quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

• Um post de Natal diferente

Nada como uma boa ficção para o final de ano cheio de resoluções para o futuro.
Todos aqui sabem o que penso sobre o Natal, mas este é um post diferente.
Um pouquinho de amor pra adoçar os corações, com a promessa de um UADERREL mais simpático no ano que vem.


Do futuro que não vivi



"Hoje falei com o filho do meu irmão. Ele fez pirraça e xingou o pai com alguma daquelas palavras que tão habilmente escolhemos para ofender a quem amamos e, em nossos pequenos delitos cotidianos, abusamos por conhecer pontos fracos.
O garoto chilicou na cozinha, porque é isso o que garotos fazem, e perdi a paciência a qual nasci sem alguma. Chamei-lhe de canto em três passos: por favor, venha já e agarrado. No terceiro ele veio, lançando-me o mesmo olhar que seu pai usava para cravar-me na memória aquilo tudo que jamais ousei esquecer.
Contei ao menino bicudo e ensimesmado - que é o que os garotos fazem - sobre o quanto seu pai o amava. O quanto havia sofrido para que ele, garotinho bicudo e ensimesmado, fosse bicudo e ensimesmado. Que essa sua magnífica capacidade, sua soberba e sua pretensão iam muito além da vocação dos meninos: era hereditária, genética e, mais do que isso, era um direito.
Direito conquistado por aquele pai, que poupou-lhe da rotina de perdas e danos que afligem a milhões de vozes de todas as idades que, caladas, conformam-se com o destino. Destino reforjado e moldado por ele, o pai, que a custo de privações pessoais, medos e desafios, amenizou dores e amplificou doçuras.
Por amor. Por amor, aquele outro garoto raçudo e metido, cheio de sonhos e talentos, atleta, músico e colega carismático, optou por anular-se nas complexidades, sutilezas cruéis e mil relevâncias da vida adulta e tornou-se pai. Não como um fardo, prisma visto por egoístas e gente de fora como eu, mas como uma meta, um objetivo, um foco e, principalmente, um espasmo da alma, que não se explica por palavras mas transborda em atos do coração.
Não adiantava, no entanto, contar-lhe o quanto eu o amava como se fosse meu – ali eu era apenas um tio num contexto indesejável. Mostrei-lhe então em cada frase, com a clareza que jamais tive, o quanto eu amava e me orgulhava de seu pai. O quanto vi naquele outro garoto (que velho e careca continua meu moleque) tudo aquilo de melhor que jamais fui.
Ficou claro ao guri o quanto eu faria valer minha autoridade, de quem limpou muitas vezes a bunda do seu criador. E do quanto, na verdade, eu sabia que ele, meu sobrinho, amava o pai, mas perdia tempo com orgulhos idiotas e questões tão menores.
Mas escolher as palavras, como o garoto já descobriu, são difíceis nessas horas.
O menino dissolveu seu bico, que deu lugar ao olhar inquisitor que herdou do pai e que tantas vezes flagelou-me com perguntas duras de respostas óbvias que jamais aceitei. Olhava-me com reprovação, pelo meu excesso de zelo com algo tão banal (“eu só briguei com meu pai”), por intrometer-me (“você não é meu pai”), pela minha tomada de partido (“você não é um tio legal”) e por não ver o seu lado (“vocês são todos iguais”).
Foi quando endureci. Quando mostrei-lhe que nosso sangue é o mesmo, não importa qual porcentagem, e que também tenho melindres. Medi forças – porque é isso o que garotos fazem – e apontei-lhe que era por ele, e não por meu irmão, que eu dizia aquilo. Para que não perdesse o bonde do tempo nem deixasse de dizer o quanto ama sua família, que jamais se desse ao luxo de economizar gestos e palavras diante do amor, que jamais contasse com a eternidade do tempo como uma inesgotável poupança a qual se auferem lucros e jamais dividendos, que nunca contasse com o ‘subentendido’ e dependesse das bolas de cristal daqueles que precisam ouvir, de nossas bocas, aquilo que temos a dizer. Que não fizesse como eu, que dizia a ele tudo aquilo que eu não disse ao meu próprio irmão. Porque é isso o que garotos, perdidos e tolos, fazem.

Eu, tolo do mundo, que tanto deixei de dizer, ensinava ao garoto aquilo que não aprendi: que pais morrem, irmãos morrem e tudo vira lembrança, vaga e rala como leite C. Menos as saudades, e o arrependimento por ter construído menos delas do que se gostaria.
Eu, tolo do mundo, reconfortava-me com duas certezas: a de que meu sobrinho não me entendia, mas teria tempo e capacidade para o fazer um dia porque fora criado pelo meu irmão; e que me esqueceria rapidamente após minha morte, exceto talvez por isso. Porque eu, tardio, finalmente e só ali não fiz o que homens fazem.
E Falei:

Eu amo Renan.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

• Eutanásia

Sempre fui a favor. Sempre. Nunca houve uma linha de dúvida, nem mesmo antes de atingir a Idade da Razão e abandonar o catolicismo, como diria o finado Carlin.
Nenhuma dúvida. Maaaas com ressalvas, claro.
O assunto voltou à mente hoje, após sacrificarmos a cadela de estimação da Mony, minha patroa, poucas horas atrás. O emocional está envolvido - nesse mesmo ano passei pelo mesmo com o meu cão - e mesmo assim o racional está presente (necessário para dar o apoio e pensar nas coisas que ela, a "parente", não estava em condições de fazer).

Eutanásia. Os pró-argumentos, pra mim, são muitos. Não só no caso de animais irracionais (seja lá o que isso significa); mas de todo e qualquer ser vivo.
Convenhamos: a cristandade mundial adora um cavaderzinho. Uma feridinha, uma enfermidade pra dar aquele charme. Sabe, morrer na cruz, sangrar, coisa e tal. As igrejas, principalmente as européias, têm o saudabilíssimo hábito de cultuar o dente, dedo, osso e sangue de tudo quanto é santo (e ainda chamar de relíquia). Algo bem materialista, por sinal, mas isso fica pra outro dia.
O fato é que eu repudio. Dispenso a necrofilia. Não tenho prazer na dor, nem na minha nem na alheia. E vida pra mim passa pelo prefixo "qualidade de", do contrário trata-se apenas da descrição de uma função químico-biológica e nada mais. Se há algo de sagrado na Vida - e nisso eu também acredito - não está em manter uma picanha pulsando sobre uma maca (ou numa colher de proteína flutuante num útero - o que nos leva à outra polêmica e cria um gancho pra outro post). O espírito, senhoras e senhores, a alma. É só o que me interessa. Fora disso é bife, máquina de carne, automóvel que, sem piloto, é só veículo inútil. Bom... não sei vocês mas eu não ficaria com um carro parado na garagem nesses termos; ou venderia ou mandaria pro ferro velho, onde alguém necessitado poderia usar suas peças.
Eu gostaria de saber: sem considerar o fato de que o Estado não deve se meter em cada detalhe íntimo da vida do cidadão... por que este mesmo Estado, dito laico, baseia-se numa moralidade religiosa para legislar sobre algo que envolve lógica e escolha pessoal?
Crime? Que eu saiba tortura também é. Não é o Congresso quem vai sofrer por mim se eu tiver um câncer terminal. Eu quero, EU quero uma dose cavalar de um bálsamo qualquer que me deixe dessa vida a impressão derradeira de relaxamento. Dispenso a cara contorcida e desfigurada da dor extrema, injustificada e inútil. Pra ficar bonitinho no velório, talvez. Tanto faz o depois.
Este é um apelo à lógica: se eu não vou melhorar, se vou morrer por mim mesmo dali a alguns dias, pra quê vou ficar agonizando até lá? Qual o proveito nisso, qual o enlevo espiritual para qualquer um dos envolvidos? Suicídio é botar fim numa vida que poderia seguir em frente, melhorar. Enquanto há jeito, há jeito!
Não é o caso do terminal, cuja sentença já foi dada (e é das mais torturantes). Clemência, compaixão e solidariedade nem de perto se parecem com "deixar seu ente querido agonizando por dias (ou meses)".
O fato é que o bando de bundas moles - o grosso da população gnu desse planeta - não quer assumir o fardo de desligar o botão. É por elas - e não pelo enfermo - que não o fazem. É por egoísmo, pela indisposição em sacrificar seus medos em nome da paz do outro. Mesmo após todo aquele discurso de "passei os últimos 6 meses limpando a bunda do pobrezinho", o que resta no final é o complexo de culpa de finalizar o caso, por medo de sonhar que "matou o ser amado porque estava cansada de lavar a bunda". Bulchíti, amiguinhos. Incomensurável e irrestrita bulchíti.

Bulchíti parte tchu
Os supostos pró-vida dizem que terminar com a vida é anti-natural. UADEFóQUI? Isso ocorre a todo momento na verdadeira Natureza - que passa longe dos clichês da modinha vegan, neo-hippie ou qualquer paliativo pra aliviar consciência que o valha. Um animal moribundo no mato vira janta, ora essa. Essa é a clemência da Selva: antes que o câncer te coma em vida, pouco a pouco, algum animal se aproveita da sua vulnerabilidade e te finaliza em segundos. Então por que eu, macaco pelado com aspirações megalomaníacas, me atreveria a negar a solução que a natureza levou 2 bilhões de anos pra aprimorar? Que alternativa eu daria em resposta? Manter o bife latente sob máquinas? Prolongar a dor até o extremo ou dopar miseravelmente (mantendo o corpo e matando a consciência)? Para quê?
Falta foco, gente. Falta foco. É preciso muito esforço de semântica pra enxergar no amontoado de carne inerte sobre a mesa aquele parente, ativo e alegre (ou chato e apático), aquele bichinho simpático e brincalhão... é justamente pelo sorriso do alegre, pela simpatia do brincalhão, que sem pensar duas vezes eu daria o prêmio do descanso (por mais que me doesse, seria menos do que doeu nele).
É tudo questão de dispor-se ao sacrifício (Seu, mais que o de outros).

