pediu pra mudar de quarto. Foi taxativo: "assim não dá". Isso, minha mãe já sabia!

Meu pai é daqueles FeNeMês subindo a ladeira: ronca de lado, de barriga pra cima, de frente, de cócoras, embaixo d'água. Ronca pra burro; escuto daqui, a três cômodos de distância - um dia a Prefeitura nos altua. À cada apnéia, engole um mosquito (porque o cachorro não passou na frente, senão...). Minha mãe (que provavelmente consegue dormir até em show do Marilyn Manson), raramente desperta à noite e dá uma cutucata no velociraptor. Ele, claro, reclama: "me deixa dormir, poxa!".
Um dia foram acampar (nessa época eu sequer residia nas bolas paternas). Uns três casais e a sobrinhada. Chega a noite. Minha mãe, ainda desacostumada (acostuma-se com isso?), não conseguia dormir, mas estava cansada e por ali ficou, em silêncio. Até que meu tio levantou-se e disse: "Caralho, daqui a pouco esse cara vai levantar vôo!"
Todos riram imediatamente. Menos meu pai, que continuou dormindo.

Poizintão. O tiozinho pediu transferência de quarto. Meu velho ouviu a movimentação da maca, chinelos, sacolinhas de plástico e tudo mais. Fingiu que dormia e ficou lá, quietinho, cascando o bico.

Mais uma coisa inegável: você pode se divertir onde menos espera...


Como diria Suassuna:
"Tudo o que é ruim de viver
é bom de contar (e vice-versa)"

• Da série "Confrontos que gostaríamos de ver" nº1




• Little Joe

Poderes: Toca o terrô/ Traficante
Golpes:
- This mouth of fume is mine! (<+<+>+<+X)
- You lost, Maneh! (<+▼+↑+>+<+↑+B)
- I will put to break! (<+<+▼+↑+A)
- My name is Little Joe, sperm! (>+▼+↑+<+C)

Pontos fracos:
É carioca
Malaco
Favelado
Faz ponta em novela

-------------

• Captain Birth

Poderes: Sangue no zóio/ Megastress

Golpes:
- Ask to get out! (<+<+>+▼+↑+B)
- You are teenagem! Anderstand? Teenagem! (<+<+▼+↑+A)
- This dick is of the aspeera! (>+▼+↑+<+C)
- Zero-two, get the twelve! (<+<+>+X)

Pontos fracos:
É bahiano
É PM
Já foi bicha em filme
Já foi mulher em minissérie

quinta-feira, 22 de maio de 2008

• Lógica filha da pústula nº 1

Dia da mulher, dia da criança, dia da consciência negra, dia da solidariedade... simpaticíssimas homenagens de quem domina os demais 364 dias: o homem adulto, branco e rico.


Como diria
Stevie Wonder:

"Não vejo
nada demais!"

terça-feira, 20 de maio de 2008

• Otoridade

Pois é. Nunca entendi bem isso. Alguns íntimos levantam a tese de que minha "rejeição às hierarquias" deve-se ao conflito com a figura paterna, essas viadagens freudianas. Embora parcial (ignoram que já respeitei muitas válidas, por boas razões), vale a menção. Mas aposto em outros motivos.
A Primeira e mais tosca: todo bom mandão odiaria hierarquia por desejar ser o topo da pirâmide, o que me tornaria mais um imbecil prepotente com mania de grandeza, como outro qualquer. Ruim, mas pode ser, por que não?
A segunda, um tantinho mais refinada e mais impessoal: todo bom macaco precisa admirar e respeitar antes de obedecer. Essa parece melhor, mais pseudociência.

Só consigo respeitar a quem respeito.
Óbvio, não?
Sua empresa não acha.

Taí. Tive uma amplíssima coleção de boçais aos quais prestei subordinação. Daquele professor corno com pipizinho menor do que o giz (o qual comprimia com avidez sobre o quadro negro) até aquele "chefe", "encarregado" ou seja lá o nome que se dê para o chimpanzé sobrinho do dono que estala o chicote no seu setor. Aquele mesmo que, quando falta, não faz falta e tudo sai do mesmo jeito (senão melhor).
As empresas, escolas e grupos em geral não sabem escolher líderes. Tudo bem, o hábito da escolha é novidade. Ainda assim, nunca souberam nem desejam este 'fardo': se o fazem, é por arremedo, por chute ou, máxima das máximas, porque o concorrente faz. A prova disso é a existência de empresas (em franca expansão) que auxiliam outras na tarefa. Não pretendo entrar no mérito da funcionalidade desse auxílio. Lá estão os clichês merdacológicos, digo, mercadológicos que douram a pílula e disfarçam o foco na abstração sistemática, mecânica e completamente ausente de emoções concretas (exceto pela tal "motivação", que consiste em iludir tolinhos com quadros de funcionário do mês e plaquinhas de prata - quando vêm). O fato é que existem e, aqui, apenas atenho-me aos seus reflexos nas demais áreas das nossas vidinhas supimpas.
Um presidente, por exemplo... qual o critério da nação (ou danação - não sei mais)? O Pater familias? O ditador, o bom ouvinte, o sábio? Um Messias a limpar nossas cagadas, que não nos traga problemas? Qual o arquétipo?
Ninguém sabe. Mal e mal sente. E um país herdeiro de uma mente escravocrata e elitista como o nosso não só não sabe como sabe errado.
O assunto é tão velho quanto atual e a roupagem do tocador de bumbo não muda a natureza das galés. Ainda remam sob uma força qualquer que não aquela, desejada, de vestir a camisa e fazer parte de algo que não seja um estupro consentido.

