quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

• Médica de Alma

A gente reluta muito com as novidades, não é?

Claro, não com as boas. Ou pelo menos com aquelas que demos o devido tempo para que mostrassem a que vieram. Sim, porque a gente quase nunca olha bem pras possibilidades, mais pelo hábito e pela desconfiança com todos os marketings que invadem nossas vidinhas do que por bem avaliá-las.
Pra ilustrar, digo que fui pela primeira vez num psiquiatra. Ou melhor, numa. Eu não me considero a última bolacha do pacote, mas até que tenho um básico de cultura pra saber que psicólogo e psiquiatra não são coisas pejorativas. Mesmo assim, relutei. Menos pelo clichê e mais pelo receio em falar.
As máscaras são fáceis: você liga o botão e os sorrisos saem até quando a alma está numa escala de azuis. As piadas brotam como um placebo pra esquecer da joenete no pé da alma. Falar de si é difícil, principalmente pra desconhecidos e mais ainda pra desconhecidos pagos pra te ouvir.
Eu sempre achei que havia um componente patético nessa relação, mas é fato que não há outra via. Uma vez que desaprendemos a conversar conosco e os bons amigos ouvintes de nossas lamúrias cedo ou tarde darão suas opiniões pessoais, o jeito é apelar pro profissional. Há quem não concorde com isso, mas se você pensar que seu amigo pode ter uma outra visão sobre você (em geral, a que você não quer), te julgar (isso, mesmo sendo amigo - gente comete erros com a melhor da intenções) ou seja lá qual for o caso, dá pra considerar melhor a outra hipótese. Foi o que aconteceu comigo, cansado de importunar quem gosto com as minhas manias e conversas subjetivas demais na hora do 'vamovê'.
Tomei coragem, marquei a hora e pumba, apareci. E olha que oportunidade de não ir não faltou: dia marcado errado, melhora no humor, coisa e tal. Mesmo assim, teimei.
Parece grande coisa, mas não é: nesses dias todos aguardando a consulta, cara pra diabo (dos que vestem Prada), imaginei mil discursos, argumentos e diálogos que uma mente mediana é capaz de produzir pra se proteger. Até chegar ao ponto onde pensei "vou dizer o quê?" e partir pro "o que sair, saiu" foi uma caminhada e tanto.

Os motivos. A gente sempre tem motivos pra cuidar do órgão mais estressado e maltratado de todos. Você vai umas 300 vezes no clínico geral, umas 400 no ginecologista e umas 50 no ortopedista. Mas vai no neuro só se desmaia ou treme, se viu na novela sobre coágulo no cérebro e encucou ou se foi achar sinusite em ressonância. Tratar a alma, Psiché, é algo relegado ao último plano, logo atrás do cisto cebáceo.

Médica de alma. Foi com essa frase que a psiquiatra me ganhou. Não é bom ouvir de uma representante dessa classe, que em sua maioria trata a mente como um subproduto de uma bioquímica idiota, auto-entitular-se assim de forma tão franca?
Foi um prazer. Quando ela disse isso eu notei que o negócio dela era software. Nada de remedinhos pra te deixar no piloto-automático sem sentir coisa alguma. O negócio ali é o ScanDisk. É o que eu queria. E é por isso que esse assunto vai aparecer por aqui mais vezes (ou tão logo eu tenha 180 Reais pra próxima consulta).

Pronto. Agora vocês poderão dizer, com toda a propriedade, que o papo desse vosso amiguinho é bem loko.

• E por falar em prazeres...

Bom suá, amiguinhos.
Minha cinturinha de pilão (industrial) não omite evidências sobre o meu prazer pela gastronomia. Não sou daqueles com tempo, dinheiro e mesancene para quitutar o mais incrível risco de molho com três salsinhas e 10 gramas de salmão do Chef Shavaske, mas adoro uma boa comida, daquelas que você explora com a língua pelos cantos da boca e vai sentindo as nuances.
Comer é tão bom quanto sexo (o que nos faz pensar se sushi erótico não é de fato alegria embrulhada pra presente).
Vai daí que eu adoro um bom azeite. Azeite mesmo. E olha, é difícil de encontrar. Já tentaram?
Tô há meses caçando o Beira Alta, eleito o melhor da categoria em custo/benefício segundo uma pesquisa da Pro-teste (de 2002, mas abafa o caso). Em segundo ficou o Carbonell, no que não discordo apesar de preferir os portugueses e italianos. O Gallo, o caro e pretensioso Gallo, ficou em oitavo, numa escala que incluía até a embalagem e a higiene.
Ainda não estamos falando de azeite com A maiúsculo. Aquele gregão metido a besta, só de 50 mangos pra cima (com a ressalva que muitos não valem 10). Quero o Beira Alta pra tirar aquela ondinha numa salada rotineira, o bambambam eu só abro em ocasião especial. Mas não abro mão de um bom azeite.