***

Claro que há poréns, todos mais técnicos do que filosóficos. Qual era a vontade do moribundo? Dá pra saber se ele realmente não vai melhorar, se realmente morreu? O hospital é correto ou estão esperando um fígado zeradinho pra transplantar no filho do filantropo que já deixou 45 mil prontinhos no cofre por ele?
São muitas perguntas que eu espero que você não tenha de responder. Mas... sinceramente? Pra todas elas, após encarar tantas mortes, a minha resposta ainda é a mesma:
Sacrifique(-nos).

sábado, 6 de dezembro de 2008

• Da série "Comadres & Compadres" - nº1


Denis de Marchi pensando malvadeza - by Seri
(caneta sobre guardanapo - 10 X 15 cm)



Seri
(vulgo Sergio Ribeiro Lemos - el dibujero poligluêta), natural de São Vicente, é um ilustrador de mão cheia. Sua cabeça é o que poderíamos apelidar de "Ócio", pois é a própria oficina do capeta. Gente finíssima, faz piada o dia todo. Como chargista é simplesmente um dos melhores que conheço, com um humor atual, cheio da perspicácia que falta à maioria dos supostos ilustradores do país. Seu humor é tão versátil no dia-a-dia quanto nos seus trabalhos (o cara faz simplesmente de tudo e nem assim perde a humildade).
Nos zoamos o dia inteiro. Ele, um cruzamento de Senhor Burns com Zé Bonitinho, é uma das pessoas daquele jornal (e há bastante) que fazem a rotina da convivência valer a pena. Armações, piadas infames, trotes criativos, fotomontagens zoeiras, sacanagens com a estação gráfica um do outro, com os pertences... nesses momentos somos quase um clichê simpático do que deveria ser realmente uma Redação.
Quem quiser conferir os trabalhos desse cara, vale a pena.

► Site do Seri

Como diria o caiçarão: "Tu vai adorar!"
Obs: O "Varsóvia - verão de 49" ele botou só pra dar um charme de gravura de museu...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

• J. sofre de verdade

É raro quando um drama alheio provoca empatia real sem ter muito a ver conosco, mas às vezes acontece. É público e notório que eu sou um ensimesmado insensível filho da puta que sempre estraga tudo com a melhor das intenções, mas dessa vez me tocou. Assim surge no blog mais uma dessas croniquinhas enormes e sérias que ninguém quer ler (considerem-se avisados, portanto não reclamem :D).

***

Hoje peguei-me pensando em J., que não vejo já tem um tempinho e que um dia decidiu contar-me suas intimidades. Honestamente, eu não faço idéia do porquê confiar justo em mim. Pode ser que seja a tal magia dos desconhecidos, quando fica mais fácil tocar em alguns assuntos com estranhos do que qualquer outra pessoa com algum nível de relação (ou pode ser a minha cara de padre que transmite a ilusão de caráter, sei lá hehehehe).
Seu nome surgiu de soslaio num papo sobre nada, fofocas esparsas da Rádio Peão. Ccomo era muito blablablá à toa, não demorou pra minha cuca mergulhar em si e passear por outros assuntos. Foi quando notícias sobre ela rebobinaram minha tão cansada fita da memória.
E lá fui eu.


<< Rwd
J. tinha um drama pessoal que não posso nomear com nenhum desses rótulos acadêmicos pseudo-psicológicos. Não dá pra dizer que é grande, que é concreto. Talvez dê até pra questionar se é importante. Pode-se também zombar, pode-se achar exagero; há subjetividade suficiente pra todas essas alternativas.
O problema é que J. sofre de verdade. Nos dois sentidos.
J. contou-me um dia, num exercício de conta-gotas, como sofria com a falta de bunda. Isso mesmo, falta de bunda. Assim, de repente, você pode achar que é alguma historinha fútil de uma magrela com baixa autoestima, mas vai além.
J. realmente quase não tinha bunda. Eu só não entendia o peso disso (ou da falta disso) na sua vida. Tá, ok, talvez você não vá virar o pescoço ao vê-la passar, mas e daí? Em termos cruéis, alguém pode até constatar que ali falta algo e logo mudar de assunto. Não creio que seja tema por mais que 30 segundos, certo?

Errado.
J. esteve em cada um dos 30 segundos alheios que passaram por ela ao longo da Vida. Com os olhos tristes e pesados do potencial que nunca se realiza, contou-me como se sentia por ser desbundada no país da mulher-melancia. Do quanto dói ser chamada de jacaré na pré-adolescência. Como é cruel o olhar frígido do galãzinho, aquele que ela queria. Do primeiro "na boa, não rola", cortante aos ouvidos e ao coração. Do quando se sentiria lisonjeada, grata, a mais feliz das rainhas, se recebesse metade dos olhares masculinos que alvejavam as amigas,ofendidíssimas, no ir e vir. De como cada comentário não dirigido a ela assim parecia quando se tratava do tema: "Ah bunda isso, bunda grande, bunda X, rabão, boa parideira, desbundada é u ó..." - tudo era com ela, falava dela e do seu teratoma: o ouvido captava, como um sensor seletivo. E logo ela murchava, em seu silêncio, enterrada nos óculos de aro fino que enxergam demais.
As pessoas nunca têm idéia do quanto suas palavras machucam. Nunca. Mas o pior para ela não eram as palavras cortantes, intencionais ou não: era a hemorragia de concordar, de ser lembrada de que sua mazela a impedia de encontrar prazer (não sei dizer em quais termos, mas pelo que entendia incomodava até mesmo fisicamente, no ato - não fui além da imaginação nem ousei perguntar).

Ter ou não ter, eis a questão da Nova Era. Ela sabia: todos têm pontos fracos e limitações a lidar. Todos se frustram ou falta-lhes algo. Mas para ela poderia faltar-lhe tudo, menos o instrumento de expressão de sua volúpia, de dar e receber prazer, tão importante pra si quando falar ou respirar. "Eu podia ser caolha, manca... era melhor!" - brincou, no único momento em que a vi sorrir além do social.

|| Pause
Já disse que ela é bonita? Toda miudinha. Uma gracinha. Eu pegaria facinho se estivesse solteiro.
Sim, eu notei, ela quase não tem bunda. E ela vê que a gente vê.

► Play
Nossa primeira conversa sobre o tema surgiu quando, no corredor, o macharedo falava sobre bundas (até então eu achava que podia ser pior porque ao menos não falávamos de futebol).
Ela passou por ali, parou, ouviu, bebeu outro copo d'água. Respirou dentro dele e mordeu o canto. Calou, respirou. Ensaiou e perguntou:
"Tá, e o que faz quem não tem bunda de Carla Perez? Se mata?"
Nessas horas ninguém sabe responder. Uns concordam com ela, uns dão uma risadinha, outros se calam. Os mais imbecis aproveitam o ensejo pra passar uma cantada (pouco esforçada, afinal ela não é gostosa mas pode render uma trepadinha). Já os medianamente sensíveis (que sempre se crêem mais do que são) não poupam o interlocutor e soltam aqueles axiomas de alento do tipo "ah mas quando alguém te ama isso não importa" (o equivalente eufemista do "o que importa é o prazer que proporciona").
Nessa hora vi nos olhos dela toda aquela raiva e furor que guardava sob a anca miúda. "Que amor? Eu quero trepar, ser cobiçada, me sentir sensual e atraente!". Sua boca nada disse, selou-se no plástico do copo branco. Mas seus olhos berraram palavra por palavra. E eu ouvi. E ela notou.

>> Fwd
Estava formado o link. Nosso segundo papo chegou no mesmo tema sem muita explicação. "Me dói isso" - começou assim, disparado.
J. sofria de Verdade, essa síndrome de enxergar as coisas como são, suas consequências e, ainda assim, dizê-las.
Meu desafio não foi encontrar alguma "palavra amiga" para vomitar, algum clichê sofisticado qualquer, que venha em drágeas analgésicas de 5 em 5 minutos. Foi não ser arrastado para seu turbilhão de sufocamento, vindo do mais profundo e cruel crítico de sua vida: seu próprio prisma. Também tenho minhas dores e o que ela dizia era o que não queremos ouvir de nossas bocas: que nossos limites, às vezes vencidos e outras vezes vencedores, estarão lá na próxima esquina até o último dia.

J. não sabia o que fazer. Queria dar prazer ao homem, fosse o escolhido, fosse qualquer um. Não queria a esmola daquele que a amasse apesar disso - era assim que via a situação, ser amada por alguém que "relevasse seu defeito".
Era isso: como ela poderia escolher, esbanjar sua lascívia mal contida? Teria de ficar com quem a aceitasse. Sem bunda ela não se sentia mulher, porque os homens gostam de bunda grande e pronto. Não sabia que alternativas teria: exercícios jamais funcionaram - a hereditariedade é poderosa e o melhor que conseguiu foi engordar por um período - menos a bunda. Tentou investir em outros atributos - e tinha bons - mas sentia sempre que essa compensação não adiantaria nada na hora em que seu homem quisesse uma bunda boa, polpuda e redondinha. Seria sempre a "desbundada mas gente fina, isso e aquilo".