Uél... aguardemos que todos mostrem a que vieram. Enquanto isso, as dúvidas.
Será só eu que reajo mal aos "você sabe com quem está falando?", ao "quem manda aqui sou eu"?
Será só eu quem espera de um líder a capacidade de gerenciar capacidades (suas e alheias)?
O tonto aqui é a única ponta-de-lança a esperar inspiração da mão que a mim porta?
Para onde vai Roma com os 'generais' de hoje?


Cartas à Redação.

• Ô semaninha lazarenta...

Mau blogueiro, mau blogueiro... tsc tsc tsc.
Meu velho passou pelo princípio de angina, esbarrou no princípio de infarto, passou pelo cateterismo,driblou a U.T.I. e agora está internado no hospital aguardando a alta. Espero que até sexta-feira, no máximo, ele esteja em casa. E que meta três gols na pururuca, na cerveja e no Hollywood de filtro amarelo.

Já eu... putsquelosparóla! Preciso de férias. Urgente.

Breve, novíssimas e incomensuráveis publicações
(além dos preparativos para a Festa do 100º post).

sexta-feira, 16 de maio de 2008

• Momento indignado - parte 1

A.k.a "ô minha nossa senhora da rebucetência irrestrita":

Deixo aqui meu protesto ao estúpido e multiplamente idiota Multiply por desprazeirosa e sorrateiramente tentar obrigar-me a registrar meu incomensurável nominho naquela merda de site. Não estou interessado em genéricos do orkut (mal dou conta de um), só quero postar uma porra de um comentário nos blogs do meus amigos.

É pedir muito?

Odeio arapucas. Digam logo "vamos vender seus dados pessoais fornecidos nesse gigantesco banco de dados de consumidores que todos pensam que é grátis, mas você vai se divertir".
Ofende menos.
Não sei desde quando as pessoas tornaram-se propriedades do Multiply (talvez em alguma entrelinha daquele aviso que ninguém lê antes de clicar em "aceito os termos de uso" - e que de qualquer maneira têm o mesmo valor judicial que uma foto de OVNI) nem quanto ganham pela exclusividade sine qua non, mas enfim... surpreendo-me que ainda haja neste mercadinho chinfrim da informática empresas estúpidas o suficiente para achar que coagir o usuário dá retorno em longo prazo.
Cobrar pra dificultar minha vida? E nabunada não vai dinha, né fio?

Quem não tá afim de mandar uma Microsoft sentar num toco de inhambu com picles? Levante a mão.
Então.

Em tempos de Google, cabe ao empresário-cabeça (algo como enterro de anão - nunca vi mas suponho que exista) encontrar novas formas de lucrar sem tornar o consumidor um refém. É por isso que a Telefônica perde mais clientes do que eu perco cabelo e o Google é venerado (e tenho meus dois pés atrás, apesar do usufruto). Acordem,senhores. Seus roncos atrapalham meu sono.

O bom da internet é que, apesar de apático e acomodado, o usuário é infiel pra chuchu.

Como diria Irmã Dulce:
"Pau neles!"

quarta-feira, 14 de maio de 2008

• Manual do Escoteiro Mirim nº1 - O Diálogo



Mais uma da série "ninguém perguntou":

a) todo debate é uma chance de reafirmar conceitos - e também reavaliá-los.

b) dialogar é debater idéias. Brigar é discutir pessoas.

c) prender-se a uma idéia é depender dela. Isso NÃO É conhecimento, é teimosia. Não se aperta parafuso com martelo.

d) se estou convicto do que penso, é claro que vou tentar convencê-lo: é assim que as idéias se espalham e ganham força. Se isto é bom ou não pra quem ouve, já são outros 500.

e) quando ambos estamos convictos, as idéias devem conviver se possível. Quando implicam em seleção, devem lutar até que vença a melhor, segundo um critério comum previamente escolhido. Não adianta chutar no boxe: razão ou emoção dependem de consenso.

f) se a convicção do interlocutor o fere, talvez seja porque a idéia é forte (uma vez que exista igualdade entre os participantes e nenhum sentimento de inferioridade esteja em jogo).

g) Você NÃO É sua idéia. Ela sequer É SUA.



Como me disse o Rei Juan Ete:
"Por que no te callas, carajo?"

• Dois pesos e duas metidas (digo, medidas)

Interessante como o politicamente correto corresponde a 50% de toda frase pomposamente pública.
"Não tenho nada contra os fulanos, mas quero que eles morram" não é incomum. Negros, gays, crentes, toda a série de clichês e rótulos usados como estigma para classificar e dividir o mundo em castas: todos servem ao propósito de tornar mais brilhoso o tucanês.

Os últimos tempos foram palpitantes, como diria Martha Suplicy durante a aula de sexo na TV Mulher. Um momento único para a ascensão dos P.C. (é tempo de siglas, pessoal! Economizem o teclado) - o reino do conservador-liberal de centro-esquerda destra. Chegou um momento onde nem importava contra o que regurgitariam; bastava que houvesse espaço para encaixar um "nada contra, mas" e tudo beleza. Esse é o rímel perfeito pra sair bonito na foto do novo milênio.
Aqueles 'amigos de amigos-gays', por exemplo, a-do-ram.
Pode-se dizer que trata-se de uma evolução: agora não precisamos mais ter algo contra para delapidar os direitos (ou a carne) de alguém, vejam só. Basta dar vazão aos impulsos prementes e fundamentais que balizam esta nossa promissora sociedade democrática. Ranços, crendices e recalques que a vovó ensinou, quem diria, finalmente alçados à igualdade participativa no processo de decisão da nação.