"Ma che puêrra de assunto é esse no seu blog, ó Denuxo?"

Bom, fazia tempo que não falava de amenidades suaves, né. Explico. Ontem fui pela primeira vez na psiquiatra (ó que legal, assinei o passe de pirado oficial) e papeamos sobre prazeres, as pequenas frescuras e rituais que cada um de nós mantém como símbolo de conforto. Sou rígido demais com certas coisas e, pensava eu, conforto pra mim era botar uma meia seca após uma trilha no meio do mato. Na verdade não é bem assim: eu os tenho, e muito. O azeite é um deles.
Já reparou como você conhece mais sobre as pessoas quando nota essas pequenas manias?
O jeito como sua namorada ajeita o chinelinho simetricamente antes de dormir, o modo como seu namorado afofa o travesseiro do mesmo jeito, como seu amigo corta a ponta do charuto... Sofisticação, estilo, tudo a gente concentra ali. E é uma pompa perdoável, divertida e, descobri, bem saudável.
É o momento onde você dá atenção a si mesmo, onde investe seu tempo e seus atos em nome de uma elegância íntima, feita pra agradar a si próprio. Não é falsa, não confundir com a frescuragem vip pós-moderna psicofuckinsocialite; nada daquela afetação burguesa a exemplo dos enochatos, que levam o ato ao extremo, jamais para si e sempre para o cara ao lado. Você não precisar encontrar no bouquet uma nódoa do aroma dos ventos uivantes de Lyon ao por do sol do meio-dia pra se divertir; basta apenas que desça encorpado e bata com gosto do estômago e no coração.
Você pode ter isso com feijoada, com um cigarrinho de palha, com lençol fresquinho, com aquela cachaça especial, com dois banhos por dia, com o cheirinho do carro novo... mas você pode ter e, mais que isso, deve.
Porque você merece.

Qual é a sua frescura?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

• Questão Ética do dia

Você é um operador da linha férrea. Na linha principal há seis crianças brincando. No desvio desativado, há duas. No outro desvio desativado, há uma barreira de concreto. Um trem lotado vem pela linha principal e não há tempo para avisar as crianças.

O que você faz?


a) Desvia o trem para o desvio de concreto, colocando em risco centenas de vidas dentro do trem;

b) Desvia o trem para o desvio comum, onde estão as duas crianças;

c) Mantém o trem na linha principal, onde estão as seis crianças.

***

Quando aplicada, praticamente ninguém (a sério) responde com a alternativa a. A maioria das pessoas responde a pergunta com a opção b. Pensa-se no mínimo impacto: 2 crianças perdidas ao invés de 6.
P.S.: obviamente, a resposta muda quando uma das crianças ou um dos passageiros no trem é seu amigo e/ou parente.

Mas... reparou? Poucas se perguntam se não estão punindo justamente as duas únicas crianças que tiveram o bom senso de não brincar na linha principal, ao contrário das outras seis. Ou seja, punindo quem agiu certo. A Lógica questiona porque o mérito e a competência aparecem em segundo plano.

Na natureza, o idiota que se coloca em situação de risco tem o fim que lhe cabe. Não é culpa dele, nós sabemos, mas a natureza não pergunta: ou seus pais deveriam ter ensinado, ou ele próprio ter um talento maior que garantisse sua sobrevivência.

Mas falamos do mundo humano, cheio de escolhas, cheio de vítimas. Seleção natural não é um conceito justo, muito menos faz parte do senso comum. Seleção Natural é a desculpa habitual dos defensores de jogos excludentes. É com ela que justificam seus sistemas predatórios.
No entanto... justamente a coletividade, a menor das perdas e o maior número de sobreviventes são os conceitos que vêm à mente (e ao coração) da maioria das pessoas em emergências. O bem estar do maior número de envolvidos.

O que isso nos diz?
O que diz pra você?

• Notícias do Front nº 3

Alô você. Há dois posts gigantescos e naturalmente chatos aí embaixo, pra ninguém dizer que não escrevo mais nessa belezura. Quem mandou reclamar? Portanto não desanime, eu te apoio na decisão de parar por aqui mesmo e ir naquele site pornozinho garboso!
Eu iria (mas, como você, também não falaria, porque minha muié também lê esse blógue)!

