terça-feira, 5 de novembro de 2013

Bye-bye, Humor


Oi.
Posso desabafar?
Não quero iniciar um debate mas também não quero controlar se ele vai surgir ou não. Aqui é (ou era) um espaço de desbocamento e brincadeiras, então tô pedindo perdão por antecipação mas realmente não tenho outro lugar mais conveniente pra isso.
Tô muito chateado com o que vem acontecendo em relação ao humor. Porque trabalho nisso faz tempo (em certo sentido antes mesmo de trabalhar) e porque tinha outras pretensões na área que foram frustradas em 2013, menos pelo esforço em criar uma boa semente do que pela esterilidade do terreno.
Eu não sei o que tá acontecendo, mas em menos de 2 meses foram 6 casos próximos e distantes envolvendo processos por piadas ou algum tipo de cerceamento. Nenhum debate mais profundo, nenhuma avaliação dos motivos para limites e limitações. Apenas o não-pode, o calaboca.
Vejo um jogo de marcação de posições empedernidas, de reações emocionais por palavra-chave, automatismos e muito, muito melindre de todos os lados. Só um lado pode dizer o que acha sem cair num ostracismo automático, compulsório e inflexível, apesar de travestido numa democracia rota. Independentemente da questão do certo e do errado, o que mais me deixa infeliz é essa crudeza, a dureza e a defensiva das reações. A cólera, a empáfia e o melindre socialmente validado que tornarão o meu pedaço de incômodo algo ainda menor que um mimimi. Parece que o diálogo retrocedeu, que bater o pezinho é via de regra e que o tempo que o outro fala nos serve apenas pra ser usado criando uma nova resposta. Não há um ouvir de fato, um parar pra escutar. Entendo que isso foi potencializado - fudidamente potencializado - pelas redes sociais e a natureza virtual. Mas isso não diminui o espanto com o grau.
Há um projeto de lei tramitando que pretende proibir caricaturas não-autorizadas. E sua justificativa é perfeitamente coerente com o discurso vigente sobre ofensas que virou moda nos últimos tempos. O mote é evitar a todo custo uma ofensa, das que precisam ser feitas às que sequer sejam. Uma pretensa paz, como um lençol que encobre ranços profundos, sujeiras que víamos melhor antes da maquiagem de retidão e que, pela presença declarada, nos faziam refletir.

by Tom Cheney
(The New Yorker - 1985's Scripps-Howard Outstanding Cartoonist Award)


Sinto como se tivéssemos pulado do direito a sertir-se ofendido ao privilégio de não ser ofendido. Uma casta irrestrita de intocáveis que pra mim mostra sua fragilidade, sua arrogância, seus complexos mal resolvidos e principalmente sua estupidez em confundir o direito de sentir-se ofendido com o privilégio de não ser ofendido. Cresci aprendendo que paus e pedras são mais perigosos que as palavras e, hoje, sinto que o mais perigoso é - pela suposição de um novo poder das Palavras - abrir a própria boca.
Tudo ofende. Tudo. Política, religião e futebol não se discutem (e portanto não mudam). Também sexualidade, cor, tipo de humor. Nada se discute. E não sei mais para que serve a boca social senão para sorrisos frios. Lembra-me que os macacos não sorriem, apenas mostram os dentes em ameaça.

Eu pretendia fazer vídeos para o Youtube. Em 2012 montei uma estruturinha aqui em casa, pensei nuns esquetes, coisa e tal. Uns poucos sabiam disso e me perguntam porque morreu. Ora...
Também parei com o cartunismo. Parei também com o jornalismo, mas essa fica pra outro dia. Não crio novos cartuns porque não tenho costas quentes e os processos, com ou sem lei, já estão aí. Todos são agora Maomés intocáveis e não serei eu a ter minha cabeça cortada por tão pouco. Porque minha vontade, como a da maioria dos que pretendem fazer rir, era apenas essa. Fazer rir. Tentar, errar, sentir a emoção de fazer rir. Foi algo que me ajudou a lidar com os meus preconceitos, com as minhas limitações e com aquelas que a crueldade infantil impunha (não quero usar o termo americano, porque ele sugere uma novidade em algo que sempre existiu e que, nas doses semimortais que em geral recebíamos, formou gente forte, resistente e capaz de lidar com os excessos). Fazer rir e fazer refletir, levar adiante a tradição do humor e suas (R)evoluções sofisticou aquele meu desejo inicial de apenas divertir quem gosto, ver sua explosão de gargalhadas, seus rostos relaxando. Era assim aos 8 anos, foi assim aos 18 mas não chegará aos 38.
Tô com 36 e bem desanimado. Não com a polícia, não com a política (que nunca me animou), não muito com os advogados nem com as críticas que sempre existem. Tô desanimado porque o público, a parte que sorria, está com medo de rir. Porque uma voz onipresente, mais pelos auto-falantes que por volume, disse-lhes "que feio!" sem demonstrar (ou perguntar) porque é errado. Se ao menos fizesse refletir faltaria apenas a parte do sorrir, mas nem isso. É uma queda de braço sem intenção de convencer, só vencer. A opressão pelo 'oprimido' só demonstra que a truculência continua no tabuleiro, e todo dia uma nova Israel aparece para, em nome de um nazismo, bombardear um palestino. Esse jogo, espero que saibam, termina em bomba.