Nunca os dois pesos e duas medidas gozaram de tanta democracia: os quatro entraram no jogo livremente, sem nenhum daqueles critérios reacionários e separatistas como a lógica e a ética.
Joio do trigo? Que nada! Viva a macrô rica em fibras!

Tô encantado, quiçá boquiaberto.
Gostei tanto que pretendo inclusive aderir: a partir de hoje eu, que não tenho nada, nadinha contra preconceituosos com TPM, quero que tenham seus dedos e línguas cortadas para que eu não presencie mais suas pérolas súperes supímpares (das quais nada tenho contra nem a favor, antes muito pelo contrário e vice-versa).


Amém, diria Vovô Pipi (nochet).

terça-feira, 13 de maio de 2008

• A surpresa esperada

Sustos possuem aquela natureza ambígua da surpresa que te pega desprevenido mesmo quando é esperada. Não adianta o esforço em contrário: a vida VAI surpreendê-lo, de um modo ou de outro, para bem ou para mal. Não é? Diga que é.
Espero que sim.

"Como você tá?"
"Tô bem, já tô melhor. Quero voltar pra casa."

Meu velho teve um princípio de angina nesse dia 12. Foi pro hospital com uma bigorna no peito, um entalo, um vexame. Pra ele, eu sei que o vexame pesou mais, mesmo sem existir.
Está internado. Aquele senhorzinho frágil, ali na maca, assisindo a um filme mental. Coloquei minha mão no seu braço, meus olhos no rosto vermelho. Olhinhos úmidos sob os óculos que refletiam um Denis gelado e durão (diante dele, homem não chora).
Aquele senhorzinho frágil.

Subiu para a internação com pés de pneu e empurrão plantonista.
Não consegui abraçá-lo. É sempre difícil.

Depois. Na melhor das hipóteses (e eu não sei o que é melhor) voltará pra casa hoje. Na pior (e eu sei o que é pior) ele fica mais ou 'empacota', como sempre diz para amenizar os fatos.
No hospital, cara de cachorro molhado, sugeriu que eu acendesse um cigarrinho lá fora para que ele pudesse dar uma tragadinha. Com isso ele me contou, começo-meio-e-fim, como se dará sua recuperação. Seus últimos dias, escolhidos com a abnegação obscura dos loucos.
Eu sabia que um dia aconteceria. Dois mais dois. E mesmo assim, o susto.
Meu pai, dependente químico, quer morrer mas não quer. Quer viver uma vida que não existe porque não a criou e, por falta dela, recusa a que tem.
Meu pai, alcoólatra, fumante e pururuqueiro, entope suas artérias com gorduras de sonhos e péssimas compensações.
Meu pai, menino carente, é amado e nunca soube, por mais que se lhe dissessem.

É chegada a hora nada amena de escolher o caminho na bifurcação. De, a despeito da inércia dos anos, girar o timão. De, orgulhoso como é, considerar que o pior não é a despedida dramática, não ver os possíveis netos, não tocar mais o violão: o pior é jazer enfermo, dependente, paralizado ao meio até padecer definitivamente de um elefante sobre o peito, sobre o músculo mais dolorido do corpo. Não existe a poesia tranquila que ele sonhou: são dez minutos eternos, dolorosos e terríveis. É chegada a hora de mudar.

Infelizmente, eu sei: minha teimosia é hereditária.
Gostaria que a vida me surpreendesse como algumas vezes já fez. É uma merda ter alguma inteligência, saber ler almas e exames. Não quero esta crônica anunciada tanto quanto não quis as demais. Esta, não sei pontuar: faltam-me as vírgulas, as crases. As concordâncias.

Discordamos a vida inteira. Cobrei dele tudo aquilo que ensinou-me e assim me tornei - o pai da minha primeira infância, o nobre herói a mim tão íntimo. Pinguei minguados perdões às duras palavras ébrias, compreendi as dores do homem para além da profissão de pai - tudo em nome de vê-lo próximo, feliz. Mãe de bandido, insisti numa batalha perdida por ser a única que valia em si.
Lutamos de modos que nem ouso lembrar. Nossos crimes perenes, nossas rusgas e falésias, todas contadas em dias e em anos... hoje dão lugar à preocupação automática, à previsão de um sentimento de vazio combatido com esperanças que nunca fui bom em nutrir.
Tenho medo do que sinto. Do que vislumbro.

Quero que volte pra casa, sóbrio e feliz - duas coisas que conheço distantes dele.
Eu - que devo minha existência à frustração do Balé, aquele jogador de futebol que não brilhou por um triz, ou do Sinachi, aquele sobrenome que não uso e bem ilustraria uma capa de disco - conheço e amo aquele cara como nem ele mesmo. Aquele, a quem busquei em vão substitutos. Mesmo assim, nessa hora confusa onde, contraditório, espero tanto destinos quanto reviravoltas, entendo como não é possível lavar roupas que o encardido dos anos cristalizou. Aquele final romântico, das juras como ponto-final, não corresponde à sentença derradeira. Só o silêncio. Porque não há, afinal, nada de relevante que já não tenha sido dito. Nenhuma ação simbólica que se sobressaia aos atos dos anos, que demonstre mais do que uma vida. Um último mergulho no mar antes da partida não define o todo de suas férias.
Ele já sabe. Conhece meu amor, meu orgulho, minhas mágoas e ódios. Meu abraço é a resposta final, repetida à exaustão há três décadas.