Astaluêgo!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

• Um Não e a Lili ficou louca


Poizé, barbudão!
Um não, um nãozinho de nada, e a Lili ficou louca. Balançou o pezinho, apoiou o punho no queixo, suspirou e arfou. Pois é. O não dela eu tive de aceitar. Ela disse que não, mas ficou.

"Você não acredita em Deus?"
"Qual deus?"
"Deus, ué."
"Não".



Pronto. Eu não sabia que "não" era comburente. Que esta palavrinha agitada era perigosa perto da nitroglicerina das polêmicas, eu até imaginava. Mas que provocasse combustão espotânea assim tão milagrosamente... santo Caramuru, Batman!

Qual o problema, afinal, em alguém ser ateu, ou cético, ou simplesmente não ligar pro tema?
Veja, eu sei que é chato pra chuchu ouvir aqueles céticos malas, que vêm te catequizar tanto ou mais do que os queimadores de feijão do domingo de manhã. Porque tanto um quanto o outro cometem a mesma sacanagem (pecado de um lado, falta de ética do outro): não te deixam pensar por si, na sua com as suas escolhas. Pra esses, com seus jogos de semântica e retóricas de pa-pel ma-che-ê que nem o João Bosco foi tão chato em cantar, eu deixo o vácuo tomar conta. De que adiantaria, afinal? Eles vieram pra falar, não pra ouvir.

Quando me perguntam se sou cético, eu não sei responder. Também não sei quando o foco é a fé. Eu só sei que não 'tenho' religião, embora viva numa sociedade cristã e portanto sofra sua influência. Não concordo e não me diz nada, porém. Tenho algum senso de Sagrado, mas o sentido disso é bem outro. Não acredito em nenhuma "energia" que não seja energia mesmo. E não gosto de crente chato tagarela. Só.
Quantos nãos, né? Mas fazer o quê? As perguntas não ajudam.

"Ah, então é ateu?"
Bom, sei lá também. Talvez seja o mais perto, pra saciar essa fome por definições que surge em todo diálogo. É isso. Pra todos efeitos... sou Ateu, Graças a Deus!
"Por que?"
Ora, precisa de um? Eu não tive até o momento nenhuma frustração melindrosa do tipo "pedi pro papai-do-céu pra salvar mamãe mas ela morreu de câncer". Não é birra, eu só não acredito. Se você me disser que vai subir uma parede de vidro sem nenhum mecanismo ou pegadinha, também não vou acreditar. Mas se você subir na minha frente, talvez eu acredite, por que não? Se possível, queria entender. Mas no fundo não fará diferença, fará?

"Você acha que tudo surgiu do nada?"
Acho.

"Como você não acredita num Criador, em Deus? É preciso haver um!"
Bom, tu acha que precisa, pra mim tá tudo fazendo sentido, por enquanto. A pequena parte, a pequeniníssima parte que eu sinto ter entendio, pelo menos. Sim, porque... eu assumo não saber e, francamente, apesar da fantasia e da mania de grandeza eu não espero saber dos segredos do universo sendo finito, pequeno e mal dando conta do básico. Não precisa me provar nada, mas também não precisa me pedir pra crer sem nada, né? Voto de confiança eu dou só quando não é à toa.

E... que perguntinha, né? Qual deus? Não acredito num monte deles. Alguns eu gosto de imaginar, mas não me confundo a ponto de esquecer-me disso. Algumas histórias são lindas, arquetípicas, adoráveis (pero sem adoração). Em todo caso, ainda não passei por um desespero que me fizesse dar maçã pra gnomo, aguardar o portal de Órion ou rezar pra um Deus universal que tem um plano desde o início da Criação, mas vai mudá-lo só porque eu adulei-O com meia-dúzia de rezinhas interesseiras.
A bem da verdade, eu acho mesmo é que tanto faz.
Eu não sei porque se importam. Se Deus, nos termos amplamente apresentados pelo mundo, existisse e quisesse que eu soubesse dEle... Ele me diria, não? Faria o cego aqui enxergá-lo (não simbolicamente, plís... É tanto logotipo e tanta bandeira que eu não poderia aceitar um deus que contribuisse para a poluição audiovisual do praneta!).
Mais que isso, acho que se isso fosse relevante, faria parte da existência. Assim, aquela certeza de Deus que faz diferença. Por exemplo, eu tenho pai, sei que tenho (e aí não preciso de fé, tenho a experiência). Por que preciso, sendo adulto, pensar nele a todo momento, pra tomar minhas decisões? E se o biológico não tem esse peso, por que teria o espiritual?

