terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

• Um Não e a Lili ficou louca


Poizé, barbudão!
Um não, um nãozinho de nada, e a Lili ficou louca. Balançou o pezinho, apoiou o punho no queixo, suspirou e arfou. Pois é. O não dela eu tive de aceitar. Ela disse que não, mas ficou.

"Você não acredita em Deus?"
"Qual deus?"
"Deus, ué."
"Não".



Pronto. Eu não sabia que "não" era comburente. Que esta palavrinha agitada era perigosa perto da nitroglicerina das polêmicas, eu até imaginava. Mas que provocasse combustão espotânea assim tão milagrosamente... santo Caramuru, Batman!

Qual o problema, afinal, em alguém ser ateu, ou cético, ou simplesmente não ligar pro tema?
Veja, eu sei que é chato pra chuchu ouvir aqueles céticos malas, que vêm te catequizar tanto ou mais do que os queimadores de feijão do domingo de manhã. Porque tanto um quanto o outro cometem a mesma sacanagem (pecado de um lado, falta de ética do outro): não te deixam pensar por si, na sua com as suas escolhas. Pra esses, com seus jogos de semântica e retóricas de pa-pel ma-che-ê que nem o João Bosco foi tão chato em cantar, eu deixo o vácuo tomar conta. De que adiantaria, afinal? Eles vieram pra falar, não pra ouvir.

Quando me perguntam se sou cético, eu não sei responder. Também não sei quando o foco é a fé. Eu só sei que não 'tenho' religião, embora viva numa sociedade cristã e portanto sofra sua influência. Não concordo e não me diz nada, porém. Tenho algum senso de Sagrado, mas o sentido disso é bem outro. Não acredito em nenhuma "energia" que não seja energia mesmo. E não gosto de crente chato tagarela. Só.
Quantos nãos, né? Mas fazer o quê? As perguntas não ajudam.

"Ah, então é ateu?"
Bom, sei lá também. Talvez seja o mais perto, pra saciar essa fome por definições que surge em todo diálogo. É isso. Pra todos efeitos... sou Ateu, Graças a Deus!
"Por que?"
Ora, precisa de um? Eu não tive até o momento nenhuma frustração melindrosa do tipo "pedi pro papai-do-céu pra salvar mamãe mas ela morreu de câncer". Não é birra, eu só não acredito. Se você me disser que vai subir uma parede de vidro sem nenhum mecanismo ou pegadinha, também não vou acreditar. Mas se você subir na minha frente, talvez eu acredite, por que não? Se possível, queria entender. Mas no fundo não fará diferença, fará?

"Você acha que tudo surgiu do nada?"
Acho.

"Como você não acredita num Criador, em Deus? É preciso haver um!"
Bom, tu acha que precisa, pra mim tá tudo fazendo sentido, por enquanto. A pequena parte, a pequeniníssima parte que eu sinto ter entendio, pelo menos. Sim, porque... eu assumo não saber e, francamente, apesar da fantasia e da mania de grandeza eu não espero saber dos segredos do universo sendo finito, pequeno e mal dando conta do básico. Não precisa me provar nada, mas também não precisa me pedir pra crer sem nada, né? Voto de confiança eu dou só quando não é à toa.

E... que perguntinha, né? Qual deus? Não acredito num monte deles. Alguns eu gosto de imaginar, mas não me confundo a ponto de esquecer-me disso. Algumas histórias são lindas, arquetípicas, adoráveis (pero sem adoração). Em todo caso, ainda não passei por um desespero que me fizesse dar maçã pra gnomo, aguardar o portal de Órion ou rezar pra um Deus universal que tem um plano desde o início da Criação, mas vai mudá-lo só porque eu adulei-O com meia-dúzia de rezinhas interesseiras.
A bem da verdade, eu acho mesmo é que tanto faz.
Eu não sei porque se importam. Se Deus, nos termos amplamente apresentados pelo mundo, existisse e quisesse que eu soubesse dEle... Ele me diria, não? Faria o cego aqui enxergá-lo (não simbolicamente, plís... É tanto logotipo e tanta bandeira que eu não poderia aceitar um deus que contribuisse para a poluição audiovisual do praneta!).
Mais que isso, acho que se isso fosse relevante, faria parte da existência. Assim, aquela certeza de Deus que faz diferença. Por exemplo, eu tenho pai, sei que tenho (e aí não preciso de fé, tenho a experiência). Por que preciso, sendo adulto, pensar nele a todo momento, pra tomar minhas decisões? E se o biológico não tem esse peso, por que teria o espiritual?

Outra. Eu não sei o que é "o Bem". Não entendo absolutos nem enxergo a dimensão que os atos desencadeiam. Mas tento agir e assumir posturas com alguma responsabilidade, cuidar dos que amo por amor, por vontade... e não porque um bedéu celestial está a me castigar, embora não tenha me ensinado o certo mas venha fiscalizar se fiz errado. No fim, se Ele existe e se eu der o meu melhor dentro do possível, não tô fazendo Sua vontade? Se eu fosse Ele, pensaria: "pô, esse é O Cara, tá fazendo sem eu saber que Eu existo" - e na sequência me daria uma mansão em Acapulco com duas negrona, Bohemia gelada e isenção fiscal.