Que a vida me surpreenda. Estou cansado de acertar previsões.

Volta, velho. Ainda não botei meu filho no teu colo.

sábado, 10 de maio de 2008

• Outras evidências da estupidez do blogueiro:

• Não adianta conferir e reconferir os comentários - é só aquilo mesmo (e agradeça se houver algum);

• Prolixia é um mal que se cura de várias maneiras (acredite: a mais divertida ao leitor sempre será amputar as mãos do blogueiro);

• Exercite a democracia reclamando da falta dela durante o ato de escolher as palavras (antes que te processem);

• Evite o arrependimento: não leia tópicos antigos.

• Posts longos não dão IBOPE. Posts sérios, ídem. Posts intimistas, jamé. Posts sórdidos... áueis, mailóvi!

Em caso de fracasso das abordagens supracitadas, siga os três passos da eficiência by Bill Gates: o control, o alt e o del.


Como diriam no cinema:
"Chiiiu, porra"

OBS: Quem fala no cinema para alguém não falar no cinema tem 100 anos de perdão?

• Enganos e vaidades

Surpreendo-me com os tropeços do dia-a-dia. As nuances com as quais lidamos nesse jogo de tatear pelo escuro são riquezas e, ao mesmo tempo, ardis.

Peguei-me numa situação inusitada e corriqueira ultimamente: alguns conhecidos acreditam que sou jornalista de formação.
Não sou.

Nunca soube ao certo o porquê dessa recorrência. No início pensei tratar-se de um engano, lógica leiga ou algo do tipo: como trabalho na redação do jornal e alguns (pasmem!) acham que escrevo legalzinho... pumba, uniu-se A com B.
A confusão persistiu outras vezes e terminei por considerar que fosse apenas desconhecimento; só quem tem algum contato com a área sabe que uma Redação é multiplataforma.
Sem falar nos técnicos e revisores (fundamentais), há os produtores de conteúdo, que assinam os trabalhos: o repórter redator, o repórter fotográfico, o repórter gráfico (ou infográfico), o Ilustrador, o Diagramador (e/ou paginador)... e todos são Jornalistas. Todos têm o mesmo piso salarial, recebem o mesmo Mtb (o registro profissional), estão sobre o mesmo Sindicato, a mesma regulamentação, profissionais de Imprensa em pé de igualdade. Todos necessitam de conhecimentos específicos e, no mínimo, noções gerais da matéria acadêmica Jornalismo, aquela que até o momento é pré-requisito apenas para quem escreve*.

*Aliás, eis uma polêmica pra outro post: não é imprescindível. Apesar do lobby, caiu a Lei provisória que exigia nível superior para a profissão de Jornalista - por isso, para bem e para mal, você vê de tudo a escrever por aí (dos velhos bambas sem formação há trinta anos no exercício ao Mainardi -- o que me faz pensar se a Lei abrange todos os primatas).


***

Isso dito, parece definitivo. Mas... será?
Será que, por algum movimento ou omissão, "deixei de esclarecer"?
Será que, por alguma vaidade ou carência, não alimentei o engano?
Se por um lado sei que o diploma de jornalismo anda mais desvalorizado que CPI, que a maioria das faculdades é uma piada de péssimo gosto e que, em última análise, não se ensina ninguém a escrever bem (no máximo, lapida-se a técnica e a visão analítica)... por algum acaso guardo algum apetite pelo 'status' que o jornalista, apesar de tudo, possui no país?
Influência da TV? Dos heróis do gibi?

Achei que não iludia-me com isso. Nunca tive motivos, cria eu. Sempre fui apaixonado pela comunicação e já quis estudar Jornalismo academicamente, idéia que não resistiu à realidade: o que presencio nos estagiários que vêm e vão, o que dizem os companheiros, editores, a Diretora de Redação e mesmo o Mercado, quatro anos e muito dinheiro para ganhar o mesmíssimo salário... em suma, uma enxurrada de pequenos fatos. Todo semestre assisto à chegada de garotos com canudos na mão e nenhuma noção do que é New Journalism, do que é apuração, posicionamento, do que rende notícia - conheço o lado de cá do que se vê nas páginas por aí, onde fica o útero dos clichês, as dificuldades inerentes, a submissão aos anúncios e políticas. Há algo ali que inconscientemente eu inveje?
Nesses dez anos dentro das Redações (12 na área de comunicação) passei pelo Diário, passei pelo Grupo Folha, circulei por agências e editoras, voltei ao Diário - participei dessa grande e abstrata família pulverizada pelas Redações paulistas. Naturalmente, boa parte dos meus amigos é jornalista de formação. Talvez peguei seus cacoetes? Provavelmente, mas ainda me assusta o possível indício que isso traz: eu deveria ter mais orgulho das minhas funções de ilustrador e infografista (designer é a putaquelosparió), daquilo que faço.
Sim, já escrevi esporadicamente matérias assinadas, já cavei muitas pautas, diariamente tenho de pesquisar e criar conteúdo. Mas comunico-me na maior parte do tempo por imagens - comigo a palavra é o complemento. Até meu texto tem apelo gráfico e não hesito em usar caracteres por pura estética. Noticio, informo, explico, traduzo, poetizo, critico e conto histórias pelo traço, pela imagem. Sou um Comunicador Visual. Profissional de Criação.
Há alguma desvalorização em jogo? Isso de algum modo relaciona-se com aquela velha discussão?