As revistas femininas nunca ajudam nessa hora (aliás, algum dia ajudam?). J. disse que já pesquisou um sem número de sites sobre próteses de silicone, hormônios e seja lá que paliativos mais; Pensou em usar calcinha com enchimento. "Mas e aí? Quando eu tirasse...". Pensou em injetar gordura, mas não-sei-quem fez e o corpo reabsorveu; decorou os dados todos e sofreu, linha por linha, com as frases da medicina. Diziam nada poder fazer; que há picaretas no mercado; que o resultado final é artificial - mas ela só lia "esqueça, você vai morrer assim, incapaz".
J. sabia: o mundo é cruel e tudo o que ele quer de uma mulher é sua bunda. Era o que os homens (e mulheres - gladiadoras de vestiário) diziam entre si, entre risos, olhadas marotas, chupadas entre dentes e elogios, que podiam ser grosseiros ou não, mas sempre dirigidos a outras. Como não acreditar no que diziam?
"Eu não odeio os homens por isso, têm o direito de gostar de bunda grande. Eu é que não tenho o que dá prazer pra vocês".
J. diz que concorda com os homens.

|| Pause
J. sofre, de verdade. A dor do banal, a dor do pequeno, a dor de todos nós na sua própria escala.
Perdi contato com ela pouco depois disso. Passou um tempo até seu nome vir à tona.

► Play
Contaram-me ontem que J. tentou suicidar-se.
Esperou a família dormir. No celular constavam duas ou três ligações seguidas para o ex-namorado, que já era ex quando nos conhecemos. Circulou pela casa com as luzes apagadas e trancou-se no banheiro. Tentou cortar os pulsos e fez aquele malfeito, típico dos suicidas de primeira viagem.

▼ STOP
Tenho orgulho de J. pela capacidade de enxergar a crueldade do ser humano e das cobranças do mundo sem apegar-se a subterfúgios. Pela força de prorrogar o suicídio por tanto tempo. Pela incapacidade de conformar-se sem fazer nada. Pela coragem de confessar suas dores.
Apenas sinto, muito, que tenha tentado livrar-se de alguém tão rica.
Mas quem irá julgar? Cada calo só aperta no pé em que lateja e se há famintos na Somália isso não alivia suas próprias dores.

REC
Ela está internada e não corre mais risco de morte. Mas já morreu, trancafiada na exigência do mundo que turva a visão e mofa a alma. Resta romper, transformar, atravessar os traumas e descobrir o que pode fazer com o que tem - o único mérito real sobre algo que se herda. O resto é loteria e não há porque gabar-se.
Espero que ela ressucite e encontre o óbvio: que aquela bundinha miúda, de tão graciosa, só não é admirada porque turvados estamos todos.

J., você, que não me lê aqui mas ali me viu, boa sorte na sua nova Vida.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

• Novembro Negro

Vocês reclamam, reclamam, aí surge um bruta dum post enorme que nem esse e... puf, "nem li". :D
Pra facilitar (não sei pra quem), separei o texto em blocos menores com alguns asteriscos. Têm a ver uns com os outros, mas podem ser lidos um pouco por vez.

***
/\
|| Viu que chique?
***

De ráuse despencated
Tenho minhas superstições estúpidas como todo mundo, mas essa nunca foi uma característica muito evidente em mim. Mas olha... estou pra esse mês assim como estão aquelas véias pra agosto, mês do desgosto e do cachorro louco, quando sempre tem desastre aéreo.
Eu, acostumado a sublimar dissabores com o Aji-no-moto do bom humor, andava ranzinza, um pé-no-saco, caladão e cisudo. Novembro de Finados veio pra me descascar minha pintura sobre a bolha de humidade. Quase cri que era Karma, um cramulhão a dar vida aos meus pesadelos.
Explica-se: cometi muitos erros. Com a melhor das intenções, mas e daí? Há milhares de passagens bíblicas mostrando como Chaves só queria um sanduiche de presunto mas acabou chutando a canela do Senhor Barriga.
Foi assim, cheio de boas intenções e suposto centramento, que desacostumei a ouvir minha própria voz aqui dentro. Algumas más escolhas, outras boas pero temporárias (e ignorei essa parte).
O puto aqui é teimoso, viu... leva adiante, não larga o osso e teima naquilo que tem prazo pra durar. Pode chamar de idealismo, romantismo ou só teimosia (sem eufemismo: teimosia mesmo - "obstinação" é a teimosia que dá certo), mas o fato é que a renovação se faz necessária. E eu ODEIO mudança (quase tanto quanto frustração).
Chato assumir isso, né? Mas meu porte preguiçoso, temeroso e caçador de falsas seguranças não me deixa posar de gatinho. Acomodado, é nisso que me descubro em pleno exercício (ou melhor, falta de).
Não há aqui uma linha específica, porque o resumo da minha vida atual, em geral, é esse. Fosse esse um daqueles blogs chatérrimos do tipo "quero dizer, só não sei o quê", postaria um Arnaldão Antunes a pedir "Socorro, não estou sentindo nada".
Desprazer + frustração + falta de perspectiva (ou daquela - e só aquela - que você queria) = Apatia. E, vocês sabem, quem perde o bonde não pode reclamar que não sentou na janelinha. Se eu cheirasse, hoje era dia de dar uns tiros (no menos pior dos sentidos - como se possível).

***

Viver é foda: você precisa ter um plano muito bem feito, mas tem de estar pronto pra mandá-lo às favas em 5 segundos. Você não pode viver a esmo mas não pode se prender ao plano. Tem de misturar Zeca pagodinho com Guido Mantega: "Deixa a vida me levar", pero no roteiro do pacote.
Quando é o momento de insistir? Quando é o momento de desistir?
Ninguém ensina essas coisas - provavelmente porque ninguém sabe.

***

O Tarot berra palavras de ordem, um ou outro gracejo, muitos puxões de orelha e um rotundo e latejante "eu te disse...", a forçar-me entrada abaixo do coccix. E a ironia é que os oráculos... ora, são os oráculos".
A gente planta nossos caminhos. Sim, claro, há muita merda que acontece porque a vida é bem caótica mesmo, o mundo é um sistema fechado e seu recursos são disputados a tapa. Maaas... existe sim aquele lado, tão sutil que se ofusca fácil pelo brique-braques da rotina, que depende exclusivamente de nós. E a vida não tá de brincadeira: faz finta, dribla e entra de sola só pra ver se você tá acordado no jogo. É após um carrinho desses, tornozelo ainda inchado (e cagando de medo com aquela cara cínica da vida a sugerir "vem mais"), que escrevo aqui.
Minha vida tá de cabeça pra baixo. Um enforcado, uma Torre, um 10 de Espadas. E eu, plenamente ciente de que pisei na bola com um fulaninho meio tchongo mas gente-boa, Eu. Não esse aqui, mas aquele Eu que ficou triste quando tomou um fora, quando vazou Toddynho na lancheira, quando peidou na abdominal da educação física bem quando a garotinha ruiva segurava meus pés. Esse tipo de Eu, que a gente ignora, só volta a lembrar nessas crises e tão logo tudo se resolva volta a esquecer.

***

Eu, Mim... Reparou na quantidade de "eus" e "mins" nesse texto? É, eu também odeio isso, mesmo nos blogs. Mas é isso. O momento é de mergulhar no meu Self e isso explica em parte o silêncio bloguístico". Mas não justifica.
Não justifica porque o barato que não dei atenção é justamente o barato que tá me matando. O Stress (palavrinha mágica - a "virose" da psicologia) tomou muito da minha atenção no que realmente importa. Distrai-me com tolices, perdi-me em devaneios que, pela insistência e frequência, passei a chamar de pensamentos. E vejo que muito do que chamo Eu nada mais é do que um punhado de empréstimos que saquei dum banco escuso sem avaliar a procedência.
Eu sei que a previsão é de chuvas e trovoadas, mas algo em mim me diz: "eu te disse" e, ironia das ironias, sem culpa alguma eu já emendo "é, eu sei".
Mudanças, posturas ativas... ô minha Santa Genoveva Das Calças Investíveis, me deixa dormir mais cinco minutinhos, vai!

***

Postura positiva
O pior dessa coisa toda é que os frutos do positivismo só vêm bem depois, no futuro. Se você é um imediatista como eu, pode imaginar como é mala trabalhar às cegas. Mas é isso: o positivismo não muda os fatos, mas muda a forma como você vai reagir.
Antes que Kaghanda resolva lançar um bestseller com base nessa frase supimpa, convém lembrar: aquela merdona imprevista vai vir de qualquer jeito - não há mágica que mude o universo em virtude das nossas barganhas, portanto não adianta esperar que um suposto deus que supostamente tem um plano vá mudá-lo porque rezamos. Mas se você nutre uma linha de pensamento destrutiva (ou apática), vai buscar coisas e reagir ao que tem a ver com isso. Eu, por exemplo, bunda mole em busca de segurança material, emocional e mais alguma qualquer de vale-brinde, tô pastando justamente com a idéia estúpida que nutri sobre mim, ao tratar-me como se feito de açúcar e... vejam só, não é que tô hipoglicêmico? ;D
Sem balela de auto-ajuda new age: se você se imagina fraco e incapaz de resistir, é isso o que você se torna - vai buscar confortos e ninhos porque tem medo de voar (mas é isso o que você quer).
Resumindo: quem planta colchão mole colhe dor nas costas.
Aqui vou eu com uma dezena de Espadas a picotar-me os andaimes, na esperança de não ver luz no fim do túnel (porque o que eu preciso mesmo é aprender a andar no escuro e, ainda assim, confiar em mim).

Para breve, quero falar de pessoas. Nas próximas edições de UADERREL, materiais supimpas que só eu acho legal sobre essa jornada íntima.

domingo, 9 de novembro de 2008

• Kaghanda Yan Dandha vos diz

"Se o Barak é bom, o chopp é Obama!"
Kaghanda Molynho 3 kg e 1/2

Sri Swami Kaghanda
Yan Dandha ॐ
em "Throcadilhanda Yan Dandha -
a Iluminação através da Infâmia"
69ª edição


Editora "Para Gostar de L.E.R."

- 130 páginas -
ISBN 0394583904-308





Kaghanda vos diz nº3

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

• Nem PT, nem PSDB: CLT

ou "Da prostituição nossa de cada dia"

Zero-zero.
É claro que votei nulo. Não acredito nesse jogo.
Supostamente, é uma alternativa democrática.
Então... por que tantos se incomodam quando me perguntam em quem votei?
Sim, eu votei nulo. Mea culpa, mea maxima culpa.
Vocês me perdoam?

