
Denis de Marchi pensando malvadeza - by Seri
(caneta sobre guardanapo - 10 X 15 cm)
Seri (vulgo Sergio Ribeiro Lemos - el dibujero poligluêta), natural de São Vicente, é um ilustrador de mão cheia. Sua cabeça é o que poderíamos apelidar de "Ócio", pois é a própria oficina do capeta. Gente finíssima, faz piada o dia todo. Como chargista é simplesmente um dos melhores que conheço, com um humor atual, cheio da perspicácia que falta à maioria dos supostos ilustradores do país. Seu humor é tão versátil no dia-a-dia quanto nos seus trabalhos (o cara faz simplesmente de tudo e nem assim perde a humildade).
Nos zoamos o dia inteiro. Ele, um cruzamento de Senhor Burns com Zé Bonitinho, é uma das pessoas daquele jornal (e há bastante) que fazem a rotina da convivência valer a pena. Armações, piadas infames, trotes criativos, fotomontagens zoeiras, sacanagens com a estação gráfica um do outro, com os pertences... nesses momentos somos quase um clichê simpático do que deveria ser realmente uma Redação.
Quem quiser conferir os trabalhos desse cara, vale a pena.
► Site do Seri
Como diria o caiçarão: "Tu vai adorar!"
Obs: O "Varsóvia - verão de 49" ele botou só pra dar um charme de gravura de museu...
sábado, 6 de dezembro de 2008
• Da série "Comadres & Compadres" - nº1
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
• J. sofre de verdade
É raro quando um drama alheio provoca empatia real sem ter muito a ver conosco, mas às vezes acontece. É público e notório que eu sou um ensimesmado insensível filho da puta que sempre estraga tudo com a melhor das intenções, mas dessa vez me tocou. Assim surge no blog mais uma dessas croniquinhas enormes e sérias que ninguém quer ler (considerem-se avisados, portanto não reclamem :D).
***
Hoje peguei-me pensando em J., que não vejo já tem um tempinho e que um dia decidiu contar-me suas intimidades. Honestamente, eu não faço idéia do porquê confiar justo em mim. Pode ser que seja a tal magia dos desconhecidos, quando fica mais fácil tocar em alguns assuntos com estranhos do que qualquer outra pessoa com algum nível de relação (ou pode ser a minha cara de padre que transmite a ilusão de caráter, sei lá hehehehe).
Seu nome surgiu de soslaio num papo sobre nada, fofocas esparsas da Rádio Peão. Ccomo era muito blablablá à toa, não demorou pra minha cuca mergulhar em si e passear por outros assuntos. Foi quando notícias sobre ela rebobinaram minha tão cansada fita da memória.
E lá fui eu.
<< Rwd
J. tinha um drama pessoal que não posso nomear com nenhum desses rótulos acadêmicos pseudo-psicológicos. Não dá pra dizer que é grande, que é concreto. Talvez dê até pra questionar se é importante. Pode-se também zombar, pode-se achar exagero; há subjetividade suficiente pra todas essas alternativas.
O problema é que J. sofre de verdade. Nos dois sentidos.
J. contou-me um dia, num exercício de conta-gotas, como sofria com a falta de bunda. Isso mesmo, falta de bunda. Assim, de repente, você pode achar que é alguma historinha fútil de uma magrela com baixa autoestima, mas vai além.
J. realmente quase não tinha bunda. Eu só não entendia o peso disso (ou da falta disso) na sua vida. Tá, ok, talvez você não vá virar o pescoço ao vê-la passar, mas e daí? Em termos cruéis, alguém pode até constatar que ali falta algo e logo mudar de assunto. Não creio que seja tema por mais que 30 segundos, certo?
Errado.
J. esteve em cada um dos 30 segundos alheios que passaram por ela ao longo da Vida. Com os olhos tristes e pesados do potencial que nunca se realiza, contou-me como se sentia por ser desbundada no país da mulher-melancia. Do quanto dói ser chamada de jacaré na pré-adolescência. Como é cruel o olhar frígido do galãzinho, aquele que ela queria. Do primeiro "na boa, não rola", cortante aos ouvidos e ao coração. Do quando se sentiria lisonjeada, grata, a mais feliz das rainhas, se recebesse metade dos olhares masculinos que alvejavam as amigas,ofendidíssimas, no ir e vir. De como cada comentário não dirigido a ela assim parecia quando se tratava do tema: "Ah bunda isso, bunda grande, bunda X, rabão, boa parideira, desbundada é u ó..." - tudo era com ela, falava dela e do seu teratoma: o ouvido captava, como um sensor seletivo. E logo ela murchava, em seu silêncio, enterrada nos óculos de aro fino que enxergam demais.
