segunda-feira, 26 de junho de 2017

• Post Póstumo

Pois é, morri.
É hora de me despedir.
Preparei esta mensagem ao longo de muitos dias, bem ciente da estranha situação na qual me encontro. Se o post foi publicado, salvo algum erro de cálculo, isso significa que não estou aqui para prorrogar o timer da postagem programada mais uma vez, como fiz durante todo esse tempo.
Não encare como morbidez: apenas usufruí da tecnologia para fazer o que, de outro modo, não seria possível. Talvez exista algum humor negro nisso, mas se assim não fosse não seria eu, certo? :D
Eu jamais saberei a reação que este texto provocará; não lerei suas mensagens, não verei seus sorrisos, não enxugarei suas lágrimas (ah, presunçoso!) nem poderei amenizar a tristeza com mais uma daquelas minhas piadas idiotas. Então terei de caprichar. Não é todo dia que se morre!


Eu amo vocês.
Vocês sabem; todos. Amei tudo o que chamou-me a atenção nesses longos anos.
Ah sim, em muitos sentidos foram longos: eu jamais poderia me contentar com uma vida que eu pudesse resumir como 'rápida'. Curti cada um de vocês o quanto pude, e quando não pude tratei de sonhar. E ainda sonho: fantasio que vocês estão aí, refazendo-se dessa surpresa um tanto bizarra, possivelmente triste, talvez reconfortante. Imagino que vocês seguem vivendo suas vidas e, nesse exato momento em que escrevo, penso o quanto isso é valioso pra mim - que vocês estejam vivendo suas vidas. Perdão pelo gerúndio, mas o tempo presente e contínuo que a mim não mais pertence é tudo o que mais quero que seja seu.
Eu fui muito, muito feliz com vocês. Nos meus momentos sozinho (graças a vocês, jamais solitário), sempre lembrei de cada instante que compartilhamos. A cama, os risos, os abraços, as realizações, as tristezas, os desafios, os karmas que eu achei que jamais terminariam, as noites sempre curtas demais, lindas demais, necessárias demais. Na verdade, jamais entenderei plenamente que não foram 'demais'. Poderíamos ter muitas outras e eu ainda assim pediria por mais. Eu queria mais, não tenham dúvida.

Desde criança sempre desejei que meus amores estivessem comigo: pais, irmão, amigos, mulher... vocês foram minha religião. Nas aventuras de ser homem na Era em que vivi, minha pequena arte (que recentemente descobrir ser do mundo) e minhas idéias foram todas não mais que o reflexo daquilo que estas pessoas causaram em mim. Vocês. Fui um menino tímido e introspectivo que repentinamente descobriu, na prática, o prazer previamente intuído de que me dedicar a vocês era Tudo - nisso encontrei o Sagrado. Inseguro, usei máscaras mil - a extroversão, a comédia, as palavras... com o único intuito de emocioná-los, cativá-los, amá-los. Também fui áspero, teimoso, soturno, e disso lamento um pouquinho - tempo gasto com mau proveito, onde caberia mais um beijo.

As pessoas não lembram (embora entendam) o quanto o outro é importante. Pode-se culpar a rotina, a correria (De que? Pra onde?), o que for... mas é algo que simplesmente não deveríamos esquecer jamais. Porque basicamente... viver, pra mim, foi isso: estar com os outros. Estar.
Hoje eu ainda existo, mas apenas sou. Pulverizado em átomos esparsos e nas suas memórias, nesses escritos, numas poucas obras, num corpo que está lá em algum lugar, a alimentar entes alheios a mim (e isso é ótimo!). Vivo até mesmo no sangue de alguns de vocês. Mas não mais estou.
Existe uma grande Poesia nisso. De certa forma sempre ansiei por dissipar-me no Cosmos e, ao mesmo tempo, em voltar pra Terra. Deixar de ser apenas eu pra me tornar tudo isso, energia dispersa rodeando quem e o que amei.