Outra. Eu não sei o que é "o Bem". Não entendo absolutos nem enxergo a dimensão que os atos desencadeiam. Mas tento agir e assumir posturas com alguma responsabilidade, cuidar dos que amo por amor, por vontade... e não porque um bedéu celestial está a me castigar, embora não tenha me ensinado o certo mas venha fiscalizar se fiz errado. No fim, se Ele existe e se eu der o meu melhor dentro do possível, não tô fazendo Sua vontade? Se eu fosse Ele, pensaria: "pô, esse é O Cara, tá fazendo sem eu saber que Eu existo" - e na sequência me daria uma mansão em Acapulco com duas negrona, Bohemia gelada e isenção fiscal.

"Ah, mas e a vida pós-morte?"

Puêrra, me poupe. Eu mal dou conta dessa. Não sei se vou querer outra, não. Na hora da morte eu vou querer é ficar nessa, ou talvez vá doer tanto que vou querer zarpar. Quem sabe?
De qualquer forma, o depois fica pra depois. Agora eu tô vivo e minhas decisões envolvem esta realidade: se amanhã eu chegar em algum lugar com anjinhos de genitália miúda, a Cristiane Torlonni vestida com um lençol num gramado, entidades afros peitudas dançando axé ou meus parentes todos reunidos (bom, nem todos), então beleza.
Se eu não existir, não há problema porque não há nada e não vou sentir nada porque sequer serei.
Não tá tudo bem?

"Ah, mas você não sofre sem Deus?"

Olha... eu sofreria com ou sem, acho eu. Eu sei de coisas que não posso mudar e isso me chateia um tantinho, também acho eu. O fato é que 'eu acho' demais, e isso sim me faz sofrer. Eu queria ter essa fé dos que não acham mas têm certeza. Até admiro. Não sei ver essa luz no fim do túnel quando ele tá escuro: no máximo vou até a esperança. Acho que esse povo é mais feliz por não precisar saber de fato, apenas crer. A verdade mesmo é que eu não sinto falta de um criador, mas sim de um condutor. Algo assim, mais miúdo, um Getúlio pai-desse-pobre aqui, a dizer-me "manda currículo pra tal lugar" ou "tua mulher tá precisando de tal coisa mas não diz" ou "não se esqueça de dar um carinho pro seu avô só porque tu tá na correria". Nada tão universal: as grandezas são muitas e aí sou grão na praia... não faz muita diferença, né? O universo tá indo bem. Acho. Meu problema é aqui embaixo.

Bom, pra falar a verdade também não sinto muita falta de um X-Men que ande nas águas, ou que encante as pastoras da Índia, ou que fale com Gabriel numa gruta do oriente médio. Eu me sentiria muito mal em precisar de um Messias qualquer pra limpar as cagadas que eu e meu grupo fizemos, por ação ou omissão.
Algo como "Deu pau! Chama o suporte"? Ah não, né. Deixa o Messias lá, em paz.

Olha, numa boa: pode crer no que quiser, eu não vou me achar melhor em nada por isso, não. De repente você tá certo. Não é falta de educação, só recuso porque já jantei, manja?
Enfim, é isso: pra todos efeitos (e defeitos), sou ateu. Não daquele que se importa em responder pro cético (que me acha místico) e pro crente (que me acha cético). Mas que adora provocar as amigas bem-intencionadas.
Pra essas, eu digo:
Ora, Lili... sou ateu porque Deus quis!


• "Por que você fala pouco de política?"


Conversando na semana passada, pintou essa pergunta. Primeiro fiquei surpreso, porque achava que política estava no meu leque de falastragens e palpites. Agora, após me bater com outra dessas sincronicidades que me levaram pro mesmo tema, esbarrei numa resposta.
Pensando bem, acho que não falo muito de política mesmo. Já comentei por aqui, mas nada muito além. Até brinco, ironizo, faço piadas (tá, ultimamente tô mais chato que peito de véia, mas você entendeu). Mas encarar o papo com a mesma verve, a mesma fibra da adolescência... ah, não tenho mais pique, não. Política é paixão dolorosa, ilógica como torcida de futebol e religião. Exige, demanda, consome. Cansa.
Não é uma postura racional, pensada e escolhida. Simplesmente acontece: o assunto surge, algum esboço de comentário vêm à cabeça, mas depois... só silêncio.
Eu não acho que sou a pessoa mais indicada pra falar de qualquer coisa - nem de mim mesmo. Mesmo sabendo que ao longo dos anos atingi um nível mediano de entendimento das coisas, percebo claramente que careço de capacidade (principalmente emocional) pra lidar com esses meandros sociais. Ainda assim, algumas pessoas gostam de me ouvir e sinto que decepcionam-se quando refugo no tema.