Gosto de comunicar-me também pelas palavras - o hábito cresceu durante a adolescência, quase a ponto de ofuscar minhas artes nativas (desenho, pintura e modelagem). Tenho minha meia-dúzia de contos inacabados e uma pá de poesias de gaveta. Já passei há tempos da fase de encantar-me com os meus próprios discursos - fato que faz-me irritado com a natureza monológica dos blogs - gosto da interação, da conversa, do tráfego. Se faço bem algo disso tudo, o reconhecimento é automático. Por isso sempre acreditei que nas minhas ambições fosse maior o impulso do poeta, o desejo pelo aplauso à arte, do que qualquer suposto glamour da profissão.
E, novamente, não encontro motivos.


O que explicaria a recorrência de enganos?


Cartas à Redação.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

• Índio quer i-pod / parte 2

Poizintão. De volta ao tema.
Já tem um tempinho que pinto índios e assim sublimava minha curiosidade. Estava na hora, senti, de começar a posicionar-me para além da fascinação: molhei os dedos num assunto onde gostaria de ter mergulhado com mais possibilidades (e olha que nem é Dia do Índio) e espero em breve ir mais além.
Vi "O Povo Brasileiro", do Darci Ribeiro, e aproveitei pra rever o "Xingu". Fui parar no Villas Boas, fucei mais um pouquinho e trombei com o Juruna, o Raoni e até o Paiakan. Curti as notícias do
Kaká Werá Jecupé (pude vê-lo ao vivo em 1992) e fiquei feliz com as novidades.
Gostei dos comentários do post anterior e agradeço pelas opiniões!
Segue abaixo um texto nada enxuto sobre um ponto de vista.
O contraponto, se houver, segue num post futuro.


***

"Quer saber como é? Visite a aldeia"

Qual?
Primeiro, é preciso dizer que há uma constelação de 'tribos' - muitas delas, não mais que vilas (quase favelas) mal sustentadas pelo assistencialismo da consciência pesada, que quer salvar o defunto no dia da exumação. Minizoológicos cheios de gente cuja única herança autóctone é um cocar mofado, usado em eventos para inglês ver, vazios de sentido e vestidos para a foto do gringo a vinte Reais.
Não são silvícolas não. Não têm oca, não têm taba. Não que o cenário faça o ator, mas... viver num trailer com parabólica, caçar embalagem de isopor no Carrefour... não é ser índio. Ao menos, não a imagem de índio usada para justificar ambiguidades. Não há esse grupo coeso ao qual batizamos - alguns nem mesmo aceitam outras tribos como iguais. Muitos vivem em Itaquera enquanto outros estão em Rondônia. Tal generalização é a mãe vadia do paradigma.

Segundo, convém sublinhar que os amplos territórios dedicados ao arremedo de compensação histórica, dos quais uns poucos (chamemos "sortudos") são detentores e ocupam tanto pulverizada quanto minimamente, não se encontram nos cálculos do Incra e muito menos são regidos em recursos por qualquer órgão nacional relevante (não que não sejam explorados - apenas o país está fora dessa). Estas terras, mantidas para garantir espaço de nomadismo a muitos sedentários de velha data, não entram no debate da redistribuição territorial, não entram na questão dos latifúndios, não entram na avaliação de potencial econômico ou ambiental. Só pra adoçar o glacê, pense você que o índio tradicional já provocava impacto ecológico e imagine o que não faz um com picape e garimpo ilegal. Lembre-se disso quando falarmos dos demais brasileiros ou ao questionar a importância do tema.

Terceiro, o dito acima faz parte do paradoxo onde muitos encontram-se num absoluto estado de pobreza, na máxima carência tanto em recursos quanto em dignidade. Do alcoolismo aos confrontos com grileiros... vê-se apenas a ponta do iceberg. Doenças abundam e só não são maiores do que o caos de inocuidades promovidas pela sociedade pseudoativista, em seu esforço por dormir com a consciência tranquila no travesseiro do dever cumprido. Acrescente os temperos da dispersão, no quais órgãos obscuros têm diante de si terreno fértil para lavagem de dinheiro (ou alguém vai ao Xingu ver se a verba é bem aplicada?) e lembre-se que aquele índio no jornal, com seu facão no pescoço de um funcionário (ato que, feito por você, seria passível de processo e prisão), também é movido pelo desespero ao abandono.

Os clichês são tantos que mal sabemos por onde começar.