Eu quero é grana, amiguinhos. Sem essa: quero casa, comida, roupa lavada. Se for Gucci, melhor.
Eu quero é trabalho. Trabalho pra *rima*. CLT. Próprio negócio, de repente. Não sou empreendedor (seja lá o que isso significa), crio muito, inicio muito mas, em longo prazo, levo pouco adiante. Muitas idéias que fervem e se sobrepõem sugerem que é melhor alguém ganhar dinheiro comigo (basta pagar meu passe, ófi córsi).
Mas ninguém perguntou, portanto não interessa (o que faz parte exatamente da filosofia desse post).

Falam demais em bandeiras, legendas. Por alguns minutos esquecem-se que todo grupo só olha o próprio lado. E veja só, democracia é isso: grupos que se reunem para debater, num cabo-de-ferro cuja duração depende do fôlego, seus interesses comuns ou conflitantes. Empresários, banqueiros, favelados, jovens, sindicalistas, idosos, vendedores de jujuba anil, não importa: pros demais, seu grupo está em segundo plano (se existir).
Desde que aterrisou no planeta, o corporativismo (aquele feixe de galhos ornado com um machado) domina o aeroporto. E você não vai vencê-lo com passeata, corrente de e-mail ou postagem de blog. Olha, nem com homem-bomba, viu... não se vence a Panelinha com panelaço.
Há coisas para se aprender com o PCC, por exemplo: a diferença entre eles e nós, o povo, é que os primeiros são organizados. Nós, abençoados com o excesso de contingente (tal e qual os gnus), nada temos além do volumoso despreparo. Não há corporativismo possível para um grupo que só se lembra dessa natureza coletiva em Copa do mundo e final do Brasileirão. No resto do tempo, brasileiro olha brasileiro como concorrente, vítima ou algoz. Ou então não fede e nem cheira.

O velho chichê da Educação aparece novamente. Como se todos quisessem ralar e abandonar a tal zoninha de conforto (vulgo "tô na merda mas tá quentinho"); como se os órgãos responsáveis tivessem intenção de mudar a situação de conforto atual. Quem vai alimentar a boca que te morde a mão? É tão mais simples parasitar enfermo, oras... ainda mais quando este sossega com um Borsa Famía.
Todo político ativo é 'desonesto', no sentido comum (se não o for, não entra no esquema, sequer tem espaço pra falar - o partido ignora, não há verba pra campanha, contatos ou influência - ele entra lá pra asfaltar a rua do patrocinador, pra facilitar aquele contrato exclusivo e, nesse meio tempo, plantar um coqueiro na praça).
Todo empresário é malandro (se não for, vai falir, porque é inerente ao jogo aumentar seus lucros em porcentagens que desconsideram limites - 12% ao ano significa o quê? Que metas são essas num sistema fechado? Pra concorrer com a China você começa achando que sonegar faz parte, que enxugar custos é sucatear a folha de pagamento produtiva ao invés de cortar as marmitas sexuais da diretoria, e termina achando que não é má idéia contratar um boliviano ilegal).
Isso vale pra qualquer lugar do mundo (com ou sem protecionismo - capitalismo é o jogo do "quatro laranjas = duas pessoas + eu com três e você com uma + eu de olho na sua=o jogo termina com você sem nada"). A diferença entre a maioria dos países de terceiro mundo e a maioria do primeiro é que, nestes, o povo tem um pouco mais de preparo, critérios e exigências. Os caras roubam mas têm de disfarçar, rebolam mais, seguem pelas beiradas. É um quase-malufismo, bem maquiado e sorrateiro: pode até roubar o que sobrar, mas se não mostrar serviço... bau-bau. Poderíamos dizer também que o dinheiro que não tiram de sua população, o fazem de suas 'províncias' através de FMIs, bancos, multinacionais e afins, mas isso seria polêmico demais e, vocês sabem, eu odeio polêmica.

Em resumo: nos países emergentes, apesar da grana e da estrutura em formação, o povo ainda é de terceiro mundo. O brasileiro classe-média incomoda-se com isso - parece bizarro viver em SP, por exemplo, e pensar em sua terra como subdesenvolvida. É porque, primeiro, classe-mérdiamédia raramente olha para além do próprio umbigo; mas não é só... o grosso da massa não sabe cobrar, ficar em cima, fazer valer.
É preciso dizer que, sendo estúpido, não se é capaz de cobrar muita coisa?
Pela janela eletrônica do voyeurismo a cabo, temos a impressão de que a opinião pública pode mesmo ser forte no mundo, que basta recolher assinaturas e encher os e-mails dos senadores, etc.
Bom, mon cheris... e-mail? UADEFÓQUI? Alguém sinceramente espera 180 milhões de e-mails encaminhados ao Senado?
Pois é... talvez mensagens em papel de pão (daqueles que podem comprá-lo), escrito com aqueles garranchos que são sinônimo de alfabetização, segundo a progressão continuada do PSDB (que, por uma falha de marketing, não foi gloriosamente chamada de "passa-burro").
No país onde a União só faz açúcar, quero minha parte em Dólar.

Bandeiras? Legendas?
Minha legenda é pirão no prato.
Pagou, me leva.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

• Sim, doutor*

Tem coisa mais intrigante
que diálogo com médico?


(Tem, mas vamos fazer de conta
que não, pra não estragar
meu recurso narrativo):


_"Não há nada nos exames. Seu problema é tensão".
_"Que bom! Pelo menos não é virose!"
_"Como?"
_"Nada, só tô pensando que 'não tenho nada', mas 'tenho de'..."
_"Você tem de evitar o stress".
_"Ó aí, num falei?"
_"Não fique nervoso ou tenso. Seja sereno".
_"Tô quase lá! Vivo caindo de madrugada."
_"O stress prejudica o organismo, fuja disso".
_"Sério, doutor? E o convênio cobre a passagem pra Júpiter?"
_"Você tem de buscar qualidade de vida".
_"Quanto ela custa? Posso usar o dinheiro que só ganho com stress?"
-"Você tem de adotar uma postura saudável, evite industrializados
e conservantes".
_"Ah sim, vou ali na minha fazenda bucólica e já volto. Posso te pagar com alface orgânica?"
_"Uma vida saudável envolve evitar também o cigarro, o álcool, drogas, gordura animal, gordura vegetal, massas, açúcar e condimentos".

_"Faz sentido! Evitar viver evita morrer!"
_"Evite também o sedentarismo".
_"Qual a sua ópera preferida?"
_"Evita. Por que?"
_"Nada não.
Água pode?"
_"Mineral, de boa procedência".
_"Torneira da Deca serve?"
_"Bem... cuide-se, pois o stress pode matar".

_"Boa! Vou pedir pra ele dar cabo do meu financiamento do apê".
_"Veja bem, a medicina está aí para apontar caminhos. Você tem de fazer por onde".
_"Estressaaaante, né doutor?"
_"Nosso papel é ajudar a humanidade em sua busca pelo saudável".
_"Ajuda bem vinda, doutor. Pode receitar estricnina pro meu chefe?"
_"Olha... vou receitar-lhe um calmante suave".
_"...ele cura a fatura do cartão?"
_"Tome. Isso é tudo o que a medicina pode fazer".
_"...O que me faz perguntar por que vim aqui, afinal! Ah sim, pra tomar."
_"Bom, seu tempo acabou, a consulta é R$ 200".
_"Cobra 400 que de ouvir o preço tô infartando..."


*Homenagem à Karin (bem vinda ao clube!)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

• 31 aninhos - parte 2

Vejam só, senhores e cenouras...
Eu o encontrei. Treze milímetros de pura e alarmante palidez.
70 micra de inexorável realidade, dura, crua e alva. E pichaím.
Isso mesmo: pichaím, pichincheba, carapinha. Lá estava ele, em sua arrogante crueldade, a destacar-se dos demais, cheio de empáfia, em riste, a dizer-me impropérios em seu silêncio.
O pequeno canalha fez-me curvar. Algo tão pequeno fez-me tombar a cabeça, franzir a testa, olhar de baixo para cima para fitá-lo. Tivesse ele uma boca, sorriria seu sarcasmo de mil dentes, brilhantes como a prata.
Era ele, o Velho. Tal qual lança de Chronos, cravado no doze das horas, bradava sua soberba sobre minha cabeça. Algo tinha de ser feito.
Acompanhei mentalmente a trajetória de longos segundos do meu antebraço. Trazia minha mão à linha de frente, onde encontraria seu dever patriótico. Sincronizado, meu exército de dois guerreiros cercou o inimigo. Polegar e indicador, tenazes na batalha, envolveram o meliante.
Um momento, um silencioso e hesitante momento. A trêmula expectativa que precede o crime de guerra. Agora ou nunca. Dia D. O primeiro 'tunc', um soquinho, uma estiradinha. Treino. Vamos lá.

O criminoso lançou-me um olhar frio por entre meus dedos.
Foi então que, cinicamente compadecido, sussurrou:
"Se preferir, eu caio...".
Perdi a batalha. Desisti de arrancar meu primeiro cabelo branco.
Convenhamos, foi um puta bom argumento.

Bem vindo, Cid Moreira. Antes tu do que o Esperidião Amin.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

• 31 aninhos

"Bela @!"
...como diria minha avó.
Eu sempre fico azedo em aniversário. Ah sim, claro, muito bom estar vivo, ser jovem ainda e todas aquelas frases que se espera do aniversariante como manifestação de gratidão a Deus, etecétera et all. Mas confesso que, como um bom cavalo em parada militar... caguei e andei.
Eu estava azedo antes do dia 27 e neste dia nenhum milagre, nenhuma revoada de pirilampos, nenhuma aurora boreal ou holofote divino alumiou-me a fronte e a tudo mudou. Acordei, levantei, dei uma boa mijadinha e lá estava eu num dia comum. Só.

