terça-feira, 27 de junho de 2017

• Post Póstumo nº 4 - Pai

É, velhinho... eu não ia deixar passar não.

Achou que eu ia esquecer de você? Que eu ia seguir caladão?
Bom, de certa forma estou calado, mas se não posso mais falar eu ainda assim direi.

Eu te Amo, pai. Sempre amei.
Mesmo hoje, enquanto escrevo, ainda sinto o peso dos teus olhos, o peso que você carregou consigo, sobre seus ombros. Eu preferia que o único peso que te ocupasse a memória fosse o meu, menino, andando de cavalinho nas suas costas.
Sabe... Eu sempre odiei seu perfeccionismo. Não você, seu perfeccionismo. Foi ele quem não deixou que você visse o puta pai que você foi, o quanto superou-se e à vida difícil que teve. Eu sempre admirei isso e sempre carreguei seus valores com orgulho. Pergunte a qualquer um que conviveu comigo quantas vezes não contei sua trajetória, seus caminhos, desde a sua infância até os dias em que pagou meus estudos. Aquele menino engraxate, que quase atirou em si por acidente numa banca de jornais, que pulava da ponte em dia de rio cheio; o Balé, que quase jogou profissional.
Enquanto você perdia seu tempo cobrando-se por não ter dado mais bens materiais eu lembrava com carinho dos Bens magníficos e intangíveis que você me deu. Da caixa de papelão com olhos e boca cortados no fundo e uma vela dentro, lá na chácara da vó, às histórias mil da família, da sua vida, te terror. Lembra a gente com o gravador fazendo história de terror? Ouvindo disco de piada suja? "Vai logo, vai logo, senão entra água". Das 'glândulas seborófilas', do palito de fósforo aceso entre seus dentes. De fazer a barba ao seu lado, te imitando. De montar ferrorama no quarto, fazer cabaninha de cobertor e vassoura, desenhar.

Desenhar, pai. Minha paixão, minha vida e meu sustento. Aquilo que me definiu mais do que qualquer outra coisa e pelo qual talvez eu seja lembrado fora de casa. Se eu desenhei, se inventei e criei, foi por sua causa.
Era você quem trazia papel e caneta pra mim, folhas de papel-vegetal e lapiseiras. E tudo o que eu queria era ficar do seu lado, enquanto você trabalhava na mesa da cozinha. Eu via o que você fazia como algo tão importante, algo que eu não entendia mas sentia, que queria fazer também.
Lembro de um rato que você desenhou uma vez, no sobrado, na sua poltrona. Eu pedi "pai, desenha um rato?" e você fez. Eu pensava no Mickey... você fez um rato de verdade. E eu me encantei por aqueles traços acalcados, rabiscados uns sobre os outros, sem linha contínua. Achei lindo. Eu sempre te via desenhando com régua, num traço frio e preciso, e então lá estava... isso, pai, definiu o estilo que eu criei pra mim e pelo qual fui conhecido.

Eu espero que essas memórias, tão vivas em mim após décadas, estejam vivas aí em você. E que se mantenham, sem espaço para lamentos e arrependimentos. Nossas falhas, brigas e discussões eram apenas o sintoma de aprender a viver, e nós aprendemos juntos.
Carregue então contigo aquilo que estou a levar comigo: nossa história magnífica e o orgulho que tive em ser filho de Hamilton Sinachi, a quem amei, honrei e nos últimos anos compreendi.

Te amo muito, meu amoroso pai, e te peço que não esmoreça. Não macule minha memória com um pretexto pra destruir-se, pra abandonar tudo, porque não foi isso o que eu nasci pra inspirar. Lembra de mim com amor e segue o resto do caminho, cuida dos nossos tesouros e da vida que continua, seja na família, nos nossos bichos e em você. Por favor, se cuida e livra do meu espírito a angústia de imaginá-lo triste e deprimido. Lembra de mim, pai, falando bonito e inspirado, desenhando o que você tinha orgulho em mostrar pros outros, com aquela minha soberba marruda e altiva que te irritava. Lembra, pai, de mim no seu colo, das nossas conversas no sofá, da empolgação com que eu falava e ensinava o pouco que sabia. Lembra de mim e de nós, da gente na represa com bóia de câmara de pneu, fazendo balão carrapeta, nadando machadinho, tirando as rodinhas da bicicleta. Lembra do Nesinho, do Dê.

Porque eu me lembro de você, o meu pai querido, de que tão igual a mim mal enxerguei em parte da vida, e que hoje levo comigo com o maior dos orgulhos.

Cuida da mãe, cuida do Kit e dos bichos. Cuida de tudo o que amei. Por mim.

Muito obrigado por tudo!

Te Amo. Beijo

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