sábado, 27 de janeiro de 2018

• Mony... (ao Amor da minha vida)

Nega...

Eu te amo e amei muito. Desde o primeiro dia eu sabia que você seria a mulher da minha vida (só não sabia que seria por tão pouco tempo). Obrigado por fazer-me tão feliz, tão realizado e satisfeito... obrigado pelo carinho, paciência, dedicação... obrigado por olhar nos meus olhos, com esses zoiões brilhantes que eu tanto amei, e trazer pra mim cada realce de sua transparência, de seu desejo, da sua cumplicidade e dedicação.
Vivemos tanta coisa linda, né? Eu me lembro enquanto escrevo (e talvez, se ainda existo, num outro lugar, um paraíso qualquer onde possa reviver sem limite de tempo cada detalhe, cada cheiro e cada momento que vivemos juntos). São Thomé, Paraty, Curitiba, Socorro, Itu, Floripa, NY, Miami, Paris e nossa casa. A gente vendo Frida. Você cozinhando e eu te atazanando. 'Baça-périna', na cama, enroladinhos. Tantos, tantos e ainda assim eu queria mais. Sempre quis mais. Mesmo quando confuso, mesmo quando perdido, eu sempre soube onde estava meu coração, e lá no fundo sabia que essa minha curta história só existia e tinha graça porque você estava nela. E sempre estará.
Minha vida teve muito mais sentido desde que você apareceu e arriscou tudo pra estar comigo (enquanto escrevo sinto falta do seu cheiro, da sua pele morna, do seu sorriso macio... e choro miudinho, um choro bom). Esses anos foram os melhores da minha vida, tão curta quanto bem vivida e feliz, e nos meus diálogos comigo mesmo sempre pensei nela como AN/DN - antes e depois da Neguita.

Eu tinha tanto, mas tanto pra te dizer... como eu não teria pra mais ninguém. De tudo o que vivemos, de toda a sua presença na minha existência... dizer qualquer coisa a mais seria injusto com o que faltasse. Porque tudo teve sabor de vida, sabor de você.
Não chore muito por mim, tá? Eu sei que isso não se pede, mas... Se posso te pedir isso... passe por essa fase mas não guarde luto, guarde-me nas boas lembranças e vá viver, porque você é nova e merece tudo de melhor, de mais radiante e intenso dessa vida, porque essas são qualidades suas também. E cuida dos nossos bichinhos (ai que saudade dos meus quentinhos!)... vocês sete são os meus tesouros e viver por vocês era minha maior realização, meu maior motivo pra acordar.
Você me fez tão feliz que, se eu pudesse escolher, viveria 10 vezes mais disso tudo a que chamamos Amor, mas que às vezes parecia ir além. Saiba. Saiba.
Bola pra frente! Não há espaço pra dor, só um longo caminho de vida que você ainda tem a percorrer: tenha os filhos que não tivemos, veja os lugares onde não fomos e busque sempre sua plenitude, meu anjinho preto, porque é exatamente o que eu buscaria se estivesse aí, com você, te empurrando pra vida. Nossa história juntos termina aqui, apenas porque um dia teria de terminar - estou menos triste que termine assim, enquanto saio de cena com a certeza de ter vivido o melhor dessa vida nos teus braços, ao teu lado. Eternizado nesse momento, congelado neste retrato do tempo, onde sempre te amarei e você sempre será a minha Mony, A Mony, A Minha Mulher.

Seja feliz, minha pretinha! Tenha uma boa noite... Dorme bem, dorme com Deus e sonha comigo...
Beijos nos olhinhos (cotíca!).


EU TE AMO, Simone, mulher da minha vida.


P.S.: Se este post foi publicado, isso significa que (salvo algum problema técnico) eu não estou mais aqui para prorrogar o timer.

• Post Póstumo nº 3

Oi... :D

Quero falar com o meu irmão. Kit, você tá aí?

Ô meu querido, meu queridão. Eu amo tanto você, sabia? Acho que sabe, mesmo comigo dizendo tão pouco. Tá cuidando da mãe e do pai? E a Kátia, como tá? Eu adorava essa menina, minha irmãzinha. Queria tanto ter dado mais carinho a ela! Mesmo depois do casamento eu tinha medo de apegar-me a ela e depois vocês se largarem, por isso mantinha-me um pouquinho distante. Que tolice...