Às vezes a gente diz que não se importa com uma data, mas fica só esperando se alguém vai lembrar - se até tal hora ninguém disser nada, as sobrancelhas envergam-se e a coluna também. Mas hoje, quem não lembrou fui eu mesmo; no domingão, não tinha parado pra pensar se cairia na segunda ou na terça.

Não me interprete mal, nada de ingratidão nestas linhas. É cálido, reconfortante e valioso receber tanto carinho verdadeiro entre os costumeiros parabéns pro-forma e demais azeites sociais. Só pela web, recebi mais de 200 votos de paz, sucesso, amor e luz (mas só aceito se não tiver de pagar os Kilowatts), todos muito bem vindos e pelos quais sou grato, de coração.
Eu sei e sinto que há gente que simpatiza comigo (pretensioso, atrevo-me a dizer que até gostam mesmo de mim) e isso sem dúvida tem muito valor para mim. Ocorre que tem todos os dias, não só no aniversário.
Com o passar dos anos, a importância das datas comemorativas simplesmente foi perdendo seu valor intrínseco. Por si, nada mais dizem - são quase um espasmo social, que aparece como obrigação e desaparece com a naturalidade. Por exemplo...

Quer coisa mais mala do que o Natal?
Putaquilosparóla, mai frénds. Comer calorias de inverno em pleno calor de dezembro e botar algodão no enfeite da porta ("olha a neve, maínha!") pra pagar pau de europeu. Gastar o dinheiro que vai faltar no IPVA (que vem na sequência em janeiro), entulhar o duodeno e 'fazer o esquenta' para a mesmíssima comilânça no almoço seguinte (e no Ano Novo). Chester, rabanada, amigo secreto e abraços à meia-noite (talvez com aquele pulha que não olha na sua cara nos demais 364 dias do ano, mas que supostamente 'regozija-se' com a sua presença - pode crer, ele preferia abraçar a mulher-melancia). Ah não, né.
Não há nada mais artificial entre os feriados (talvez as Eleições, mas nessa não se comemora nada). Óbvio que nem sempre foi assim. Aliás, esse fato é parte do que acredito no momento - que certas festas só têm sentido se você for criança ou tiver alguma por perto. Sem balelas como 'criança interior' - a menos que você seja um pepino-do-mar mongolóide, não deve crer mais no Papai Noel e nem vai esperar pelo ferrorama embaixo da cama. Falo das crianças reais, aquelas que enchem a casa com risos - a festa é delas. Seja em qual festa do tipo for, é sua a alegria com o bolinho, com os amiguinhos, as bexigas, as cantigas, o enfeite, os brigadeiros e o CD do Cocoricó que os adultos, pelo exclusivo prazer em vê-las felizes, toleram com um sorriso nos lábios (se for do RDB, aí é pré-adolescente e você pode mandá-lo à merda).
Dá gosto ver criança em festa familiar, é pra ela o Papai Noel e o crediário do Playstation.
Nada mais.



"...Mas Denis, o Natal é a comemoração pelo nascimento de Cristo, quando celebra-se o amor transpessoal daquele que morreu por nós. Eu sei que você é ateu, mas pelo menos deves ver algum valor em estar junto dos parentes, não é?"



Claro que sim, Tinky Winky. De alguns, pelo menos. Mas... você precisa mesmo do dia 25 pra isso? Se qualquer pretexto é pretexto, devo esperar o ano inteiro? Por que não no Halloween? Ontem mesmo disse ao meu irmão que o amo. Souáti?
Sejamos francos: religioso de verdade o é todos os dias do ano, não só em domingo e natal - e a religiosidade não está entre os primeiros itens que vêm à mente quando se pensa nessas festinhas. Na Páscoa, ovo de chocolate; em São João, quadrilha e quermesse, pipoca e pé de moleque; no Natal, Tender e Panetone, presente e árvore de natal.
O presépio?
Uadefóqui isdét?
É isso aí. Todos dizemos dane-se à manjedoura (que eu nunca tive a curiosidade de saber se é o berço ou a casinha de palha), bem como fodam-se aqueles que não têm pai no dia dos pais, nem mãe no dia das mães, e que nesse dia vão se chatear em dobro. Foda-se quem vai comer sopão de evangélico com crise de consciência nesse dia (se cagasse aos pouquinhos, teria sopa pro resto do ano!). Foda-se quem vai ganhar meia ao invés do I-phone (até porque há quem não ganhe nem meia).
Taí! Natal é a festa do Foda-se!
Mais um pouco e começarei a gostar!

Tradições são confirmações de uma realidade que, se não me pertence, nada confirmam. E a cristandade do povo não anda lá essas coisas para afirmar que o Natal tem alguma profundidade além do que está na mesa e no pé da árvore de vinil.
Ultimamente, a festa nem pode ser muito diferente disso - se assim, com toda a firula habitual, já é a data com o maior número de suicídios no planeta, imagine se fosse levada a sério... dói menos quando se pensa que é apenas o dia de gastar dinheiro e encher a pança.
Este esvaziamento de sentido, que pode ser do mundo como pode ser só meu, sinto-o como real. E, curiosamente, não sinto falta de sua contraparte. Me faz bem dar flores e presentes fora de data, telefonar por saudades e comemorar sem motivo algum. Gosto de evocar os símbolos no momento em que se fazem necessários e não o contrário - esse marcar datas para recomeçar a vida, para renascer ou valorizar alguém, a mim, é o mesmo que o regime dos eternos gordos profissionais, que sempre começam na segunda-feira, depois do churras do domingo (e olha que decidem isso na terça-feira!).

Eu agradeço pelo carinho nesse dia. De verdade. Mas agradeço muito mais pelo carinho que, no resto do ano, sem precisar de lembretes no orkut e no Outlook, vem íntegro, terno e vivo como o nosso amor, que teima em brotar no asfalto do mundo e... vejam só! Não é que dá frutos?


Beijocas Lemon (pero nada Ice).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

• Notícias do Front - nº2

Eu de novo...
(jura, Denis? Você, no seu blog?).
Pois é. Quase senti saudades!
Ando um tanto acabrunhado, num misto de tédio e esgotamento pelo turbilhão dos últimos dias. Acrescenta-se aí mais uma evidência da estupidez do blogueiro: o mundo tá desabando e você se pergunta se não deveria escrever sobre isso no brógui. Pois eu me perguntei, perguntei e a resposta foi um "nhaaaaaw...". Mas não se engane, leitor! Não foi bom senso, foi desânimo mesmo.
Desânimo porque, muitas vezes,
dizer é não mais que chover no molhado.

"A polícia errou no caso Eloá" (e não, eu não a conhecia só porque moro na mesma cidade - juntamente de outras 800 mil pessoas), "a TV tem tanta ética quanto a Gretchen tem hímem", "o capitalismo está em falência", "o nível das Eleições está mais baixo do que nunca", entre outros clichês...
Ah não, né? Se não ando no melhor momento pra brincar com meus Exus pelo reino da Bloguelândia, ao menos vou poupá-los (ou poupar-nos?) desses dissabores midiáticos.

Não seria mais divertido discutir se o Nostradamus foi racista quando "citou" o Obama nas Centúrias? Ou cronicar e poetar aquelas pequenas agruras do cotidiano que nos aproximam? Expor pequenas intimidades, sonhos, medos e pensamentos?
A gente sente falta dos mitos, das cantigas, das almas das filosofias. Talvez queiramos uma folga do secular e do pontual, mais do que apenas alternar entre o banal e os sensacionalismos premoldados da rotina monotônica. Não ao ópio, sim ao açúcar. Ao sabor que encorpa o meramente nutritivo. Não à alienação, sim à miscigenação da cultura e da informação. Que ninguém, no entanto, inicie uma passeata ou campanha em prol do Entusiasmo. Que surja automático, espontâneo, pelo tesão e pela verve de ver-se vivo, como tudo o que é natural e, por isso, funciona.
Procurarei evitar essa coqueluche virtual de tentar transformar, tão a sério quanto em vão, um blog num veículo de mídia e informação; também não ceder à vaidade, invariavelmente sem senso crítico algum, de achar que importam ou fazem diferença as minhas opiniões, quase sempre pouquíssimo embasadas, sobre situações pontuais.
Mas... não prometo! :^D

***

Enquanto isso, vamos às vacas gordas, como diria Ivo Pitanguy.
Pra não dizer que não falei de flores, tô contente com o retorno que vocês deram aos últimos posts. Obrigado! Alguns, confesso, não eram o que eu previa (o que é ótimo). Por exemplo, o do Dia do Caviar. Nos próximos posts pretendo comentar algumas mensagens bem interessantes que recebi em função desse post (aproveito desde já pra agradecer ao(à)* anônimo(a) pela mensagem de carinho - o problema é que, ao me estimular a escrever mais, você castiga os leitores por tabela... :D). Estou também em dívida com a Jana, que pediu por um texto que publiquei e recolhi para reeditar. Nas próximas semanas ele retorna, assim como (espero!) meu bom humor.
Mas só depois do Inferno Astral.


* (o/a) = magnífica técnica para dar uma de Migué, confessem. ;^D


Fiquem agora com a nossa...

INCOMENSURÁVEL PESQUISA DA SEMANA!

"Na sua opinião, quem foi o culpado pela tragédia?"


a) a Polícia


b) o Pai foragido

c) Lindenberg

d) Spielberg

e) Iceberg

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

• Dia do Caviar com Champagne

Esta lata de Caviar custa aproximadamente US$ 2.000,
eu não posso comprar mas queria comê-lo.