As pessoas nunca têm idéia do quanto suas palavras machucam. Nunca. Mas o pior para ela não eram as palavras cortantes, intencionais ou não: era a hemorragia de concordar, de ser lembrada de que sua mazela a impedia de encontrar prazer (não sei dizer em quais termos, mas pelo que entendia incomodava até mesmo fisicamente, no ato - não fui além da imaginação nem ousei perguntar).
Ter ou não ter, eis a questão da Nova Era. Ela sabia: todos têm pontos fracos e limitações a lidar. Todos se frustram ou falta-lhes algo. Mas para ela poderia faltar-lhe tudo, menos o instrumento de expressão de sua volúpia, de dar e receber prazer, tão importante pra si quando falar ou respirar. "Eu podia ser caolha, manca... era melhor!" - brincou, no único momento em que a vi sorrir além do social.
|| Pause
Já disse que ela é bonita? Toda miudinha. Uma gracinha. Eu pegaria facinho se estivesse solteiro.
Sim, eu notei, ela quase não tem bunda. E ela vê que a gente vê.
► Play
Nossa primeira conversa sobre o tema surgiu quando, no corredor, o macharedo falava sobre bundas (até então eu achava que podia ser pior porque ao menos não falávamos de futebol).
Ela passou por ali, parou, ouviu, bebeu outro copo d'água. Respirou dentro dele e mordeu o canto. Calou, respirou. Ensaiou e perguntou:
"Tá, e o que faz quem não tem bunda de Carla Perez? Se mata?"
Nessas horas ninguém sabe responder. Uns concordam com ela, uns dão uma risadinha, outros se calam. Os mais imbecis aproveitam o ensejo pra passar uma cantada (pouco esforçada, afinal ela não é gostosa mas pode render uma trepadinha). Já os medianamente sensíveis (que sempre se crêem mais do que são) não poupam o interlocutor e soltam aqueles axiomas de alento do tipo "ah mas quando alguém te ama isso não importa" (o equivalente eufemista do "o que importa é o prazer que proporciona").
Nessa hora vi nos olhos dela toda aquela raiva e furor que guardava sob a anca miúda. "Que amor? Eu quero trepar, ser cobiçada, me sentir sensual e atraente!". Sua boca nada disse, selou-se no plástico do copo branco. Mas seus olhos berraram palavra por palavra. E eu ouvi. E ela notou.
>> Fwd
Estava formado o link. Nosso segundo papo chegou no mesmo tema sem muita explicação. "Me dói isso" - começou assim, disparado.
J. sofria de Verdade, essa síndrome de enxergar as coisas como são, suas consequências e, ainda assim, dizê-las.
Meu desafio não foi encontrar alguma "palavra amiga" para vomitar, algum clichê sofisticado qualquer, que venha em drágeas analgésicas de 5 em 5 minutos. Foi não ser arrastado para seu turbilhão de sufocamento, vindo do mais profundo e cruel crítico de sua vida: seu próprio prisma. Também tenho minhas dores e o que ela dizia era o que não queremos ouvir de nossas bocas: que nossos limites, às vezes vencidos e outras vezes vencedores, estarão lá na próxima esquina até o último dia.
J. não sabia o que fazer. Queria dar prazer ao homem, fosse o escolhido, fosse qualquer um. Não queria a esmola daquele que a amasse apesar disso - era assim que via a situação, ser amada por alguém que "relevasse seu defeito".
Era isso: como ela poderia escolher, esbanjar sua lascívia mal contida? Teria de ficar com quem a aceitasse. Sem bunda ela não se sentia mulher, porque os homens gostam de bunda grande e pronto. Não sabia que alternativas teria: exercícios jamais funcionaram - a hereditariedade é poderosa e o melhor que conseguiu foi engordar por um período - menos a bunda. Tentou investir em outros atributos - e tinha bons - mas sentia sempre que essa compensação não adiantaria nada na hora em que seu homem quisesse uma bunda boa, polpuda e redondinha. Seria sempre a "desbundada mas gente fina, isso e aquilo".
As revistas femininas nunca ajudam nessa hora (aliás, algum dia ajudam?). J. disse que já pesquisou um sem número de sites sobre próteses de silicone, hormônios e seja lá que paliativos mais; Pensou em usar calcinha com enchimento. "Mas e aí? Quando eu tirasse...". Pensou em injetar gordura, mas não-sei-quem fez e o corpo reabsorveu; decorou os dados todos e sofreu, linha por linha, com as frases da medicina. Diziam nada poder fazer; que há picaretas no mercado; que o resultado final é artificial - mas ela só lia "esqueça, você vai morrer assim, incapaz".
J. sabia: o mundo é cruel e tudo o que ele quer de uma mulher é sua bunda. Era o que os homens (e mulheres - gladiadoras de vestiário) diziam entre si, entre risos, olhadas marotas, chupadas entre dentes e elogios, que podiam ser grosseiros ou não, mas sempre dirigidos a outras. Como não acreditar no que diziam?