Embora o que eu vá dizer agora seja 80% emocional, há um novelo de pensamentos que me acompanharam durante esses anos que não sei desenrolar. Tá certo que esse blog não é exatamente pra isso (mas também, eu nem sei mais pra que ele serve hehehehe). Mas tá, eu falo.

Numa boa, mas.... cá entre nós, vocês não estão cansados desses papos?
Cara, é como eu disse: o saldo até o momento, desde os meus primórdios estudantis pueris and kid vinis, quando comecei a ler, conversar e caçar informações sobre política e relações sociais, foi só a tal desilusão. Sem melindre, mas é isso.
Bandeiras, partidos, filosofias: pra mim o resumo é mais cru. Tirando a maquiagem de sofisticação, o que vejo é um punhado mais ou menos caótico de grupos, uns pulverizados e outros bem organizados, todos caçando os seus e tão somente os seus interesses. Os organizados levam vantagem, adquirem recursos mais rapidamente (uma imagem que poderia representá-los seria o fasce - um feixe de galhos amarrados que, tão rápida quando curiosamente, adquire um machado sobre si). Os pulverizados são fracos, uma grande massa que, amorfa, é incapaz de focar energia.
Grupos. Nenhum, nenhunzinho deles jamais teve a visão de que, numa escala maior, times aparentemente díspares são co-dependentes e fazem parte duma mesma ordem maior. O resultado é que essa queda-de-braço predatória, estúpida e pré-primata atropela interesses maiores e ninguém toma a iniciativa de resolução. Ou por ser pouca, ou por conflitar com poderes estabelecidos e difíceis de abalar, ou por fragilidade mesmo.
Veja por exemplo na política, onde nenhum modelo adotado sequer conseguiu garantir a própria sobrevivência de modo estável. Você tem na história alguns domínios de milênios... e hoje mal se consegue manter uma nação por 50 anos sem oscilar. Tá, o mundo mudou, mas mudou mais firme na intencidade e na voracidade desse jogo. Qualquer um de nós nos tempos de Alexandre seria um rei. O combate na venda de cartões de crédito é mais malicioso e feroz do que qualquer feira na Mesopotâmia jamais presenciou. Eu não sei vocês, mas eu não fico à vontade pra chamar isso de evolução.

Os preços pagos por qualquer regime foram e são catastróficos, mesmo com a melhor das intenções (que sempre enchem o inferno). Os ditatoriais são óbvios. O capitalismo também mata pra caralho, diariamente, e não é em Gulag, em campo de concentração; é ali no seu bairro mesmo. É pelo dinheiro que seu filho toma bala, é pelo dinheiro que você perde sua juventude, é pelo dinheiro que se invade um país. A promessa iluminista desabou e o que temos são TODOS, do Bill Gates ao Pelezão da Vila Mastruz, a roer um osso indigesto demais pra manter as engrenagens rodando. Você as azeita com o seu sangue, com mais ou menos regalias e, tal qual moscas, a briga visa conquistar o lugar mais quentinho no estrume.

A desumanidade dos "sistemas", seja lá o que isso for, coisifica a tudo e nem mesmo o presidente de uma corporação está livre de ser dilacerado por essa criatura abstrata. Não interessa (o "jogo" inclui diretrizes que desumanizam pra facilitar o trabalho, é por isso que você tem um número no seu crachá, que baixas de guerra são contabilizadas - 1000 indianos num acidente é um número; Haji Sankar, 8 aninhos, que adora desenhar e ouvir a mãe cantar, é outra coisa). A ética passa pelo olhar, pelo reconhecimento do outro. Como é que você vai sacanear, jogar, vencer o outro se ele for alguém? Hitler era um doce de pessoa com o seu cãozinho malhado. O bichinho tinha nome.

O que é um grupo senão as pessoas que o formam?
Todos esses sistemas, todos, se esquecem disso.
E matar passa a ser tão viável no jogo quanto demitir.