Escrevi a maior parte desse texto enquanto você estava lá no quarto na casa da mãe, dormindo. Numa daquelas madrugadas, entre a hora em que você levantava para una mijadita e pouco antes de você levantar com um olho aberto e outro fechado e me encher o saco para tirar o carro pra você. Você me olhou, sorriu, mandou um beijo e disse: "Ô. Bô?"
Era tudo o que eu precisava ouvir.
Eu nunca pensei que fosse sentir saudade até disso. Até do beijo de cabeça. Mas, se estou em algum lugar para sentir algo, com certeza sinto.
Sinto falta também do teu olhar. Meu Kit kit Musculucutuca, meu Tule da Montanha, meu Seo Gegê. Desde antes de nascer você já provocava em mim sentimentos que nem imagina (aposto).
Eu falava contigo na barriga da mãe. Combinava de jogar bola no quintal (como tantas vezes jogamos - e quebramos vidros, e derrubamos gaiolas), cantava pra você (nada como a péssima influência musical que você adquiriu depois, sabe-se lá de quem - hehehe) e pensava no quanto seríamos amigos. Tudo bem que, quando chegou da maternidade aquele pacote de 2 quilos de picanha careca, eu pensei "puts, que que eu vou fazer com isso aí?", mas eu sonhava contigo, com o seu futuro, nossa amizade e com muitas outras coisas.
Coisas que depois brilharam nesse olhar desconfiado, úmido, esperto e curioso. Espero que seus filhos tenham olhos assim.

Teus filhos. Ô porra... como eu queria conhecê-los! Meus meninos! Minhas crias! Filhos do meu caçulinha... meus olhos molham as teclas enquanto faço cara de durão. Tosco, né?
Um tio babão, é o que eles perderam. Eu amaria esses meninos. Ia ensinar todas as merdas. Ia desenhar nas paredes de seus quartos, ensinar a nadar, a falar palavrão, contar as histórias da nossa família, do Universo, da fantasia... Pensando bem... ensine você. Eu já te estraguei antecipadamente pra isso mesmo... :D
Eles nunca saberão de mim senão por fragmentos das nossas histórias juntos, pequenas frases soltas de uma saudade alheia a eles, na mesa do jantar. Talvez não deem bola, não sei. Mas a mim, basta. Basta que vocês estejam lá, juntos numa mesma mesa, conversando. Como nós estivemos juntos tantas vezes na nossa, disputando o último chickenitos, criticando quem não comia cebola, quem pegava bife e não deixava pro outro, reclamando do copo de Coca que o outro roubou, nossas viagens, nossos jantares na casa da Mony... essas pequenas riquezas.
Nós fomos ricos, Renan.

Aprendi tanto contigo... 7 anos mais novo e já me ensinava coisas aos 14 anos. Não, minto: muito antes. Coisas sobre a vida, sobre mim e sobre o que é realmente o significado de família. Nós dois, os seres mais próximos em um planeta com bilhões de pessoas, os mesmos genes... ao mesmo tempo tão distintos, mas jamais distantes. Eu fui feliz contigo, tive a rara sorte de ter um irmão de verdade, daqueles de filmes onde tudo acaba bem no final.
E nosso final poderia mesmo ter vindo a qualquer hora que estaria tudo bem. Saí daí sem aquela sensação de pendências, de coisas por resolver contigo. Apenas gostaria de ter dito mais. Gostaria que houvesse mais daqueles momentos tão simples e mágicos. Nossa primeira viagem juntos, seu primeiro Golzinho, os filmes vistos juntos, você repetindo todo o diálogo dos Goonies, Top Gun... cantando Guns n' Roses. Teu primeiro show de rock. Tua primeira frustração com o emprego. Tua primeira dor de amor. Paris. Teu casamento (ainda tem a retrospectiva? Lembra do meu discurso?).
Eu estive sempre ali, contigo, e sou grato por isso.

Desculpe-me. Eu não tive contigo a chácara que gostaríamos. Não disse o quanto eu estava orgulhoso pelo profissional que você se tornou. Usei teu perfume escondido. Não caprichei o quanto podia no logo da sua banda. Não te consultei sobre pintar um ET assustador na parede do quarto. Troquei o CD do Metallica que dei para você. Te culpei pelo Danoninho jogado na privada.
Pior: peidei na almofadinha em que você dormia abraçado, tirei foto sua sentadinho na privada, peladinho tomando banho e chorando. Fui um mala dum irmão mais velho.
Será que posso te pedir um favorzinho mesmo assim?