"Eu não odeio os homens por isso, têm o direito de gostar de bunda grande. Eu é que não tenho o que dá prazer pra vocês".
J. diz que concorda com os homens.
|| Pause
J. sofre, de verdade. A dor do banal, a dor do pequeno, a dor de todos nós na sua própria escala.
Perdi contato com ela pouco depois disso. Passou um tempo até seu nome vir à tona.
► Play
Contaram-me ontem que J. tentou suicidar-se.
Esperou a família dormir. No celular constavam duas ou três ligações seguidas para o ex-namorado, que já era ex quando nos conhecemos. Circulou pela casa com as luzes apagadas e trancou-se no banheiro. Tentou cortar os pulsos e fez aquele malfeito, típico dos suicidas de primeira viagem.
▼ STOP
Tenho orgulho de J. pela capacidade de enxergar a crueldade do ser humano e das cobranças do mundo sem apegar-se a subterfúgios. Pela força de prorrogar o suicídio por tanto tempo. Pela incapacidade de conformar-se sem fazer nada. Pela coragem de confessar suas dores.
Apenas sinto, muito, que tenha tentado livrar-se de alguém tão rica.
Mas quem irá julgar? Cada calo só aperta no pé em que lateja e se há famintos na Somália isso não alivia suas próprias dores.
• REC
Ela está internada e não corre mais risco de morte. Mas já morreu, trancafiada na exigência do mundo que turva a visão e mofa a alma. Resta romper, transformar, atravessar os traumas e descobrir o que pode fazer com o que tem - o único mérito real sobre algo que se herda. O resto é loteria e não há porque gabar-se.
Espero que ela ressucite e encontre o óbvio: que aquela bundinha miúda, de tão graciosa, só não é admirada porque turvados estamos todos.
J., você, que não me lê aqui mas ali me viu, boa sorte na sua nova Vida.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
• Novembro Negro
Vocês reclamam, reclamam, aí surge um bruta dum post enorme que nem esse e... puf, "nem li". :D
Pra facilitar (não sei pra quem), separei o texto em blocos menores com alguns asteriscos. Têm a ver uns com os outros, mas podem ser lidos um pouco por vez.
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/\
|| Viu que chique?
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De ráuse despencated
Tenho minhas superstições estúpidas como todo mundo, mas essa nunca foi uma característica muito evidente em mim. Mas olha... estou pra esse mês assim como estão aquelas véias pra agosto, mês do desgosto e do cachorro louco, quando sempre tem desastre aéreo.
Eu, acostumado a sublimar dissabores com o Aji-no-moto do bom humor, andava ranzinza, um pé-no-saco, caladão e cisudo. Novembro de Finados veio pra me descascar minha pintura sobre a bolha de humidade. Quase cri que era Karma, um cramulhão a dar vida aos meus pesadelos.
Explica-se: cometi muitos erros. Com a melhor das intenções, mas e daí? Há milhares de passagens bíblicas mostrando como Chaves só queria um sanduiche de presunto mas acabou chutando a canela do Senhor Barriga.
Foi assim, cheio de boas intenções e suposto centramento, que desacostumei a ouvir minha própria voz aqui dentro. Algumas más escolhas, outras boas pero temporárias (e ignorei essa parte).
O puto aqui é teimoso, viu... leva adiante, não larga o osso e teima naquilo que tem prazo pra durar. Pode chamar de idealismo, romantismo ou só teimosia (sem eufemismo: teimosia mesmo - "obstinação" é a teimosia que dá certo), mas o fato é que a renovação se faz necessária. E eu ODEIO mudança (quase tanto quanto frustração).
Chato assumir isso, né? Mas meu porte preguiçoso, temeroso e caçador de falsas seguranças não me deixa posar de gatinho. Acomodado, é nisso que me descubro em pleno exercício (ou melhor, falta de).
Não há aqui uma linha específica, porque o resumo da minha vida atual, em geral, é esse. Fosse esse um daqueles blogs chatérrimos do tipo "quero dizer, só não sei o quê", postaria um Arnaldão Antunes a pedir "Socorro, não estou sentindo nada".
Desprazer + frustração + falta de perspectiva (ou daquela - e só aquela - que você queria) = Apatia. E, vocês sabem, quem perde o bonde não pode reclamar que não sentou na janelinha. Se eu cheirasse, hoje era dia de dar uns tiros (no menos pior dos sentidos - como se possível).
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Viver é foda: você precisa ter um plano muito bem feito, mas tem de estar pronto pra mandá-lo às favas em 5 segundos. Você não pode viver a esmo mas não pode se prender ao plano. Tem de misturar Zeca pagodinho com Guido Mantega: "Deixa a vida me levar", pero no roteiro do pacote.
