terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

• "Por que você fala pouco de política?"


Conversando na semana passada, pintou essa pergunta. Primeiro fiquei surpreso, porque achava que política estava no meu leque de falastragens e palpites. Agora, após me bater com outra dessas sincronicidades que me levaram pro mesmo tema, esbarrei numa resposta.
Pensando bem, acho que não falo muito de política mesmo. Já comentei por aqui, mas nada muito além. Até brinco, ironizo, faço piadas (tá, ultimamente tô mais chato que peito de véia, mas você entendeu). Mas encarar o papo com a mesma verve, a mesma fibra da adolescência... ah, não tenho mais pique, não. Política é paixão dolorosa, ilógica como torcida de futebol e religião. Exige, demanda, consome. Cansa.
Não é uma postura racional, pensada e escolhida. Simplesmente acontece: o assunto surge, algum esboço de comentário vêm à cabeça, mas depois... só silêncio.
Eu não acho que sou a pessoa mais indicada pra falar de qualquer coisa - nem de mim mesmo. Mesmo sabendo que ao longo dos anos atingi um nível mediano de entendimento das coisas, percebo claramente que careço de capacidade (principalmente emocional) pra lidar com esses meandros sociais. Ainda assim, algumas pessoas gostam de me ouvir e sinto que decepcionam-se quando refugo no tema.

Embora o que eu vá dizer agora seja 80% emocional, há um novelo de pensamentos que me acompanharam durante esses anos que não sei desenrolar. Tá certo que esse blog não é exatamente pra isso (mas também, eu nem sei mais pra que ele serve hehehehe). Mas tá, eu falo.

Numa boa, mas.... cá entre nós, vocês não estão cansados desses papos?
Cara, é como eu disse: o saldo até o momento, desde os meus primórdios estudantis pueris and kid vinis, quando comecei a ler, conversar e caçar informações sobre política e relações sociais, foi só a tal desilusão. Sem melindre, mas é isso.
Bandeiras, partidos, filosofias: pra mim o resumo é mais cru. Tirando a maquiagem de sofisticação, o que vejo é um punhado mais ou menos caótico de grupos, uns pulverizados e outros bem organizados, todos caçando os seus e tão somente os seus interesses. Os organizados levam vantagem, adquirem recursos mais rapidamente (uma imagem que poderia representá-los seria o fasce - um feixe de galhos amarrados que, tão rápida quando curiosamente, adquire um machado sobre si). Os pulverizados são fracos, uma grande massa que, amorfa, é incapaz de focar energia.
Grupos. Nenhum, nenhunzinho deles jamais teve a visão de que, numa escala maior, times aparentemente díspares são co-dependentes e fazem parte duma mesma ordem maior. O resultado é que essa queda-de-braço predatória, estúpida e pré-primata atropela interesses maiores e ninguém toma a iniciativa de resolução. Ou por ser pouca, ou por conflitar com poderes estabelecidos e difíceis de abalar, ou por fragilidade mesmo.
Veja por exemplo na política, onde nenhum modelo adotado sequer conseguiu garantir a própria sobrevivência de modo estável. Você tem na história alguns domínios de milênios... e hoje mal se consegue manter uma nação por 50 anos sem oscilar. Tá, o mundo mudou, mas mudou mais firme na intencidade e na voracidade desse jogo. Qualquer um de nós nos tempos de Alexandre seria um rei. O combate na venda de cartões de crédito é mais malicioso e feroz do que qualquer feira na Mesopotâmia jamais presenciou. Eu não sei vocês, mas eu não fico à vontade pra chamar isso de evolução.

Os preços pagos por qualquer regime foram e são catastróficos, mesmo com a melhor das intenções (que sempre enchem o inferno). Os ditatoriais são óbvios. O capitalismo também mata pra caralho, diariamente, e não é em Gulag, em campo de concentração; é ali no seu bairro mesmo. É pelo dinheiro que seu filho toma bala, é pelo dinheiro que você perde sua juventude, é pelo dinheiro que se invade um país. A promessa iluminista desabou e o que temos são TODOS, do Bill Gates ao Pelezão da Vila Mastruz, a roer um osso indigesto demais pra manter as engrenagens rodando. Você as azeita com o seu sangue, com mais ou menos regalias e, tal qual moscas, a briga visa conquistar o lugar mais quentinho no estrume.

A desumanidade dos "sistemas", seja lá o que isso for, coisifica a tudo e nem mesmo o presidente de uma corporação está livre de ser dilacerado por essa criatura abstrata. Não interessa (o "jogo" inclui diretrizes que desumanizam pra facilitar o trabalho, é por isso que você tem um número no seu crachá, que baixas de guerra são contabilizadas - 1000 indianos num acidente é um número; Haji Sankar, 8 aninhos, que adora desenhar e ouvir a mãe cantar, é outra coisa). A ética passa pelo olhar, pelo reconhecimento do outro. Como é que você vai sacanear, jogar, vencer o outro se ele for alguém? Hitler era um doce de pessoa com o seu cãozinho malhado. O bichinho tinha nome.

O que é um grupo senão as pessoas que o formam?
Todos esses sistemas, todos, se esquecem disso.
E matar passa a ser tão viável no jogo quanto demitir.