CULTURA
Difícil definir algo tão permeável e mutante. Ótimo por um lado, péssimo por outro. Péssimo porque não se defende a fronteira do que não se conhece. E lá vamos nós.
Do modo como segue a maioria, ser índio hoje é quase como bolinho de chuva: uma tradição da bisavó que alguém manteve por saudosismo, entre uma e outra lazanha congelada. E a profundidade disso, digamos... é a mesma do óleo que frita o bolinho. Nem a genética, suposto patrimônio étnico, se manteve: o que tem de índio Jeferson com cabelo pichainho não tá no gibi (se você acha difícil definir quem é negro num país de pardos, imagine o trabalho das cotas universitárias diante disso). Do mesmo modo, cacique Uóchito fazendo acordo com traficante e madeireiro você não vê no Discovery Channel.
Ótimo absorver conhecimentos herbais. Lindo compreender contextos históricos e filosóficos. Magnífico valorizar artes únicas. Mas... você sente saudade do arado? De lavar roupa no rio?
Então por que acha que alguém gostaria de ser mantido, por terceiros, na rusticidade absoluta? Qual não-romântico gostaria de permanecer na primitividade?
"Bom pra eles"? Tão bom quanto era pra você tratar câncer com reza ou procurar água por quilômetros. Todo dia.

UADERREL ISDÉT?
Sem discursos Iluministas: não creio que a razão ocidental vá clarificar qualquer ponto desta situação (do contrário, pelo menos a tentativa de manter os índios intocáveis teria dado certo).
Assumamos a hipocrisia. Não adianta viver de paliativos sob o pretexto de responsabilidade social, niilismo, pseudointelectualismo ou, para os mais francos, remorso histórico. Inês é morta. Milhões desapareceram por doenças, bacamartes e bíblias. Dizimados. O que restou é substrato, tão nativo quanto eu sou dos Alpes Italianos, mas nem sei o que é neve (nem seu nome em genovês arcaico).

Se não se pode julgar uma cultura pela ótica de outra, então comecemos por esquecer as fantasias que sustentam sua figura.
Por exemplo, se índios tivessem consciência ecológica, não teriam derrubado pau-brasil pra portuga a troco de miçanga. "Só derrubar árvore morta"? Sei. Também mataram e escravizaram inimigos, cometeram seus infanticídios, logo são humanos sob contexto e não elfos celestiais.
A tal pureza, tão idealizada pelos arrependidos, não se sustenta nem sobrevive ao escrutínio. Primeiro porque foi maculada por séculos, obviamente. Segundo, que o novo lifestyle foi abraçado até o caroço. E nem é preciso minúcia para perceber: pergunte a alguns deles o que desejam. Pode crer que uma Hylux 6 cilindros vai ganhar mais votos que um cocar novo para louvar ancestrais. Normal: todo humano busca facilidades e eles não vão cozinhar na fogueira sabendo que, com três toques, o microondas cospe o pirão quente.


CURIOSIDADE...
Já viu os velhos documentários naturalistas? Índios não falavam seus nomes quando discursavam; não havia EU nas sentenças. "Índio isso", "índio aquilo" não era mera primitividade gramatical do tipo "mim Tarzan": sua mentalidade era coletiva - um índio falava pela tribo, o que dizia era a voz de sua raça (entre tantas). Ego é adição recente. Parece exagero, mas aquele que busca benefício estritamente pessoal já não é índio: está inserido no modelo-base de comportamento 'civilizado'.
Sendo assim o Pagé Kleberson, ao desmatar hectares e empenhar para o plantio de maconha as terras de reserva, é tão índio quanto um morador da Rocinha: um oportunista sobrevivendo numa situação instalada à revelia de sua vontade. Um sobrevivente dos novos tempos. Se ele reza pra Tupã e um outro pra Jesus é secundário: onde jaz um índio, resta um brasileiro. Esta é sua nova realidade, que nenhum chapéu de penas ofuscará.

Então... por quê?
Já foi dito: a culpa travestida de ativismo terminou por criar (ou arrebanhar) nativos viciados em esmolas caridosas (algo que todo cristão latino adora entregar em público). Paga-se a mãos anônimas por um perdão histórico, ao custo de uma ou outra adulação e muita indulgência. Mas não há indenização para a morte, para a perda cultural irremediável.
O fato é que os séculos de espelhinhos habituaram estes povos e completaram o serviço de catequização. Perdão, mas... tentar mantê-los artificialmente num estado de imaculação é como estuprá-los e depois cobri-los para que não sintam frio nos pés. É tentar manter a virgindade via sexo com meio falo: fazemos não mais que gracejar o último dos pandas. Meio tarde para tentar, não?
Esse estado ambíguo, esse 'nem lá nem cá', é a pior das heranças. Só intelectualóide não vê, porque é bonito imaginar uma Pasárgada qualquer onde se possa depositar sonhos, melancolias e nostalgias do que não se teve.

***

Indenizações
Cá entre nós, somos históricamente péssimos na tradição de recompensar: parimos Israéis louras por todos os lados. E só insistimos porque é mais fácil remendar do que evitar furos - nesse exato momento, numa Roraima qualquer da qual nunca ouvimos falar, há brancos travando contato com aqueles poucos índios ainda selvagens (sim, existem - por enquanto). Brancos que você preferiria não saber quem são.
Gostaria de entender melhor o que é essa borracha histórica dos erros idos. Acaso os negros da Bahia, Bantus e Quetus, Senegaleses e Angolas, não mantiveram suas culturas a ponto de influenciar todo o país? Esses, ninguém 'indenizou' - nem com um mísero shortinho da Adidas. E os imigrantes, escravos das vendinhas das fazendas de café, engrenagens da Revolução Industrial tardia, que mantiveram suas festas de Achiropitta e Oktoberfests, foram menos oprimidos quando expulsos pelo Ducce, por Franco, Hitler, peste ou fome?
Ia faltar chinela havaiana, viu.

