quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Um par de palavras sobre a prostituição

"...e a fulana, gostosa e novinha, está com aquele velho milionário. Que vacona!"
Dito popular


Você já ouviu essa?

Tá. E qual a novidade?
Por que tanta polêmica quanto às putas?
Em que se baseia o julgamento social?
Já parei pra pensar porque esse bordão é tão frequente na boca do povo, e tudo o que vi é que a força do hábito é maior que a de raciocinar. Não sei em qual mundo essas pessoas vivem mas, onde vivo, a regra forçosamente tem sido esta:


Quem quer, com quem tem.
Quem tem, com quem quer ter.


Não existe relação sem interesse. Tudo e todos têm suas condições (ou preços). A questão é se o interesse é justificado pela contrapartida (uma troca equilibrada, via de mão dupla) ou se é fraudulento, se está em pratos limpos ou é baseado em dissimulação.

Qual é a medida de valorização?
Pra mim, é aquela pautada pela necessidade, subordinada ao que posso conseguir, aos meus princípios e à força de vontade para mantê-los.
É como comer: se tenho quem cozinhe em casa, ótimo; senão, vou ao restaurante.
Não me olhe assim! Quando você quer tratar seus dentes, procura um dentista ou um açougueiro? Então, na hora do churrasco, não vejo porque a situação não se inverteria. Só sei que, no deserto, um copo d'água vale mais que um Playstation.
Quanto custa o que você quer?

SEXO, NÃO
"por que é ilegal vender algo que legalmente pode ser dado de graça?"
George Carlin

Isto não é uma apologia à prostituição. Pelo contrário, acho que dão cartaz demais para as Brunas Surfistinhas do mundo - o que é sintomático, afinal nenhuma profissão é tão idealizada quanto essa.
Mas alguma coerência se faz necessária na hora de discursar como uma senhora de ilibada conduta.

O machismo da nossa cultura pressupõe que vender seu cérebro seja mais nobre que alugar sua vagina, sem justificar bem porquê. E o engraçado que esse machismo parte principalmente das mulheres. Esse ranço hipócrita não passa de julgamento moral baseado em valores religiosos - dos quais não comungo no momento. Cá entre nós, penso que superestimam a pureza virginal num mundo sem Marias (e ignoram que não há oferta sem demanda). Porque os genitais hábeis de uma meretriz são mais execráveis que as mãos treinadas de um massagista ou os joelhos de um jogador, não está claro. Mas, num mundo capitalista, não se pode simplesmente qualificar o interesse no dinheiro como "mais repudiável" do que o desejo por genes bons para seus filhos, por amor para suas carências, um bom papo para entretê-las ou por bípeps malhados e um corpão que as faça gozar. Com ou sem nobreza, interesse É interesse do mesmo jeito e cada uma sabe o quanto está disposta a fazer para alcançá-lo. Sendo assim, uma dona-de-casa que não larga o marido só pra não perder a pensão é tão ou mais puta do que as da calçada.

Em geral (maus profissionais existem em todos os ramos), uma puta dá exatamente o que oferece, uma vez aceito seu preço - e só para aqueles que procuram seus serviços. Não promete milagres, lealdade ou amor. Fulano quer gozar, ela quer dinheiro. Feito o trato, ele faz o que quiser (ou conseguir) durante o prazo acertado. Acabou, pagou, contrato cumprido. Quer maior respeito à lei de mercado que isso?

Lezar o outro é roubar, é enganar, é deslealdade - pra mim, um dos maiores crimes - quebrar contrato, comer e não pagar, receber sem dar, combinar uma coisa e fazer outra.
Respeitando o limite de todo clichê, é grande a chance de que o velhão milionário da frase seja 50 vezes mais sujo e torpe do que cada puta que passou por suas mãos. Ao menos elas dão pelo que cobram, diferente de uma certa classe de crápulas que delapidam fornecedores, funcionários, clientes e o país. Desses que pedem concordata, abrem falência, dão uma de inadimplentes e só pagam em juízo (SE pagarem). Tais sociopatas, pessoalmente, não quebram nunca, posto que são garantidos pela Lei do Egoísmo extremo.

No mundo onde vivo, um médico só salva sua vida se você pagar - a nobreza acaba no bolso. Então... se você vai pagar em cash ou vai partir pro escambo, em espécie, isso não desqualifica a negociação. Seja amizade pela amizade, amor por companhia ou sexo por dinheiro. Alugando sorrisos, sentimento, conhecimento ou partes do corpo, você está no mercado.
Em maior escala, muitos de nós nos prostituimos em nossos empreguinhos, fazendo diariamente o que não queremos por... quanto? Três mil? Cinco mil reá ao mês? E olhe lá!
Talvez isso explique a inveja que recai sobre as putas, como se o clichê de que ganham muito pra fazer o que todos fariam de graça fosse real, como se fosse sempre gostoso, como se fosse puro glamour e carro novo na garagem. Não é, como não é pra um dentista lidar com a boca de um porco bafudo, ou para o suporte técnico atender analfabetos digitais e suas perguntas cretinas. Só o que vejo são jornalistas escrevendo o que não acreditam, advogados defendendo criminosos, jogadores beijando camisas onde ontem cuspiram e comediantes tristes tendo de fazer rir no dia da morte da mãe. Todos com seu preço pra roer seus ossos.

***

Qual é o seu preço? A 'mina' tem de ter bunda grande? O homem tem de te dar segurança? Pagar o motel?
Se o que digo te parece cruel, responda:
Você dá pra mendigo? Mongolóide?


Ilusão é achar que seu interesse é mais justo que o dos outros. Somos todos putos no tabuleiro do mundo. A diferença é que alguns fogem da conta.


E mais não digo.

2 comentários:

Mariana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana disse...

eu só sei que o meu marido custou caro pacas

resolvi casar, assim pago em suaves (ou não) prestações :-P