Já há produção de comida e riquezas pra todos. Só as perdas por descuido e desperdício na agricultura nacional já ultrapassam o número de famintos daqui. O que não dá é pra todos viverem o estilo de vida americano, por exemplo. Mas também... quem disse que precisamos disso? Ora, essa pergunta é uma das blasfêmias do jogo: ela simplesmente embola a engrenagem, afrouxa a mola propulsora dos desejos canalizados pra manutenção desse mundo. E se o mantemos... bem, talvez gostemos assim. E são raros os que assumem que não se importam que haja sedentos em nome de sua piscina cheia. E não há mérito nessa franqueza, mas chega ao ponto.

A memória deveria ajudar, mas é seletiva. Pra que caralho os macacos se juntaram numa caverna? Pra facilitar a vida. Pra que você entra num clube? Pra usufruir dele, claro.
Mas o objetivo se perdeu faz tempo e nem sabemos mais porque o fazemos, apenas nascemos nele, temos a impressão de que sempre foi assim e não conseguimos imaginar modelos que saiam desse paradoxo. Quando achamos que imaginamos, vez ou outra esbarramos no velho sistema, dependente de opressões e financiamentos. E jogamos pesado com a troca de acusações, com as justificativas pelo erro de outros. E Cuba só está na merda pelo embargo capitalista que não os deixa capitalizar, etc. Mas não falta champagne pro Fidel.
Os clichês não ajudam. Pensamos, por exemplo, em igualdade e liberdade. Mas eu posso ser livre então pra ser desigual a você? Parece bobagem, mas há quem tropece nisso. Ouroboros, o Dragão, regenera seu pescoço mais rápido do que come o próprio rabo? Que fim pode levar este ou qualquer outro sistema que digira a si mesmo?
Diga você. Na boa, se eu fosse religioso não imaginaria leviatã maior que esse pra ilustrar minha bibliazinha.

Como falar em margens eternas de crescimento de 10% ao ano (e sobre o salto mais 10% no ano seguinte) num sistema fechado? É óbvio que o negócio é Highlander, só pode haver um (que perde o sentido quando fica só). Platão refugou, Marx se enrolou e o Rockfeller... oh my fella!

Todo esse "sistema", toda essa parafernalha culturalóide vomitada pelos séculos não conseguiu garantir o bem-estar dos seus sustentadores nem garantir o bem-estar das gerações futuras. Barões de café se suicidaram em 29, famintos devoram-se por diamantes que nunca usarão em Serra-Leoa. Tem algo muito errado aí, e não é de surpreender que ativismo seja niilismo, que a vontade de fazer seja quixotesca, que ser honesto seja sinônimo de inocência... e inocência, vocês sabem, seja defeito.

Pra quê falar de bandeiras? O comunismo (o socialismo nunca foi aplicado de fato) dizima o indivíduo pela homogeinização e pasteurização de seu povo. O capitalismo (democracia só existe entre iguais e se seu poder é maior que o meu, eu não participo do jogo) dizima o indivíduo estimulando um ego que homogeiniza pelas necessidades reais ou imaginárias - todos querem o mais novo i-phone, mais que arroz com feijão.
Traduzindo: Ninguém quer saber de você. Nenhum desses sistemas foi feito pra durar; são antes regras de um jogo que precisa chegar a um fim do que um status de manutenção duradoura. Não há nada focado no bem-estar dos seus membros. Nesse jogo, pra alguém vencer outro tem de perder.

Por isso a questão ambiental (que é basicamente manter inteiro o tabuleiro onde queremos jogar) tornou-se estupidamente irrelevante pros grandes jogadores. Por isso o cara destrói o destino dos herdeiros apesar de trabalhar pra acumular capital pros mesmos.
A raça é egoísta e deixa sua assinatura em qualquer atividade.

Enfim... conjecturas frágeis e nada mais. O assunto dá voltas, a maior parte em volta do pé. Matamos nossos deuses, nossos nortes emocionais, mas não substituimos com algo melhor. Apenas caceremos. Aí fica difícil definir o que é coletivo, o que é "bem maior". E cada um faz do seu jeito.

Você pode me perdoar por, diante desse panorama, não querer dizer mais?
Eu não falo de política porque ela não tá focada no que me interessa: pessoas. Apenas é feita por elas, mas não para.
Eu só queria dizer que tô fora. Não sei se conseguiria, meu senso de coletivo apela muito em mim, mas... nessas horas, quando cai a ficha, meu Eu mais pragmático assopra-me a frase: se é asim, eu quero o meu e dane-se.
E olha... ultimamente eu quase concordo.


E você? O que acha?

5 comentários:

De Marchi ॐ disse...

Eu acho que é melhor ler isso do que ser cego! hehehehehe

Karin disse...

hmm... seria a política o mal da humanidade ou a humanidade o mal da política?

Por mim, pode continuar sem falar, porque não gosto do assunto... Só me importo mesmo quando a política empaca a minha vida e geralmente nesses casos a coisa tá tão acima do meu nível de ação que não me sinto apta a fazer nada mesmo. De que adianta eu julgar se não posso modificar?

Luiz Rogério disse...

Disconcordo. Ou não.

Acho que a maioria dos políticos desse nosso pais tropical é um bando de aproveitadores ou egomaníacos. E infelizmente a maioria da população brasileira não reprova a roubalheira, ao contrário, se estivesse lá faria a mesma coisa. Então a classe política reflete isso. Não acredito numa melhora significativa nos próximos 20 ou 30 anos.
Pode continuar sem falar em política, por mim também.

Mariana disse...

prefiro não discutir nem política e nem religião
aguardo próximos tópicos

Mariana disse...

A música desse buteco tá ótima, foi ficando...
Tem caipirinha com maracujá?