Não me esquece, querido. Porque eu jamais te esqueci. Jamais. Quando pensava em sair de casa e seguir o caminho natural da vida, o que mais me doía era pensar em ficar longe de você, não conviver mais contigo, não conversar aqueles papos malucos de economia, psicologia, o espaço, a física quântica e tudo mais que nenhum dos dois entendia até teu olho piscar pesado na madrugada.
Lembra de mim como teu ninja protetor, girando um nuntchaco em riste atrás dos moleques do bairro que tosavam suas pipas. Daquele que fazia novela de terror contigo com o velho gravador do pai e uns efeitos especiais da cozinha. Daquele que te salvava o trabalho de escola fazendo uma máscara de isopor, ou qualquer outra bobagem que me fizesse sentir participando de sua vida, ser importante para você.
No fundo era isso, eu queria que aquele que eu amava tanto tivesse orgulho de mim, eu queria ser especial e digno da sua admiração. Porque assim você sorria e me olhava com esses olhos verdes desconfiados, curiosos, espertos e úmidos.
Úmidos como os meus, enquanto escrevo.

Eu te amo, moleque. E sempre vou amá-lo.
Beijo pras nossas famílias.




P.S.: Bulusss... kuuuu.


Antes que alguém diga "Denis, morre de uma vêz, hômi", aproveito para relembrar que já estou morto, portanto foda-se a reclamação, nem ligo. hehehe

O.B.S.: Se vocês pretendem guardar o que digo, é bom copiarem esses textos. Eu não sei se este blog vai durar muito... uma bela hora o Google apaga tudo e bau-bau.

• Post Póstumo

Pois é, morri.
É hora de me despedir.
Preparei esta mensagem ao longo de muitos dias, bem ciente da estranha situação na qual me encontro. Se o post foi publicado, salvo algum erro de cálculo, isso significa que não estou aqui para prorrogar o timer da postagem programada mais uma vez, como fiz durante todo esse tempo.
Não encare como morbidez: apenas usufruí da tecnologia para fazer o que, de outro modo, não seria possível. Talvez exista algum humor negro nisso, mas se assim não fosse não seria eu, certo? :D
Eu jamais saberei a reação que este texto provocará; não lerei suas mensagens, não verei seus sorrisos, não enxugarei suas lágrimas (ah, presunçoso!) nem poderei amenizar a tristeza com mais uma daquelas minhas piadas idiotas. Então terei de caprichar. Não é todo dia que se morre!


Eu amo vocês.
Vocês sabem; todos. Amei tudo o que chamou-me a atenção nesses longos anos.
Ah sim, em muitos sentidos foram longos: eu jamais poderia me contentar com uma vida que eu pudesse resumir como 'rápida'. Curti cada um de vocês o quanto pude, e quando não pude tratei de sonhar. E ainda sonho: fantasio que vocês estão aí, refazendo-se dessa surpresa um tanto bizarra, possivelmente triste, talvez reconfortante. Imagino que vocês seguem vivendo suas vidas e, nesse exato momento em que escrevo, penso o quanto isso é valioso pra mim - que vocês estejam vivendo suas vidas. Perdão pelo gerúndio, mas o tempo presente e contínuo que a mim não mais pertence é tudo o que mais quero que seja seu.
Eu fui muito, muito feliz com vocês. Nos meus momentos sozinho (graças a vocês, jamais solitário), sempre lembrei de cada instante que compartilhamos. A cama, os risos, os abraços, as realizações, as tristezas, os desafios, os karmas que eu achei que jamais terminariam, as noites sempre curtas demais, lindas demais, necessárias demais. Na verdade, jamais entenderei plenamente que não foram 'demais'. Poderíamos ter muitas outras e eu ainda assim pediria por mais. Eu queria mais, não tenham dúvida.

Desde criança sempre desejei que meus amores estivessem comigo: pais, irmão, amigos, mulher... vocês foram minha religião. Nas aventuras de ser homem na Era em que vivi, minha pequena arte (que recentemente descobrir ser do mundo) e minhas idéias foram todas não mais que o reflexo daquilo que estas pessoas causaram em mim. Vocês. Fui um menino tímido e introspectivo que repentinamente descobriu, na prática, o prazer previamente intuído de que me dedicar a vocês era Tudo - nisso encontrei o Sagrado. Inseguro, usei máscaras mil - a extroversão, a comédia, as palavras... com o único intuito de emocioná-los, cativá-los, amá-los. Também fui áspero, teimoso, soturno, e disso lamento um pouquinho - tempo gasto com mau proveito, onde caberia mais um beijo.