"Ah, mas e a vida pós-morte?"

Puêrra, me poupe. Eu mal dou conta dessa. Não sei se vou querer outra, não. Na hora da morte eu vou querer é ficar nessa, ou talvez vá doer tanto que vou querer zarpar. Quem sabe?
De qualquer forma, o depois fica pra depois. Agora eu tô vivo e minhas decisões envolvem esta realidade: se amanhã eu chegar em algum lugar com anjinhos de genitália miúda, a Cristiane Torlonni vestida com um lençol num gramado, entidades afros peitudas dançando axé ou meus parentes todos reunidos (bom, nem todos), então beleza.
Se eu não existir, não há problema porque não há nada e não vou sentir nada porque sequer serei.
Não tá tudo bem?

"Ah, mas você não sofre sem Deus?"

Olha... eu sofreria com ou sem, acho eu. Eu sei de coisas que não posso mudar e isso me chateia um tantinho, também acho eu. O fato é que 'eu acho' demais, e isso sim me faz sofrer. Eu queria ter essa fé dos que não acham mas têm certeza. Até admiro. Não sei ver essa luz no fim do túnel quando ele tá escuro: no máximo vou até a esperança. Acho que esse povo é mais feliz por não precisar saber de fato, apenas crer. A verdade mesmo é que eu não sinto falta de um criador, mas sim de um condutor. Algo assim, mais miúdo, um Getúlio pai-desse-pobre aqui, a dizer-me "manda currículo pra tal lugar" ou "tua mulher tá precisando de tal coisa mas não diz" ou "não se esqueça de dar um carinho pro seu avô só porque tu tá na correria". Nada tão universal: as grandezas são muitas e aí sou grão na praia... não faz muita diferença, né? O universo tá indo bem. Acho. Meu problema é aqui embaixo.

Bom, pra falar a verdade também não sinto muita falta de um X-Men que ande nas águas, ou que encante as pastoras da Índia, ou que fale com Gabriel numa gruta do oriente médio. Eu me sentiria muito mal em precisar de um Messias qualquer pra limpar as cagadas que eu e meu grupo fizemos, por ação ou omissão.
Algo como "Deu pau! Chama o suporte"? Ah não, né. Deixa o Messias lá, em paz.

Olha, numa boa: pode crer no que quiser, eu não vou me achar melhor em nada por isso, não. De repente você tá certo. Não é falta de educação, só recuso porque já jantei, manja?
Enfim, é isso: pra todos efeitos (e defeitos), sou ateu. Não daquele que se importa em responder pro cético (que me acha místico) e pro crente (que me acha cético). Mas que adora provocar as amigas bem-intencionadas.
Pra essas, eu digo:
Ora, Lili... sou ateu porque Deus quis!


6 comentários:

De Marchi ॐ disse...

Amém!

Karin disse...

"Ah, mas você não sofre sem Deus?

Olha... eu sofreria com ou sem, acho eu."

Pois pode ter certeza.

Beijos.

Luiz Rogério disse...

"Deus está morto" Nietzsche
"Nietzsche está morto" Deus

Olha, eu concordo com você. Existem coisas que podemos mudar e outras que não podemos. Não podemos mudar a realidade da morte nem a existência ou não de um Deus (seja lá bondoso, ciumento ou vingativo). Temos que concentrar nossos esforços naquelas coisas que podemos mudar: qualidade de vida, melhora pessoal, ajudar os outros, passar o tempo com quem gostamos, enfim, aproveitarmos de forma digna esse minúsculo tempo de vida que temos.

Mariana disse...

Sim Deus fez uma nova Aliança (pacto), para que leu a Bíblia está lá o registro que se fez uma aliança nova, com os Gentios, Aliança essa renegada pelos Judeus.

De Marchi ॐ disse...

Cristo e o Nazismo, Mari?

Mariana disse...

Hahaha não Dênis, Cristo e os não Judeus. O sacrifício Dele foi para incluir os não judeus no novo pacto,onde os Judeus teriam claro uma posição previlegiada.
Mas os Judeus não acreditaram que Jesus era o escolhido para salvá-los. Então o novo pacto foi feito e os judeus foram almadiçoados. Tá na Biblia
Aqui algumas passagem sobre o pacto ( o mesmo que o padre sempre menciona na missa no momento da eucaristia)

http://www.bibliaonline.com.br/ra/s/nt/nova%20alian%C3%A7a

Principalmente a passagem de Hebreus 8:13 e Hebreus 9:15

E a parte onde se fala na maldição lançada sobre os judeus por não acatarem a vontade divina esta em Levitico cap 26 a partir do capitulo 14

assustador!!!

O Deus dos Judeus sempre foi um Deus duro em suas penas e em seus modos, os proprios judeus sabiam disso, não entendo por que O desobedeceram e por que não entendem que o que sofrem hoje é simplesmente o resultado de sua desobediência

E tudo o que eu citei aqui está no Velho Testamento, ou seja, a única parte da bíblia que eles aceitam

o próprio filme que você colocou aqui menciona passagens do velho testamento

o pacto foi quebrado sim, o filme nao mostra novidade nehhuma