Isso explica tudo.
Voltemos agora com a nossa programação normal
e foda-se a hipocrisia, amiguinhos!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

• Onegai, Nihon! - nº 1

Japão. Ainda não sei porque esse pequeno arquipélago tão distante da minha rotina foi tão simbólico e presente na minha história. Já passei pela fase de pensar tratar-se de influência televisiva, do Ultraman, dos ninjas, samurais e demais clichês saltitantes. Já deixei de lado a crença de meu apego numa tal admiração idealizada por seus valores. Já esbarrei até mesmo na idéia de que um país tão exótico como este não poderia faltar na listinha dourada do meu espírito xenófilo.
O fato é que não sei. O que me atrai no Japão, o que atiça minha curiosidade?
Que desejo é esse de participar dessa inocência, dessa neurose e dessa beleza obscura?

Tenho algumas pistas, todas frágeis. Cresci com descendentes, estudei com eles naquela fase tão emblemática dos 7 anos em diante. Consumi (e consumo) sua cultura pop tipo-export, em fases que iam e vinham. Namorei mestiças (odeio esse termo). Identifiquei-me com alguns valores e sentimentos que, erroneamente (típico de toda generalização), acreditei que fossem de seu povo como um todo. Alternei rejeições e esquecimentos com aquela velha e teimosa "fase nipo" citada acima. Hoje, com 31 anos, sinto a danada de volta, a me dizer coisas numa língua estranha, mágica e incognoscível.

Como eu disse, pistas frágeis.

Qual será a mágica no Japão? Esbarrei com outros que sentem ou já sentiram esse apelo, assim descobri que não sou o único e que, como eu, também não sabem explicar.
Passei às pesquisas para enxergar um pouquinho além dos clichês e encontrei muita coisa. Nas próximas postagens pretendo falar um pouquinho mais dessas impressões.

***

Confesso: há uma grande contradição aí. Primeiro porque estes valores não me pertencem, segundo que não raro ferem minhas crenças. É o famoso choque cultural, que mesmo vivido à distância, provoca em mim uma tremenda repulsa pelo Japão. Vai entender...

***

Cultura é algo mágico em si. É a parte que eu adoro na Globalização. Sonho com orishás, samurais e swamis que não me pertencem, como se meus. É o extremo do cosmopolitismo: a alma expatriada que olha pra si e vê-se em retalhos, costurados pelo apelo mágico de ser um humano tão igual e tão diferente.

***

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

• Ministério Público ameaça fechar o orkut

Deu na Folha:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u20501.shtml

Provavelmente o burburinho já chegou até você.
A impressão que fica é a de que o Estado optou pela coação com essa chantagem de tirar o orkut do ar, baseado em brechas (e ausência) de leis de regulamentação da internet. A idéia do MP, vejam só, é a de quebrar o sigilo das pessoas no orkut. Como o Google não o faz, está obstruindo a Lei.
UADERREL?
Sigilo?? No orkut???
Só eu não tenho privacidade naquela porcaria?

"Ah! Quebrarão apenas os dos perfis falsos" - replicaria Pollyana.
Sei. Como a Inteligência da PF, capaz de proezas mil com seus supergrampos, não consegue identificar um IP que qualquer nerd mongolóide com um programinha faz?
Outra boa pergunta. Quer dizer que, nessa lógica de evitar espaços onde possa haver conteúdo impróprio, vão bloquear todos e qualquer serviço de rede de contatos?
Adeus, Myspace! Afinal, por princípio, bloquearão a internet.

***
De um lado falam que negar-se a quebrar o sigilo é obstrução da lei, e por outro não consideram que ninguém é obrigado a denunciar coisa alguma, quanto mais o que não sabe. (Bom... aí peço ajuda pros advogados de plantão: se é obrigação, então fomos todos criminosos algum dia, porque já vimos calados muitas das merdas que o Estado não resolveu). Um órgão que sequer é capaz de nos dar o básico de proteção - seu dever - não deveria cobrar tanto quando pouco oferece pela troca de informações. Gostaria também de saber quantos bancos recusaram-se a quebrar o sigilo de alguns dos nossos políticos, por exemplo, mas isso eu vou morrer querendo, em vão.

De qualquer modo, não faz muito sentido que o Governo exija que um grupo ou empresa faça o trabalho que é inerentemente seu, que passe sua existência caçando bandidos e entregue de bandeja seus nomes. Simplesmente não é seu dever.
Isso me lembra as blitz da polícia nas ruas, que param Corsinha mil com uma família dentro pra ver documento e procurar "tóchico", que invadem barraquinho de favela quando os cabeças do tráfico estão na Barra da Tijuca, em Alphaville (ou Brasília.. ops). Por que não se divertem com outra coisa enquanto caçam bandidos? Eles sabem onde estão. Pra piorar, não se define as bases do que se considera "controle" num sistema onde o controle de conteúdo é absurdamente difícil de ser realizado e, acima de tudo, feito com base no conceito de livre expressão como a internet.

***

Conteúdo impróprio.
Taí um tema interessante. Ilegal é impróprio. Maconha, por exemplo, é ilegal. Uma comunidade que discuta democraticamente sua legalização, portanto, pode ser considerada imprópria por dar margem ao entendimento de que trata-se de apologia.
Pronto: pro xilindró, meliantes!

"Quem não deve, não teme!" - diria o Telettubie.
Não interessa. Apesar dos tempos de grampo, de "calaboca" da imprensa e afins, este ainda é um país livre e eu não quero ninguém fuçando nas minhas intimidades, quanto mais impedindo-me de debater os temas que me interessam. Eu, cidadão, que voto e boto essa gente pra trabalhar lá por e para mim, não quero esse cerceamento cheirando a saudades de Ditadura.

O interessante é que o Ministério Público desconsidera não apenas a questão da privacidade (direito) como não sugere medidas verdadeiramente eficientes; apenas cobra-as como se qualquer grupo ou empresa tivesse de prever absolutamente todas as possibilidade de crime e evitá-los (coisa que o próprio Estado não faz em relação à política nacional e à Segurança Pública). Medidas generalistas como essa são tão ilógicas quanto proibir igrejas porque há padres pedófilos, ou nos proibir de andar à noite nas rua porque nela pode haver ladrões.
Criminosos têm seus próprios códigos e abreviaturas (e podem reinventá-los a qualquer instante), como já é de conhecimento público. Sistemas de busca ao estilo palavras-chave simplesmente não resolvem. É possível criar um site obscuro ".ru" num servidor estranho qualquer via cartão de crédito, sem necessidade de CPF ou porra que o valha. Por isso nem a interpol nem ninguém consegue ir muito além do que já fazem. Pedófilos e nazistas propagam seus lixos desde os tempos de IRC e ICQ e o Estado culpar o orkut pela própria incompetência é risível, dá até margem pra pensar em retaliação por alguma propina mal-sucedida, mas eu é que não vou pensar nisso... porque pensar, amiguinhos, é perigoso (vai que tiram meus dedos do ar - e das mãos...).

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

• Crazy crisis - parte A

Tá difícil pra você entender a mais recente crise econômica?
Não se preocupe, amiguinho! Ninguém entendeu.

Mas, pensando no seu bem-estar, deixo aqui algumas dicas inúteis (lembre-se, se conselho fosse bom, vendia-se como ativo da Bolsa que vale mais do que dinheiro):

a) Os bancos falem. Os banqueiros, não.

b) Lembra do Y2K, quando o mundo implodiria em bytes no bug do milênio? Lembra da Bolsa da China, que derrubou a Bovespa? Da crise do petróleo, que secaria os automóveis? Pois é, se você lembra é porque sobreviveu. Se não lembra, também.

c) Muito vem sendo feito. A quantidade de jornais e horários nobres que se vendem na mídia em função desse assunto talvez não cubra o rombo financeiro, mas deve amenizar.

d) O cara que planta seu feijão continua vendendo pra você, pra poder comprar a geladeira que você fabrica. Não houve geadas nem problemas com matéria-prima, mas os financiamentos imobiliários-fantasmas americanos vão abalar essa relação porque estão intimamente ligados a nós, conforme se vê.

e) Você aluga seu cortador de grama pro vizinho porque você tem dois (e se só emprestar, o puto não devolve). O vizinho é um burro pobre que come capim pra poder pagar esse aluguel. Aí seu filho perde o reserva porque é estúpido e comprou a dívida de um vizinho que tinha ficado sem regador. Eis uma crise. Pra cobrir, você vai no seu vizinho e toma o aparelho de volta. Sem ele, o vizinho se desespera porque terá de cortar o capim com os dentes. Você, sem o dinheiro do aluguel, tira do bolso pra cobrir o déficit. Eis uma crise. Pra repor o buraco nos lucros, você tem a idéia de emprestar seu aspirador pra um vizinho. Ele comerá capim pra poder te pagar. Eis uma crise.

f) Capitalismo envolve risco. Quanto maior o risco, maior o lucro, caso dê certo. Se não der, alguém terá de pagar. Nesse caso, você, que não investe na Bolsa.

h) Reclamam da postura dos Governos, mas nada melhor pra uma crise artificial do que um paliativo artificial. Com dinheiro real. O nosso.

g) A ser pago para quem? Ora, você quer saber demais!

>> Não encha o saco, Denis!

Às vezes eu me sinto assim, como agora. Com essa fome de num-sei-quê, com um quê de urgência, de "preciso mudar as coisas!", sentindo falta do que não tive e que nem sei nome, velando na madrugada por algo que não sei o que é nem quando vem. Uns ligeiros sonhos mal sonhados aqui, uns devaneios infantis acolá, distrações fúteis, pouca disposição pra diálogos e aquela insatisfação rançosa de uma alma que quer, mas não sabe o quê.
Nessas horas, por pragmatismo conformado, escuto o diz-que-diz da minha alma insatisfeita, que choraminga por não estar fazendo o que gostaria e eu, cruel, pergunto de modo implacável:
"O que quer então, ó minh'alma?"

...

Nada.
É. Eu já imaginava...