As pessoas não lembram (embora entendam) o quanto o outro é importante. Pode-se culpar a rotina, a correria (De que? Pra onde?), o que for... mas é algo que simplesmente não deveríamos esquecer jamais. Porque basicamente... viver, pra mim, foi isso: estar com os outros. Estar.
Hoje eu ainda existo, mas apenas sou. Pulverizado em átomos esparsos e nas suas memórias, nesses escritos, numas poucas obras, num corpo que está lá em algum lugar, a alimentar entes alheios a mim (e isso é ótimo!). Vivo até mesmo no sangue de alguns de vocês. Mas não mais estou.
Existe uma grande Poesia nisso. De certa forma sempre ansiei por dissipar-me no Cosmos e, ao mesmo tempo, em voltar pra Terra. Deixar de ser apenas eu pra me tornar tudo isso, energia dispersa rodeando quem e o que amei.

Agora falo contigo, no singular. Eu gostaria de enumerar pessoas, fatos, eventos, sentimentos. Gostaria ainda mais que esta conversa (sim, nada de monólogos) continuasse eternamente. Mas o fato é que os limites sempre existiram e existirão, e no momento o que tenho disponível é pouco tempo para aproveitar sua atenção e dizer, com o mais amplo e irradiado calor que já senti, que TE AMO e que foi isso, e só isso, que fez tudo valer a pena, que fez com que eu olhasse para trás sem pensar em mudar coisa alguma ao mesmo tempo em que repensei, em vida, como melhorar nossa história; que fez com que eu enfrentasse essa situação desconfortável de imaginar-me finado, antecipar-me ao momento e preparar essas palavras apenas para que soubesse do quanto senti por você e do quanto sou grato por sua existência.
De todas as infindáveis possibilidades matemáticas, você e eu dividimos o mesmo tempo, a mesma geografia, o mesmo ar e muitas emoções. Conterrâneos, contemporâneos e amantes. Não dava pra não ser feliz, pra não comemorar a Vida. Digo, como poderia?
Com você por perto, eu tive motivo. Você me intrigou, atiçou minha curiosidade, chamou minha atenção, motivou-me de algum modo. E se agora não estou mais aqui, isso é mero percurso da sua história (não da minha, eu não sei de mais nada). Se não for muita pretensão minha imaginar que faço falta, lide com o fato de que não estou mais aí, que não poderemos mais fazer o que fazíamos juntos. Mas lide. Lide e vá viver mais, vá ser feliz como você me fez ser e não se prenda às memórias - tempere-as com mais e mais experiências, plante nos atos e faça-nos vivos mais uma vez. Memórias também precisam de vida e movimento ou apagam, perecem, perdem-se no vazio.
Comemore: nós nos divertimos pra cacete, não foi?
Dioniso, o deus da minha vida que me deu nome, é isso: só há caminho e o percurso é a meta. E nós dois caminhamos muito, eu e você. Tô feliz por saber que você vai continuar essa estrada; dissolvo-me nela agora, na nossa trilha, onde eu sempre quis estar. Sem imperativos, apenas desejo meu: Vai e segue, respira a brisa e a poeira e lembra do meu cheiro, do barulho dos meus passos e do seu reflexo nos meus olhos úmidos. Assiste aquele filme que é a minha cara e comenta com a parte de mim que existe em você; toma aquela nova cerveja que agradaria o meu paladar; conta aquela nova piada que você não via a hora de me dizer. Mas faz em silêncio, em segundo plano, pra que eu possa ouvir enquanto você vive com novas pessoas e novos sonhos. Faz pra si mesmo, o único ente que realmente me interessa. É aí, em você, que eu vou estar.

Ei, você sabe... nunca fui um bom gastador, sempre desandei na economia, mas deixo-te um bom testamento: conta pros teus netos aquela vez, quando... você sabe. Lembra? Mas se exponha sem orgulho; quando você também se for, teus ouvintes te carregarão e, por tabela, me levam junto. É assim que a Grande Família funciona, vivemos uns nos outros e morremos na forma porque, afinal, seria chato de mais empedernir, cristalizar. Deixa Shiva dançar porque um passo leva a outro e todos juntos formam a dança.
Bem... é isso. Se preferir, pense que vou tocar arpa peladinho agora, conversar com o Joseph Campbell, com o Carls Sagan, brincar com o Scooby e comer o crústi da vó Ana. Talvez até te esperar. Faça-me o favor de chegar aqui num estado deplorável, de bengala, depois de ter trepado até assar e de rir até doer o baço. Chegue com cãibra no rosto, com aquele sorriso que não se desfaz. Como o meu, quando lembro de você.


Beijos, meus amados e amores. Vivo aí, nessas lembranças.

AMO VOCÊS.



Finado Denis


P.S.: Talvez eu poste mais mais postumamente... por que não? Sempre gostei de provocar surpresas.

• Post Póstumo nº 4 - Pai

É, velhinho... eu não ia deixar passar não.