Sempre ouço aquele "roubamos suas terras". Não vou nem perguntar quem é esse "roubamos", muito menos quem era o dono (lembra do índio Seattle? Pois é). Todos os povos desse planeta já foram conquistados por alguém e anexados - infelizmente isso parece inerente ao contato entre civilizações díspares, entre dominantes e frágeis. A humanidade conta sua história por genocídios e se em algum momento uma Roma tornou ibéricos e germânicos uma só nação, isso é fenômeno que não cabe a este blog elucidar, apenas aceitar. O que tão coesamente chamam hoje europeu um dia foi um enxame de vilas separadas por poucos quilômetros e contextos quilometricamente distintos. Visigodos, ostrogodos, gauleses, anglo-saxões, celtas, gregos, nórdicos, mouros - só receberam o devido respeito ao aproximarem-se da igualdade, inclusive no direito às diferenças. Tanto quanto nós, espanhóis, italianos, portugueses, japoneses, angolanos, nigerianos e alemães nos chamamos brasileiros e lutamos por esse nivelamento gradativo, sem o qual não há nação. Exceto o tal índio, mantido de fora do jogo, visto como um souvenir exótico do passado que deve continuar fechado no baú, como quem foi e não como quem é; herança segregacionista da mentalidade imperial. Aquele inquilino distinto de nós, vítima do apartheid cultural maquiado como um suposto respeito que, de quebra, boicota a formação de uma identidade nacional.

É claro que possuem direitos: uma dúvida dessas, a essa altura, não tem cabimento. Não é esta a discussão do blog nem é este um manifesto racista. Não é meramente a questão de sermos justos ou não com aqueles, mas sim se temos sido justos também com os não-índios ao criar novas castas num mar de negligenciados. Não vejo onde estes merecem ser tratados de modo diferente dos sem-terra (não raro, igualmente mestiços - como a maioria da nação) nem porque estão sob as asas do paternalismo falido.
Por fim, ninguém liga pra minorias: se cidadão com RG e IPTU já padece, imagine...
Chega desses tais esforços, desse faz-de-conta vendido como se benefício ao índio, àquele que já morreu. Se a busca fosse pelo melhor (ou menos pior) aos descendentes desfigurados, essa gente trancafiada à condição de mausoléus de si mesmos, bastava simplesmente integrá-los, com dignidade e oportunidades, à sociedade brasileira.

Ah... só isso?
Sim. Se por 'só' você entende retirar a máscara de vítima e trazer um povo ao status de dignidade que tanto nós quanto os próprios verdadeiramente entendemos como tal.
Que integrem logo esses brasileiros, antes que um garimpeiro ilegal o faça. Que ao menos possam tornar-se cidadãos do império que os digeriu. Se, sujeitos às leis e desafios de todo brasileiro, estarão sob um fardo que também a nós pesa muito e pouco retorna, é valioso pensar que somarão forças na luta pelos interesses comuns e estarão finalmente num palco que, se não funciona, ao menos chama mais a atenção do que os guetos obscuros nos quais, ignorados em sua condição real, naufragam.
Por enquanto é no que creio.


E você, o que acha do assunto?


terça-feira, 6 de maio de 2008

• Kaghanda Yan Dandha vos diz:

"Se você atingiu o Nirvana,
espero que tenha mirado no Kurt Cobain"

5 gauchos : 1 Passeata gay
Sri Swami Kaghanda
Yan Dandha ॐ
em "100 Anos e Sou Lindão"
21ª Edição

Editora "Rebola e Desembola"
- 1250 páginas -
ISBN 0394583904-303



segunda-feira, 5 de maio de 2008

• Índio quer i-pod / parte 1

Como blogs são feitos pra sair bonito na foto e isso é um tanto monótono, vou arriscar a enfeiar-me (e assim parecer-me com vocês, populacho destituido do quilate estético que em mim abunda*).

***

Hoje viajei com o post da Mony, sobre a aldeia que ela visitou em Boracéia (SP). Acompanhava a Maria, amiga nossa, encantada com aquele Brasil que nós também não conhecemos (talvez porque não exista mesmo). Confiram o texto na íntegra (como diria aquele jornalista que precisava de mais 30 caracteres pra fechar a coluna).

O texto me fez pensar (e repensar) num tema espinhudo, daqueles que te fazem questionar se o próprio discurso não é permissivo demais para um mundo que exige posturas, ou reaça demais pro seu bico democrático-comunista tupiniquim (opa, voltamos ao tema).
O post estava quase pronto, aguardando aquele reforço na forma por falta de conteúdo, a lapidação que lima redundâncias e reforça impactos, quando tive o prazer de assistir ao documentário "O Povo Brasileiro", de Darci Ribeiro, levado às minhas mãos pela mesma Mony (tênquil!).
Fiquei encantado com a chapuletada na orêia que o video lascou-me e lembrei que precipitação não combina com discursos públicos, muito menos com formação de opinião (sendo justamente a formação da minha própria aquela onde quero chegar). Ainda assim, idéias desmancharam-se no mesmo passo em que outras solidificaram. São esssas que divido com vocês nos próximos eletrizantes capítulos de 'O Último Tango em Macondo'.

***

"Índio, quem, cara-pálida?"