P.S.: Sim, eu sei que tenho demorado a postar. Ando sem tesão pra escrever o que ferve na cuca, mas isso é fase. Aproveite pra ler os antigos, tenho certeza de que provavelmente você só lê os que ficam no topo (como quase todo mundo, aliás :D).

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

• Pergunta periquitante do mês


favelado
é POVO

?


>> Cartas à redação!

• Geografia determinista?

Será que a geografia de um lugar molda o caráter das pessoas?
Um clima árido torna as pessoas duras? Londrinos são frios e nebulosos como os fogs ingleses? Gregos são ríspidos como suas terras pedregosas do mesmo modo que os caribenhos possuem a displicência úmida do clima quente?

Este recurso passou de literário a literal, nas bocas e mentes xenófobas do mundo, ou é impressão minha?
Cá entre nós, sempre achei que caráter não escolhe nacionalidade, a despeito da política fascista insistentemente afirmar o contrário.

Qual a sua opinião?

sábado, 20 de setembro de 2008

• Mardita Chapinha!

Não existe 'ditadura da moda'. O que existe é quem se sujeite. Ao menos por enquanto, ninguém coloca uma arma na sua cabeça e te obriga a usar aquela grife, aquela bolsa, aquele penteado. E por falar em penteado, peguemos como exemplo esta parte do corpo cuja vocação milenar consiste em, basicamente, embelezar a cuca.
Que fixação é essa do mulherio pela chapinha?
Qual o problema com cabelos ondulados, afinal?
Mesmo sabendo que há cabelos que realmente são difíceis, quiçá ruins pacaraio, não entendo a motivação por alisar um cabelo. Existe muita diferença entre fixar apenas um modelo como padrão, e tratar ou realçar as qualidades daquilo que há em você.
Quer dizer que só aquele cabelinho lisinho é bom? A mim soa como mania de colonizado... Qualquer profissional de imagem sabe, por exemplo, que alguns tipos de cabelo devem ser condicionados ao tipo de rosto e podem simplesmente detonar com uma face bonita, assim como ocorreria se metêssemos uma moldura barroca num quadro pós-moderno. No geral, a emenda sai pior que o soneto.
Raramente desenhei mulheres com cabelos lisos, simplesmente porque o movimento de cabelos ondulados (meus preferidos) é mais complexo e atraente numa ilustração (tanto que na maior parte das vezes até forçamos ondulações nos lisos em desenhos e em fotografias - já viu aquelas seções fotográficas com ventilador? Então).

"Afinal, Denis, por que falar de algo tão fútil?"
Bom, primeiro... fútil é o mercado de ativos que negocia com ovo no cu da galinha, como diria John McCain. Pensar sobre um dos agentes psicológicos que mais oprimem o universo feminino na nossa Era me interessa, e muito. Pela motivação (seja qual for), pelo mal estar que provoca, pelos efeitos quase sempre nefastos, pela negação do que se é. Eu sei que as mulheres não consideram muito a opinião dos homens sobre suas invencionices (e isso nunca vamos entender bem), mas ao menos deveriam considerar que sua beleza inerente é necessariamente mais interessante (em num certo sentido, menos 'mutiladora'?) do que a homogenização das cacholas (em todos os sentidos).

sábado, 13 de setembro de 2008

• Evo e Chavez expulsam embaixador brasileiro

De onde se conclui que eles têm razão:
é absolutamente dispensável um diplomata
onde não há diplomacia alguma.


• Amy Whinehouse

Que saco, pípol.
Acho que hoje foi a quinta ou sexta vez que ouvi (juro que tentei fugir, mas não deu) o mesmo discurso sobre essa mulher. O curioso são as fontes, de fãs a detratores. As drogas, ah as drogas, bla bla bla. "Apanhou do namorado", "pêlos pubianos", "perdeu o dente", "tá se matando no tóchico". Música? Nem uma frase.
Vocês já ouviram essa mesma papagaiada?

Uma boa cantora, é fato. Fez um puta disco (Back to Black é ótimo) e pronto; provavelmente talvez não consiga fazer outro (ou mesmo um tão bom).

E?

Sem trocadilho, qual é o pó?
Todo o resto é não mais que uma pena pra quem queria continuar ouvindo seu trabalho.
Será que esse povo todo que tanto fala dela conhece pelo menos uma música ou outra (fora o trechinho que passou no Fantástico)?
Bom... nem precisa, afinal pras fofocas de cabeleireira só se deve saber que alguém famoso se danou. Não há diferença entre Amy e Rafael Pilha ou uma bichinha de uma bandinha de moleques que fez lipo e entrou em coma.
O importante é bater o cartão e falar a bostinha do dia.

"Ah, ela segue os passos de Janis Joplin, Jim Morrison, Jimmy Hendrix..."
Ah é? "Roqueiro(a) junkie"? Por que?
"Essa vida artística é assim mesmo" - diz, com todo aquele conhecimento de causa, uma tiazinha no consultório onde abundam revistas Contigo (como se a galera do feijão-com-arroz não se estrepasse também - não têm overdose de tóchico mas têm de sogra, de cunhada, de fofoca de vizinha, de condomínio).
É... Deve haver algum padrão aí que não entendi, que bota Amy, Milli Vanilli, Fábio Júnior, Bello pagodeiro e demais cheiradores num mesmo patamar (pero fueda-ze o repertório).
Qual o problema se ela cheira até o fiofó cair da bunda? Por que isso é importante pra alguém além dela e dos íntimos? São da família, entendidos?
"Ah mas e a má infruênça?"
Ora, se alguém for estúpido de cheirar porque um artista qualquer o faz, tem mais é que morrer em prol da seleção natural.
UADEFÓQUI? Deixem-na morrer.

Amy Whinehouse fez uma escolha. Seguia um caminho medíocre, candidata a Shakira genérica, mas despirocou. Fez um puta disco. Só. Não é nossa parente, é uma cantora - falem da música, ou melhor, escutem.
Amy não faz marketing de biscate como as demais ninfetas descoloridas do showbizz nem atribui seu talento às drogas como fez Bob Marley num dia infeliz. Tá se lascando mas tá onde queria.
Não tô nem aí com isso, não sei nome de namorado, qual dente ela perdeu, mas... porra, mais fã eu do que esse bando de desocupados com diálogos patéticos sobre a vida alheia.

Por que tende tanto assunto?
Até imagino a resposta, mas dela também tento fugir.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

• 9 meses de incomensurável sucesso!

No próximo dia 15, vamos comemorar!
Este blog não teria conseguido sem vocês, leitores de UADERREL!





A todos, muito obrigado!

sábado, 6 de setembro de 2008

• Pérola do Dia

"Nossa consciência está em algum lugar entre o coccix e o períneo"

• Falha de Comunicação nº2

Já tratei desse tema tanto aqui quanto com alguns amigos...
Não sei se é uma limitação da palavra escrita, do meio ou o que for, mas... depois de tanto tempo trabalhando com comunicação, ainda fico surpreso...
A quantidade de mal entendidos que rola nos sites de redes sociais, MSNs, blogs e mesmo na imprensa é gigantesca. Além da importância óbvia, vale acrescentar que a molecada de hoje passa horas diárias na frente da net justamente nesses veículos (e não para estudar, como gostariam os otimistas - nem pra se masturbar, como pensariam os cínicos). Tá clara mais uma vez a nossa vocação pra comunicação, esse diferencial que nos levou ao que somos (para bem e para mal). A questão é: nunca se comunicou tanto sobre nada. Mas isso fica pra outro dia.
No momento o meu foco está na competência dessa fórmula de contato. As idéias, independente de seu conteúdo, vêm sendo transmitidas a contento? A infinidade de meios e quebra de fronteiras interferiu efetivamente no nosso entendimento mútuo?

Traduzindo: ainda falamos alho e entendem passaralho?

Num mundo construido, que depende de atos coordenados, eis mais um assunto entre as urgências prorrogadas. A primeira reação diante do problema da Interpretação de texto é pensar que o mundo tá fodido mesmo, tornou-se uma Babel de analfabetos funcionais, disléxicos, etc. Mas a gente sabe que não é bem assim.
A impressão que eu tenho (e o orkut me ajudou a formar essa visão) é que temos uma amplitude de sentimentos e idéias que as palavras simplesmente não abarcam, porque parte desses mesmos nós sequer temos consciência plena. Não à toa esses meios eletrônicos usam 'emoticons': as letras parecem não bastar.

Fulano diz 'casa' e vocês lêem 'casa', mas a Casa que imaginamos não é a mesma.

Que acentuação se usa para 'dar o tom'?
Esse é um desafio que até o García Márquez já confessou enfrentar.
Por outro lado... e quando se usa da ambiguidade, do cinismo e das entrelinhas? A subjetividade é praticamente a mesma da poesia, a interpretação é livre e depende de coisas que estão no limiar da comunicação (como o semblante) ou mesmo fogem desta (como o momento pessoal, intenções, conceitos prévios e associações).

Pra você, qual é o melhor meio de comunicação?
Sente-se plenamente capaz de manifestar-se, de ser compreendido e, principalmente, de compreender?

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

• Mal entendido

Não é que eu precise deles. Só quero estar sem precisar, entende?
Quero a troca, não preciso receber além.
Gosto do reconhecimento pela lealdade porque é raro. Porque é rara.
Desaguo palavras que ninguém quer ouvir, muitos talvez queiram dizer (mas não o fazem - ah, não o fazem), alguns compreendem e ninguém, ninguém quer arcar com as réplicas. E o faço por mim.
O direito às minhas contradições, tenho mas não usufruo... senão por acidente. Vem da 'condescendência' das pessoas, em doses variadas, dependentes de contexto. Desde que o que sou se encaixe em suas teorias.