OK. Não endosso os crimes cometidos em nome de um pretenso 'humor', desqualificante e depreciador da pessoa (e não dos clichês que a isolam dos demais). Mas a forma como reagiram abriu o precedente que faltava para proibir a profissão de bobo, mais do que cortar esta ou aquela cabeça. Não vê quem não quer (ou é bobo demais pra entender não só isso como também piadas). E a maldição da bruxa na fogueira é sempre a mesma: isso vai se virar contra o autor. É o que a redime consigo mesma enquanto cozinha (e, veja só, sempre houve quem risse de execuções públicas).
Pois bem. Eu também não quero mais brincar. Não riscaram meus CDs, não queimaram minha alcatra nem apagaram a luz. Isso eles querem que nós mesmos façamos, para a vitória da soberba ser completa e servir de exemplo aos demais condôminos (que, não bastasse, parecem aprovar). Como um vizinho poderoso bastou apenas um telefonema pro síndico acabar com a nossa festa, que estava no horário e com os decibéis no limite. Sim, eu reconheço os excessos e já recolhi as latinhas que joguei na piscina. Concordei com a expulsão daquele convidado bêbado.
Mas precisava proibir os churrascos?

Espero que encontrem um bom uso pra área de lazer. Talvez uma sala de terapia para complexos, uma sala de aula de etiqueta ou qualquer outro bloco sisudo que algum dos 180 milhões de moradores desse condomínio, cada um com o seu próprio critério 'racional' para gostos subjetivos, queira e possa bancar com seus lobbies. Talvez façam uma sala de espelhos, daqueles de parque, porque de espelhos reais ninguém gosta. Até entendo: a fachada dessa vida virtual faz com que muitos optem pelo caminho curto de fazer o mesmo na vida real. Quem sabe talvez a fachada de tolerância não acabe incentivando uma mais concreta? Tomara, porque funcionando ou não esse caminho não tem mais volta.
Já não é mais possível brincar com a devida leveza. Não é possível fazer publicidade, humor, notícias, textos e opiniões sem tocar em alguma suscetibilidade (QUALQUER suscetibilidade, válida ou não), justificada apenas por sê-la.
Notícias do front: todos os que criam estão com algum medo. E já há entre nós quem, como eu, se autocensure onde antes bastaria ponderação e responsabilidade pelos seus atos.
Não chamarei de patrulha uma turba de linchamento, porque patrulhas envolvem um objetivo comum organizado (se bem que... bem... há uma organização, apenas não sabem os linchadores que fazem o trabalho sujo pensando ser escolha). Só digo que eu preferia quando rir de mim mesmo e dos outros, sem nada sagrado demais que não pudesse ser questionado, nos igualava no mesmo patamar. Preferia quando notávamos, juntos, que tirar o sarro um do outro nos tornava iguais, desconstruía o que achávamos sério e nos fazia por alguns instantes mágicos membros de uma mesma confraria, onde nenhuma dessas supostas diferenças tinha a menor importância. Pretendia que a coisa evoluísse para um novo patamar, onde brancos fossem alvos (não vítimas, alvos) tão prolíficos quanto negros, onde magros, lindos, altos, ricos e Deuses fossem expostos ao olhar de criança que tudo vê. Preferia mesmo quando tudo terminava numa risada cúmplice. Era isso o que eu sempre quis, foi pra isso que dediquei metade da minha vida, tendo ou não fama e dinheiro por isso, demonstrando ou não algum talento. Um haha e eu ganhava o dia. Dediquei porque prefiro os sorrisos, a alegria, o espasmo do descontrole daqueles segundos mágicos onde somos patéticos, ridículos e... sobrevivemos, mais leves e melhores, apesar de tudo o que pensamos ser.
Mas o que acho ou prefiro não importa porque isso não é um diálogo. É uma ordem.
Farei de conta que ainda estou lutando no palco, mas o fato é que desceram as cortinas.

Obrigado pra quem leu.


OBS: Houve quem me dissesse pra fazer humor pastelão. Estão doidos? Brincar com comida num mundo com 1 bilhão de famintos é um desperdício e uma afronta, coisa e tal...

P.S.: Deixa eu poupar o trabalho das senhoras e senhores de bem: Estou errado, peço desculpas pelo desabafo e pelas opiniões criminosas que possuo, como podem intuir com 100% de certeza através do perfil psicológico que traçaram pelo texto.
É um mimimi vazio, exagerado e vitimista da minha parte que nunca mais se repetirá. Perdão por existir e, se alguém espirrar, saúde.P.P.S.: (Perdão, não tenho nada contra contra os gripados, nem contra contra os imunologicamente desfavorecidos nem contra o vírus. Eu nem tomo Cebion pra não ofendê-lo).


OBS2: (Nada contra o Cebion também, seja o de 500mg, 1g ou 2g, efervescente ou líquido).

OBS3: (nem contra o Redoxon e demais concorrentes, os quais não foram citados por acidente e  não preconceito. Idem aos chás, rezas, macumbas e demais tratamentos, todos dignos de respeito. Perdão pela omissão na cota).