Achou que eu ia esquecer de você? Que eu ia seguir caladão?
Bom, de certa forma estou calado, mas se não posso mais falar eu ainda assim direi.

Eu te Amo, pai. Sempre amei.
Mesmo hoje, enquanto escrevo, ainda sinto o peso dos teus olhos, o peso que você carregou consigo, sobre seus ombros. Eu preferia que o único peso que te ocupasse a memória fosse o meu, menino, andando de cavalinho nas suas costas.
Sabe... Eu sempre odiei seu perfeccionismo. Não você, seu perfeccionismo. Foi ele quem não deixou que você visse o puta pai que você foi, o quanto superou-se e à vida difícil que teve. Eu sempre admirei isso e sempre carreguei seus valores com orgulho. Pergunte a qualquer um que conviveu comigo quantas vezes não contei sua trajetória, seus caminhos, desde a sua infância até os dias em que pagou meus estudos. Aquele menino engraxate, que quase atirou em si por acidente numa banca de jornais, que pulava da ponte em dia de rio cheio; o Balé, que quase jogou profissional.
Enquanto você perdia seu tempo cobrando-se por não ter dado mais bens materiais eu lembrava com carinho dos Bens magníficos e intangíveis que você me deu. Da caixa de papelão com olhos e boca cortados no fundo e uma vela dentro, lá na chácara da vó, às histórias mil da família, da sua vida, te terror. Lembra a gente com o gravador fazendo história de terror? Ouvindo disco de piada suja? "Vai logo, vai logo, senão entra água". Das 'glândulas seborófilas', do palito de fósforo aceso entre seus dentes. De fazer a barba ao seu lado, te imitando. De montar ferrorama no quarto, fazer cabaninha de cobertor e vassoura, desenhar.

Desenhar, pai. Minha paixão, minha vida e meu sustento. Aquilo que me definiu mais do que qualquer outra coisa e pelo qual talvez eu seja lembrado fora de casa. Se eu desenhei, se inventei e criei, foi por sua causa.
Era você quem trazia papel e caneta pra mim, folhas de papel-vegetal e lapiseiras. E tudo o que eu queria era ficar do seu lado, enquanto você trabalhava na mesa da cozinha. Eu via o que você fazia como algo tão importante, algo que eu não entendia mas sentia, que queria fazer também.
Lembro de um rato que você desenhou uma vez, no sobrado, na sua poltrona. Eu pedi "pai, desenha um rato?" e você fez. Eu pensava no Mickey... você fez um rato de verdade. E eu me encantei por aqueles traços acalcados, rabiscados uns sobre os outros, sem linha contínua. Achei lindo. Eu sempre te via desenhando com régua, num traço frio e preciso, e então lá estava... isso, pai, definiu o estilo que eu criei pra mim e pelo qual fui conhecido.

Eu espero que essas memórias, tão vivas em mim após décadas, estejam vivas aí em você. E que se mantenham, sem espaço para lamentos e arrependimentos. Nossas falhas, brigas e discussões eram apenas o sintoma de aprender a viver, e nós aprendemos juntos.
Carregue então contigo aquilo que estou a levar comigo: nossa história magnífica e o orgulho que tive em ser filho de Hamilton Sinachi, a quem amei, honrei e nos últimos anos compreendi.

Te amo muito, meu amoroso pai, e te peço que não esmoreça. Não macule minha memória com um pretexto pra destruir-se, pra abandonar tudo, porque não foi isso o que eu nasci pra inspirar. Lembra de mim com amor e segue o resto do caminho, cuida dos nossos tesouros e da vida que continua, seja na família, nos nossos bichos e em você. Por favor, se cuida e livra do meu espírito a angústia de imaginá-lo triste e deprimido. Lembra de mim, pai, falando bonito e inspirado, desenhando o que você tinha orgulho em mostrar pros outros, com aquela minha soberba marruda e altiva que te irritava. Lembra, pai, de mim no seu colo, das nossas conversas no sofá, da empolgação com que eu falava e ensinava o pouco que sabia. Lembra de mim e de nós, da gente na represa com bóia de câmara de pneu, fazendo balão carrapeta, nadando machadinho, tirando as rodinhas da bicicleta. Lembra do Nesinho, do Dê.

Porque eu me lembro de você, o meu pai querido, de que tão igual a mim mal enxerguei em parte da vida, e que hoje levo comigo com o maior dos orgulhos.

Cuida da mãe, cuida do Kit e dos bichos. Cuida de tudo o que amei. Por mim.

Muito obrigado por tudo!

Te Amo. Beijo