Agora falo contigo, no singular. Eu gostaria de enumerar pessoas, fatos, eventos, sentimentos. Gostaria ainda mais que esta conversa (sim, nada de monólogos) continuasse eternamente. Mas o fato é que os limites sempre existiram e existirão, e no momento o que tenho disponível é pouco tempo para aproveitar sua atenção e dizer, com o mais amplo e irradiado calor que já senti, que TE AMO e que foi isso, e só isso, que fez tudo valer a pena, que fez com que eu olhasse para trás sem pensar em mudar coisa alguma ao mesmo tempo em que repensei, em vida, como melhorar nossa história; que fez com que eu enfrentasse essa situação desconfortável de imaginar-me finado, antecipar-me ao momento e preparar essas palavras apenas para que soubesse do quanto senti por você e do quanto sou grato por sua existência.
De todas as infindáveis possibilidades matemáticas, você e eu dividimos o mesmo tempo, a mesma geografia, o mesmo ar e muitas emoções. Conterrâneos, contemporâneos e amantes. Não dava pra não ser feliz, pra não comemorar a Vida. Digo, como poderia?
Com você por perto, eu tive motivo. Você me intrigou, atiçou minha curiosidade, chamou minha atenção, motivou-me de algum modo. E se agora não estou mais aqui, isso é mero percurso da sua história (não da minha, eu não sei de mais nada). Se não for muita pretensão minha imaginar que faço falta, lide com o fato de que não estou mais aí, que não poderemos mais fazer o que fazíamos juntos. Mas lide. Lide e vá viver mais, vá ser feliz como você me fez ser e não se prenda às memórias - tempere-as com mais e mais experiências, plante nos atos e faça-nos vivos mais uma vez. Memórias também precisam de vida e movimento ou apagam, perecem, perdem-se no vazio.
Comemore: nós nos divertimos pra cacete, não foi?
Dioniso, o deus da minha vida que me deu nome, é isso: só há caminho e o percurso é a meta. E nós dois caminhamos muito, eu e você. Tô feliz por saber que você vai continuar essa estrada; dissolvo-me nela agora, na nossa trilha, onde eu sempre quis estar. Sem imperativos, apenas desejo meu: Vai e segue, respira a brisa e a poeira e lembra do meu cheiro, do barulho dos meus passos e do seu reflexo nos meus olhos úmidos. Assiste aquele filme que é a minha cara e comenta com a parte de mim que existe em você; toma aquela nova cerveja que agradaria o meu paladar; conta aquela nova piada que você não via a hora de me dizer. Mas faz em silêncio, em segundo plano, pra que eu possa ouvir enquanto você vive com novas pessoas e novos sonhos. Faz pra si mesmo, o único ente que realmente me interessa. É aí, em você, que eu vou estar.

Ei, você sabe... nunca fui um bom gastador, sempre desandei na economia, mas deixo-te um bom testamento: conta pros teus netos aquela vez, quando... você sabe. Lembra? Mas se exponha sem orgulho; quando você também se for, teus ouvintes te carregarão e, por tabela, me levam junto. É assim que a Grande Família funciona, vivemos uns nos outros e morremos na forma porque, afinal, seria chato de mais empedernir, cristalizar. Deixa Shiva dançar porque um passo leva a outro e todos juntos formam a dança.
Bem... é isso. Se preferir, pense que vou tocar arpa peladinho agora, conversar com o Joseph Campbell, com o Carls Sagan, brincar com o Scooby e comer o crústi da vó Ana. Talvez até te esperar. Faça-me o favor de chegar aqui num estado deplorável, de bengala, depois de ter trepado até assar e de rir até doer o baço. Chegue com cãibra no rosto, com aquele sorriso que não se desfaz. Como o meu, quando lembro de você.


Beijos, meus amados e amores. Vivo aí, nessas lembranças.

AMO VOCÊS.



Finado Denis


P.S.: Talvez eu poste mais mais postumamente... por que não? Sempre gostei de provocar surpresas.

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