Sempre fui pró-cultura, pró-preservação. Sempre vi riqueza na conservação dos valores de um povo, desde que isso não negasse as transformações necessárias e fosse mantida numa via de mão dupla (do contrário essa mesma visão seria facilmente distorcida para justificar a imposição cultural dos Impérios).
Mas... sinceramente?
Não sei se isso aplica-se a todos os que a Funai chama de índios.

Se isso é importante?
Sem dúvida. Há toda uma gama de investimentos, resguardos, dívidas morais, agrárias e econômicas motivadas pela necessidade de compreender este tema, tanto como indivíduo como coletividade. Há pretensas justiças priorizadas sobre infindáveis preteridos numa fila imensa de filhos desta mãe gentil.

Nos próximos posts, pretendo encontrar uma linha de raciocínio possível a um cidadão brasileiro mediano, com poucas informações sobre o tema e nenhum conhecimento específico (situação na qual todos nos encontramos quando confrontados com a maioria dos dilemas). Gostaria de ler suas opiniões... quem sabe o debate não rende?

Abraço!


* (é, eu vou me arrepender dessa frase...)

sábado, 3 de maio de 2008

• Coração Zagreu

Amanhã (ops, hoje) vou ter com meu Amigo.
Falei pouco ou nada sobre ele neste blog que anda um tanto intimista (mais do que minha máscara gosta de assumir).

Mario é um desses raros presentes que ganhei de sopetão, sem esperar. Por muito tempo desejei mestres a ensinar-me mas, ainda bem, os deuses sempre ignoram meus pedidos idiotas e quase sempre mandam-me pelo caminho algo melhor que a encomenda (por isso mesmo espero que não cobrem).
Durante minha vida trombei surpreso e distraído com gente de todo tipo, e alguns tornaram-se marcos especiais. Se bem que 'marcos' são estáticos demais para referir-se ao dinamismo e vitalidade que esses alguns infundiram em minha vida. Quando penso em 'alguns' sinto que não estou em justiça com as medidas corretas: há muitos nesse pocketbook da minha existência a iniciar capítulos, de orelhas de burro a notas de rodapé.
Mario não é nem um nem outro. É uma mancha boêmia de vinho que caiu sobre as páginas e varou por várias, diluindo palavras e subvertendo signos. Seu melhor, enquanto mancha, é acompanhar-me página a página, na leitura e na escrita. Sobre ele a caneta não pega e tenho de buscar sinônimos, revoluções e novas idéias. Sobre ele as ondulações do papel tornam-se ovelhas de nuvem que me obrigam a desenhar improvisos no melhor de mim. Mancha o que escrevo com sua embriaguês indelével. Quem diria... eu, feliz pela embriaguês de uma figura que por muito tempo foi paterna. A poesia, que ele ensinou-me a amar, tem desses paradoxos.
Mario foi desafio, colega, professor, companheirão de boteco, amigo e pai. Hoje ele é Amigo, A maiúsculo. É como meu pênis: é parte de mim mas tem vida própria*. O cara ultrapassou todos os limites e critérios que usei durante a vida para definir a participação das pessoas na minha intimidade. Quando eu não sabia mais o que ele era é que o encontrei.
Mario é um amor.

***

Amanhã (ou hoje) vou lá cuidar do meu velho filho-pai todas-as-coisas. Seu pé está machucado (pouco menos que suas asas; estas, apenas o suficiente para abalar sua vaidade) e este é um bom pretexto para mimá-lo enchendo o saco por algumas horas. Irritarei sua fúria de Xangô, queimarei sua infâmia de cronópio e não deixarei vazia a taça de seu Dioniso. Ele vai torrar minha paciência com perguntas de informática para embonecar seu blog (maldita inclusão digital!), vai fazer trocadilhos e rir do que eu levo a sério, vai empolgar-se com as mil histórias e aventuras que viveu e/ou sonhou, vai disfarçar o peito estufado de satisfação com a casa cheia que ele, animal gregário, adora ter. Ou seja, vai fazer Marisses. E é por isso que eu vou.

***

Ele acha, eu sei, que devo preparar-me desde já para a amputação.
Um dia eu vou limpar a bunda do Marião. Vou trazer a última cerveja que o doutor proibiu. Vou vesti-lo em suas últimas roupas e guardá-lo no ventre da terra que ele ama desde sempre, na forma de suas 9 paixões e mil mulheres de encanto. Vou despedir-me, cobri-lo de areia e queimá-lo no Tempo; menos seu coração. Este guardarei na minha coxa direita e banharei com vinho.
Mas não hoje. Hoje (e amanhãs) eu vou ter com meu Amigo.
Porque Mario sou eu.


* Pode apostar: ao ler isso o filho da puta vai rir e dizer que não procede, pois não é careca com um furo na ponta (e muito menos microscópico...)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

• Dia do Trabalho (pra variar...)



...e o 1º de Maio deixou seqüelas.
Trabalho direto desde a segunda retrasada.
Sorry, caríssimos leitores. Tô pôdi. Prometo que muito em breve aparecerei com novíssimos e incomensuráveis posts idiotas para podermos rir das nossas caras com a devida propriedade.
Só espero permanecer acordado por tempo suficiente para postar essa mens




zzzzzzzzzzzzzzzzZZZZZZZZZZZZZZ...

quinta-feira, 1 de maio de 2008

• Putz!

Que merda de blogueiro sou eu?
Só agora percebi que tá faltando por aqui uma crônica do Jabor escrita por outra pessoa.
Desculpem nossa falha*!




*(pois 'falha' nunca é minha, no máximo nossa).