Quando é o momento de insistir? Quando é o momento de desistir?
Ninguém ensina essas coisas - provavelmente porque ninguém sabe.
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O Tarot berra palavras de ordem, um ou outro gracejo, muitos puxões de orelha e um rotundo e latejante "eu te disse...", a forçar-me entrada abaixo do coccix. E a ironia é que os oráculos... ora, são os oráculos".
A gente planta nossos caminhos. Sim, claro, há muita merda que acontece porque a vida é bem caótica mesmo, o mundo é um sistema fechado e seu recursos são disputados a tapa. Maaas... existe sim aquele lado, tão sutil que se ofusca fácil pelo brique-braques da rotina, que depende exclusivamente de nós. E a vida não tá de brincadeira: faz finta, dribla e entra de sola só pra ver se você tá acordado no jogo. É após um carrinho desses, tornozelo ainda inchado (e cagando de medo com aquela cara cínica da vida a sugerir "vem mais"), que escrevo aqui.
Minha vida tá de cabeça pra baixo. Um enforcado, uma Torre, um 10 de Espadas. E eu, plenamente ciente de que pisei na bola com um fulaninho meio tchongo mas gente-boa, Eu. Não esse aqui, mas aquele Eu que ficou triste quando tomou um fora, quando vazou Toddynho na lancheira, quando peidou na abdominal da educação física bem quando a garotinha ruiva segurava meus pés. Esse tipo de Eu, que a gente ignora, só volta a lembrar nessas crises e tão logo tudo se resolva volta a esquecer.
***
Eu, Mim... Reparou na quantidade de "eus" e "mins" nesse texto? É, eu também odeio isso, mesmo nos blogs. Mas é isso. O momento é de mergulhar no meu Self e isso explica em parte o silêncio bloguístico". Mas não justifica.
Não justifica porque o barato que não dei atenção é justamente o barato que tá me matando. O Stress (palavrinha mágica - a "virose" da psicologia) tomou muito da minha atenção no que realmente importa. Distrai-me com tolices, perdi-me em devaneios que, pela insistência e frequência, passei a chamar de pensamentos. E vejo que muito do que chamo Eu nada mais é do que um punhado de empréstimos que saquei dum banco escuso sem avaliar a procedência.
Eu sei que a previsão é de chuvas e trovoadas, mas algo em mim me diz: "eu te disse" e, ironia das ironias, sem culpa alguma eu já emendo "é, eu sei".
Mudanças, posturas ativas... ô minha Santa Genoveva Das Calças Investíveis, me deixa dormir mais cinco minutinhos, vai!
***
Postura positiva
O pior dessa coisa toda é que os frutos do positivismo só vêm bem depois, no futuro. Se você é um imediatista como eu, pode imaginar como é mala trabalhar às cegas. Mas é isso: o positivismo não muda os fatos, mas muda a forma como você vai reagir.
Antes que Kaghanda resolva lançar um bestseller com base nessa frase supimpa, convém lembrar: aquela merdona imprevista vai vir de qualquer jeito - não há mágica que mude o universo em virtude das nossas barganhas, portanto não adianta esperar que um suposto deus que supostamente tem um plano vá mudá-lo porque rezamos. Mas se você nutre uma linha de pensamento destrutiva (ou apática), vai buscar coisas e reagir ao que tem a ver com isso. Eu, por exemplo, bunda mole em busca de segurança material, emocional e mais alguma qualquer de vale-brinde, tô pastando justamente com a idéia estúpida que nutri sobre mim, ao tratar-me como se feito de açúcar e... vejam só, não é que tô hipoglicêmico? ;D
Sem balela de auto-ajuda new age: se você se imagina fraco e incapaz de resistir, é isso o que você se torna - vai buscar confortos e ninhos porque tem medo de voar (mas é isso o que você quer).
Resumindo: quem planta colchão mole colhe dor nas costas.
Aqui vou eu com uma dezena de Espadas a picotar-me os andaimes, na esperança de não ver luz no fim do túnel (porque o que eu preciso mesmo é aprender a andar no escuro e, ainda assim, confiar em mim).
Para breve, quero falar de pessoas. Nas próximas edições de UADERREL, materiais supimpas que só eu acho legal sobre essa jornada íntima.
domingo, 9 de novembro de 2008
• Kaghanda Yan Dandha vos diz
"Se o Barak é bom, o chopp é Obama!"
Kaghanda Molynho 3 kg e 1/2
Sri Swami Kaghanda
Yan Dandha ॐ
em "Throcadilhanda Yan Dandha -
a Iluminação através da Infâmia"
69ª edição
Editora "Para Gostar de L.E.R."
- 130 páginas -
ISBN 0394583904-308
Kaghanda vos diz nº3