***

Como profissional de comunicação, sinto-me falido. Incapaz de ultrapassar o metron da conveniência do ouvinte, debato-me entre explicações exaustivas, traduções paliativas e muito, muito cansaço. Não há palavras que saciem suas vontades. São seletivos: lêem, escutam e, principalmente, concluem apenas o que querem. Esse é o desafio, aceitar que muitas mãos escrevem sua história, que você trata como 'sua' por mero descuido.
Aceitar a presença de um mal entendido, talvez mantê-lo... será tão ruim?
Dessa vez vou tentar. Para ter paz, hoje digo o que não sinto: eles têm razão.

Satisfações a dar, temos todos.
Só não vale a pena.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

• Beijing Beijing... Xiao Xiao!

E as Olimpíadas (glória ao Pai!) enfim terminaram.
Não terei mais de ver "documentários" sobre a culinária, a tradição, a política, os estádios ou qualquer outra bizarrice correlata. Não, amiguinhos. Não terei mais minha TV Acabo-me tingida de vermelho sangue com estrelas amarelas, povo amarelo e sorrisos amarelos. Congestionada com infindáveis efeitos pirotécnicos (budista queimado também conta?), muito blush social, paetê arquitetônico e couro de feto feminino.
Deixo a China pra Nike, pra LG. Não estou interessado. Já sei o que preciso: pra concorrer com eles, os empresários daqui talvez topem a idéia de mão-de-obra infantil. Pra vender pra eles, estarão dispostos a vender da mamãe ao Lulu (se fosse o Santos, eu entregava de graça, mas não... falo do cão). Você já abriu uma nova termoelétrica a carvão esta semana? Azar seu. A China, já.
Isso tudo ativa meu espírito esportivo: maratonista da vida, já me vejo, faceiro e marotão, a fazer malabarismo e triplos-carpados mil para sobreviver ante à Nova Ordem Mundial. Pule, salte, dance, corra. Mas corra mesmo. Vai, Atlas!

Diria o filósofo:

"Ora, a Olimpíada nada tem com isso! É uma festa do esporte, da paz entre os povos, de valorização do ser humano! Além disso, fica evidente que nossos atletas não têm patrocínio e precisam do apoio do Governo e do Empresariado nacional para bla bla bla bla bla ploft pluft..."



Não entendam mal: apesar de cético, acredito no espírito olímpico. Só no espírito, aliás. Mesmo considerando que, fora os paulistas, brasileiro em geral deve achar que Olimpíada é praia, pois só pra vai lá pra pegar um bronze. Ah sim, eu acredito.
O que não acredito é que alguém seja capaz de conjugar estes valores todos, mesmo de brincadeirinha, com um país desses. É preciso um exercício de semântica que nem com Cledicard dá pra pagar, no?
Bem... numa coisa concordo com Tinky Winky: o fato é que os chineses se prepararam para estas olimpíadas por muito tempo.

Delegação chinesa tem dificuldade em fixar o alvoTiro esportivo, tradição nacional




Inovação no Atletismo: corrida com obstáculos

Não que a Inglaterra, os EUA e cenografias estatais do tipo tenham muita moral para celebrar a paz, mas... depois da China, melhor seria escolher a Ossétia do Sul.
Esta olimpíada terminou, mas deixou dúvidas.
Afinal... quem escolheu a China como país-sede? Quem escolheu o Windows pra controlar as projeções? Quem escolheu a Hedinanci pro feminino? Quem cortava o cabelo do Mao? Cachorro é bom com quetchup? Quem, o que, quando?



Tela azul do Windows durante a abertura dos Jogos
(Espero que essa mesma equipe não gerencie o arsenal nuclear)

São muitas as perguntas, sei lá. Assim como ainda não sei se tudo foi uma sucessão de erros ou um sucessão danado mas... como diria Donald Trump: "se lendeu Bilhõe$, estão de palabéns!"

P.S.: Quem quiser um post decente sobre o assunto, confira no blog da Mony.

domingo, 24 de agosto de 2008

• Da série "Oncotô? Poncovô?" - parte II

O Comitê Kaghanda/IBOPE
(Instituto de Bobagens e Picaretagens Encomendadas) pergunta:


"Seu oportunismo é de
Esquerda, Centro ou Direita?"




Por favor, aguarde!
Não forme opinião ainda!
Breve, divulgação do resultado que nos interessa.


reedição: 29/04/2008

sábado, 23 de agosto de 2008

• Enigmas da Humanidade - nº 1



O DIABO É O PAI DO ROQUE?

Escreva para a Redação de UADERREL.
Os melhores comentários serão postados na próxima edição!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

• "Tá faltando homem no mercado"? nº 2

Bom dia, queridas leitoras ranzinzas de UADERREL!
Agradeço grandemente pelos recalcinofolejantes e escalafobéticos comentários no post anterior! Isso, somado ao prazer de analisar o comportamento feminino geral com toda a moral que me é peculiar, obrigou-me a adiantar os posts que dão continuidade a este eletrizante tema.

Conforme prometido, hoje analisaremos um dos mais famosos subtópicos da sentença-título: "O Mercado".

Ignorando a estupidez do hábito moderno de usar o "economês" pra falar de sentimentos (e relevando o fato de que este texto não mudará nada na Guerra dos Sexos), vamos jogar dentro das regras: Se o seu empreendimento não tem dado certo, é chegada a hora de matricular-se no Sebrae do Amor de Mestre Kaghanda (primeiras dicas totalmente grátis - só paga o material didático) >>

O que é "o Mercado"?

a) um metrossexual esotérico?
b) um galpãozão perto de casa cheio de ítens fundamentais
como estacionamento com vagas amplas, liquidação de Suflair, Coca light e Dove com hidratante?
c) um ambiente de interesses movido por leis de aquisição e fornecimento?


Poizintão! O blog Uaderrel, este grande veículo de massa (Corcel II de funilaria é a putaquipariu) responde: no assunto em questão, podem ser todas as anteriores como N.D.A. Mas algumas coisas aí são básicas.
- Você quer "algo" e isso não virá de graça.
- Esse "algo" envolve custo e compensação (retorno).
- Na mais-valia desse escambo afetivo-sexual, a regra vale tanto pro "algo" quanto pra "alga" (você, nobre miguxa).

Visão Geral
Pra atrair consumidores é preciso focar no seu nicho, valorizar sua marca e ficar de olho nas concorrentes. Mas de nada adianta cuidar disso tudo e mal ter produto (se quer muito lucro sem ter o que negociar, abra uma franquia da Universal).
O jogo é movido pela Lei primordial, da qual trataremos hoje.

Já ouviram falar em Oferta e Procura?
Pois é, sejamos práticos: a menos que você seja a Angelina Jolie, não convém sonhar com o Brad Pitt. Ajuste seu desejo ao seu cacife ou aumente-o pra alcançar o seu sonho. Ranzinzar só serve pra afastar os que ainda não fugiram ("se ela tá reclamando que os outros não querem, melhor eu não arriscar também").
Aprimore-se: o dito 'muita areia pro caminhãozinho' é superestimado, mas lembre-se que pra sair da várzea e jogar no profissional é preciso melhorar seu passe.
Atenção! Nada de gastar só em marketing: é preciso investir em valor agregado. Propaganda enganosa é fatal na divulgação boca-a-boca. O design legal sempre ajuda, mas um dia sai de moda e se teu produto não for dos bons... o máximo que vão fazer enquanto tu se acaba é encher o vasilhame com outra coisa. Não 'se ache' simplesmente, confira sua cotação real no câmbio.
Agora responda:

  • Suas exigências são as mesmas desde quando tinha 14 anos?
  • São compatíveis com o que você oferece?
  • Como anda sua simpatia, seus talentos pessoais?
  • O que tem feito pra crescer (fora comer sorvete)?



Claro que Poliana poderia dizer: "Ah, mas e o altruismo, a abnegação? É tudo um jogo de interesses?"
À Poliana eu, triste e pesaroso, respondo: "Seu sonho de consumo é o Pedro de Lara? Não encha meu saco, porra".

Tomemos um exemplo:
mulheres chatas tendem a exigir um homem que as faça rir, como se testículos tivessem a propriedade magnífica de curar mau humor (embora eu concorde que alguns casos são justamente falta de... bem, dét zit, respeitemos a metáfora).
Afinal, por que os homens fariam isso?
O que motivaria um deles a preencher este ou qualquer outro requisito (em geral, centenas)?
Nem sua mãe tinha motivação suficiente pra satisfazer todas as suas vontades, muito menos você está afim de fazer o mesmo (por si e pelos outros).
O fato é que o copyright do Bozo sai caro. Claro que nenhuma das nobilíssimas leitoras desse blog jamais vestirá tal carapuça, mas aquela que não lê o blog deve compreender: um dia conhecerás todas as piadas dele; o que hoje é divertido amanhã chamarás "ridículo", e o que é popularidade nas festas tu chamarás "papelão". Isso não quer dizer muito: significa apenas que há coisas que simplesmente você não deve esperar de terceiros. O último homem a fazer milgare morreu na cruz (e, veja só, amava uma puta).
Talvez você descubra que aquele cara dos seus sonhos, 'difícil de encontrar' (eufemismo para "impossível"), encontrou alguém igualmente 'perfeito' - ou melhor ainda, simplesmente optou por um caminho feliz, sem economês nem mimo, onde requisitos idiotas não têm vez. Talvez, e só talvez, você perceba que se tivesse metade das qualidades que exige nos outros, possivelmente já estaria acompanhada - ou nem mesmo precisaria de um homem. A opção seria sua, independente de crises mercadológicas. Então, iluminada por este grande insight nada óbvio, caminhe para longe do exigir, ter e precisar, sob o risco de encontrar, veja só, um alguém para compartilhar.

Coisas assim valem a pena se perguntar e, se você ainda não entendeu... tenho a dizer que também acho absurdo que falte BMW Zero Km a 200 Reais no mercado.


Não precisam agradecer, amiguinhas!
Na próxima edição avaliaremos o famoso nicho de mercado!