sábado, 5 de setembro de 2009

Democracia, aqui me tens de regresso

E, suplicando, lhe peço... que não seja um Demônio com crasse. Porque tem horas onde é mais fácil caçar um novo sentido do que aceitar que não temos o que apregoamos. Mas, antes, pra poder reclamar com a devida pompa, é preciso relembrar uns poréns.
Democracia e liberdade de expressão não são a mesma coisa. Nunca foram nem mesmo intimamente ligadas, senão numa relação distante e condicional como ter pés e fazer cooper - uma coisa não necessariamente leva à outra.

Liberdade de expressão é você poder dizer o que quiser.

Democracia é você poder dizer o que quiser e ser ouvido.

A democracia moderna é como um cão mal-criado: você diz "sit" e ele sai andando. Você continua livre pra dizer "sit" quantas vezes quiser, e ele, pra cagar e andar. E ainda há risco de represálias.
A democracia - chame-lo-emo-la "de buteco" - tolera a Liberdade de Expressão enquanto não fizer diferença. Permite que eu fale a você um óbvio qualquer, como, por exemplo, que o Sarney é um coroné mafioso maldito, desde que não chegue aos ouvidos dele (torçamos para que este blogue continue uma porcaria e não faça sucesso!). Eu não tenho provas, então é calúnia, é difamação, é coisa feia de meudeus.
Porra, óbvio que eu não tenho provas! Eu sou promotor? Investigador? Tenho acesso a dossiês e assino quebras de sigilo bancário? Se até eu tivesse, ele não chegaria onde chegou!
Isso não significa que eu não possa concluir, pela lógica dos eventos, pela poeira levantada, pelos apontamentos e discursos, certo?

"Certo, mas conclua quieto".

Taí nossa liberdade de expressão. "De que o mel é doce é coisa que eu me nego a afirmar, mas que parece doce eu afirmo plenamente."
Então beleza, eu não posso chamá-lo de filho da puta porque não fotografei sua progenitora em folagrante de coito indevido. Você não pode reclamar de seu emprego porque será demitido. Você não pode dizer nada polêmico que não possa bancar com evidências, nem mesmo numa conversa informal (experimente). Chamam isso de assumir as consequências, mas então... que liberdade é essa, tão cheia de condições? Falar às escuras, já faziam nos calabouços e porões.
Que diferença há entre eu não poder dizer algo pra não tomar um processo e eu não poder dizer algo senão um ditador me caça? A intensidade do preju?
E em 68 morreram por isso, veja só!

Não defendo a falastragem irrestrita e irresponsável, mas não sou eu quem diz que vive num país livre e democrático. Só fico estressado mesmo quando reclamam por eu rir disso.
Quem não pode e diz que pode me diz que não posso dizer.
Olha só que confusão! E é isso mesmo o que esse sisteminha propicia: perda de tempo tagarelando e desabafando pra não explodir em revolução, enquanto tudo segue seu curso.
Já faziam bigodes nos pôsteres de Stanculescu, e ainda assim ele tiranizou a Romênia por mais uns cinco ou dez anos. Caiu porque um culhão maior o derrubou, aproveitando o ensejo da massa em fúria (o único poder da vantagem numérica). A palhaçada do mundo livre está nessa singela confusão, que permite que o mundo todo desaprove um Bush e ele, gostemos ou não, invada um Iraque.

Falar, falamos todos. Só não achemos que isso é grande coisa, em si.
Expressão é esporte: do Dilúvio não escapa o justo e sim quem sabe nadar.

3 comentários:

Mariana disse...

É o tipo da coisa, você tem um blogue. Escreve e tals, pessoas te seguem, lêem, mas não significa necessariamente que concordam o que você escreve. Democracia, uma perda de tempo.
O bom é a ditadura, assim tudo que se fala é 100% aproveitado.

De Marchi ॐ disse...

Não, amore. Isso aí que você disse é liberdade de expressão. Democracia seria se todos concordássemos com um conceito e pudéssemos fazê-lo valer.
Convido-a a ler novamente...

Mariana disse...

hahaha não amore, o que eu disse foi que o que vc escreve e nem todo mundo concordar (agir de acordo) é perda de tempo e que o bom é a ditadura, que cocordando ou não se não obedecer o pau come (100% de aproveitamento do que é dito/escrito)
convido a ler novamente... :-P