Já há produção de comida e riquezas pra todos. Só as perdas por descuido e desperdício na agricultura nacional já ultrapassam o número de famintos daqui. O que não dá é pra todos viverem o estilo de vida americano, por exemplo. Mas também... quem disse que precisamos disso? Ora, essa pergunta é uma das blasfêmias do jogo: ela simplesmente embola a engrenagem, afrouxa a mola propulsora dos desejos canalizados pra manutenção desse mundo. E se o mantemos... bem, talvez gostemos assim. E são raros os que assumem que não se importam que haja sedentos em nome de sua piscina cheia. E não há mérito nessa franqueza, mas chega ao ponto.

A memória deveria ajudar, mas é seletiva. Pra que caralho os macacos se juntaram numa caverna? Pra facilitar a vida. Pra que você entra num clube? Pra usufruir dele, claro.
Mas o objetivo se perdeu faz tempo e nem sabemos mais porque o fazemos, apenas nascemos nele, temos a impressão de que sempre foi assim e não conseguimos imaginar modelos que saiam desse paradoxo. Quando achamos que imaginamos, vez ou outra esbarramos no velho sistema, dependente de opressões e financiamentos. E jogamos pesado com a troca de acusações, com as justificativas pelo erro de outros. E Cuba só está na merda pelo embargo capitalista que não os deixa capitalizar, etc. Mas não falta champagne pro Fidel.
Os clichês não ajudam. Pensamos, por exemplo, em igualdade e liberdade. Mas eu posso ser livre então pra ser desigual a você? Parece bobagem, mas há quem tropece nisso. Ouroboros, o Dragão, regenera seu pescoço mais rápido do que come o próprio rabo? Que fim pode levar este ou qualquer outro sistema que digira a si mesmo?
Diga você. Na boa, se eu fosse religioso não imaginaria leviatã maior que esse pra ilustrar minha bibliazinha.

Como falar em margens eternas de crescimento de 10% ao ano (e sobre o salto mais 10% no ano seguinte) num sistema fechado? É óbvio que o negócio é Highlander, só pode haver um (que perde o sentido quando fica só). Platão refugou, Marx se enrolou e o Rockfeller... oh my fella!

Todo esse "sistema", toda essa parafernalha culturalóide vomitada pelos séculos não conseguiu garantir o bem-estar dos seus sustentadores nem garantir o bem-estar das gerações futuras. Barões de café se suicidaram em 29, famintos devoram-se por diamantes que nunca usarão em Serra-Leoa. Tem algo muito errado aí, e não é de surpreender que ativismo seja niilismo, que a vontade de fazer seja quixotesca, que ser honesto seja sinônimo de inocência... e inocência, vocês sabem, seja defeito.

Pra quê falar de bandeiras? O comunismo (o socialismo nunca foi aplicado de fato) dizima o indivíduo pela homogeinização e pasteurização de seu povo. O capitalismo (democracia só existe entre iguais e se seu poder é maior que o meu, eu não participo do jogo) dizima o indivíduo estimulando um ego que homogeiniza pelas necessidades reais ou imaginárias - todos querem o mais novo i-phone, mais que arroz com feijão.
Traduzindo: Ninguém quer saber de você. Nenhum desses sistemas foi feito pra durar; são antes regras de um jogo que precisa chegar a um fim do que um status de manutenção duradoura. Não há nada focado no bem-estar dos seus membros. Nesse jogo, pra alguém vencer outro tem de perder.

Por isso a questão ambiental (que é basicamente manter inteiro o tabuleiro onde queremos jogar) tornou-se estupidamente irrelevante pros grandes jogadores. Por isso o cara destrói o destino dos herdeiros apesar de trabalhar pra acumular capital pros mesmos.
A raça é egoísta e deixa sua assinatura em qualquer atividade.

Enfim... conjecturas frágeis e nada mais. O assunto dá voltas, a maior parte em volta do pé. Matamos nossos deuses, nossos nortes emocionais, mas não substituimos com algo melhor. Apenas caceremos. Aí fica difícil definir o que é coletivo, o que é "bem maior". E cada um faz do seu jeito.

Você pode me perdoar por, diante desse panorama, não querer dizer mais?
Eu não falo de política porque ela não tá focada no que me interessa: pessoas. Apenas é feita por elas, mas não para.
Eu só queria dizer que tô fora. Não sei se conseguiria, meu senso de coletivo apela muito em mim, mas... nessas horas, quando cai a ficha, meu Eu mais pragmático assopra-me a frase: se é asim, eu quero o meu e dane-se.
E olha... ultimamente eu quase concordo.


E você? O que acha?