sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

• J. sofre de verdade

É raro quando um drama alheio provoca empatia real sem ter muito a ver conosco, mas às vezes acontece. É público e notório que eu sou um ensimesmado insensível filho da puta que sempre estraga tudo com a melhor das intenções, mas dessa vez me tocou. Assim surge no blog mais uma dessas croniquinhas enormes e sérias que ninguém quer ler (considerem-se avisados, portanto não reclamem :D).

***

Hoje peguei-me pensando em J., que não vejo já tem um tempinho e que um dia decidiu contar-me suas intimidades. Honestamente, eu não faço idéia do porquê confiar justo em mim. Pode ser que seja a tal magia dos desconhecidos, quando fica mais fácil tocar em alguns assuntos com estranhos do que qualquer outra pessoa com algum nível de relação (ou pode ser a minha cara de padre que transmite a ilusão de caráter, sei lá hehehehe).
Seu nome surgiu de soslaio num papo sobre nada, fofocas esparsas da Rádio Peão. Ccomo era muito blablablá à toa, não demorou pra minha cuca mergulhar em si e passear por outros assuntos. Foi quando notícias sobre ela rebobinaram minha tão cansada fita da memória.
E lá fui eu.


<< Rwd
J. tinha um drama pessoal que não posso nomear com nenhum desses rótulos acadêmicos pseudo-psicológicos. Não dá pra dizer que é grande, que é concreto. Talvez dê até pra questionar se é importante. Pode-se também zombar, pode-se achar exagero; há subjetividade suficiente pra todas essas alternativas.
O problema é que J. sofre de verdade. Nos dois sentidos.
J. contou-me um dia, num exercício de conta-gotas, como sofria com a falta de bunda. Isso mesmo, falta de bunda. Assim, de repente, você pode achar que é alguma historinha fútil de uma magrela com baixa autoestima, mas vai além.
J. realmente quase não tinha bunda. Eu só não entendia o peso disso (ou da falta disso) na sua vida. Tá, ok, talvez você não vá virar o pescoço ao vê-la passar, mas e daí? Em termos cruéis, alguém pode até constatar que ali falta algo e logo mudar de assunto. Não creio que seja tema por mais que 30 segundos, certo?

Errado.
J. esteve em cada um dos 30 segundos alheios que passaram por ela ao longo da Vida. Com os olhos tristes e pesados do potencial que nunca se realiza, contou-me como se sentia por ser desbundada no país da mulher-melancia. Do quanto dói ser chamada de jacaré na pré-adolescência. Como é cruel o olhar frígido do galãzinho, aquele que ela queria. Do primeiro "na boa, não rola", cortante aos ouvidos e ao coração. Do quando se sentiria lisonjeada, grata, a mais feliz das rainhas, se recebesse metade dos olhares masculinos que alvejavam as amigas,ofendidíssimas, no ir e vir. De como cada comentário não dirigido a ela assim parecia quando se tratava do tema: "Ah bunda isso, bunda grande, bunda X, rabão, boa parideira, desbundada é u ó..." - tudo era com ela, falava dela e do seu teratoma: o ouvido captava, como um sensor seletivo. E logo ela murchava, em seu silêncio, enterrada nos óculos de aro fino que enxergam demais.
As pessoas nunca têm idéia do quanto suas palavras machucam. Nunca. Mas o pior para ela não eram as palavras cortantes, intencionais ou não: era a hemorragia de concordar, de ser lembrada de que sua mazela a impedia de encontrar prazer (não sei dizer em quais termos, mas pelo que entendia incomodava até mesmo fisicamente, no ato - não fui além da imaginação nem ousei perguntar).

Ter ou não ter, eis a questão da Nova Era. Ela sabia: todos têm pontos fracos e limitações a lidar. Todos se frustram ou falta-lhes algo. Mas para ela poderia faltar-lhe tudo, menos o instrumento de expressão de sua volúpia, de dar e receber prazer, tão importante pra si quando falar ou respirar. "Eu podia ser caolha, manca... era melhor!" - brincou, no único momento em que a vi sorrir além do social.

|| Pause
Já disse que ela é bonita? Toda miudinha. Uma gracinha. Eu pegaria facinho se estivesse solteiro.
Sim, eu notei, ela quase não tem bunda. E ela vê que a gente vê.

► Play
Nossa primeira conversa sobre o tema surgiu quando, no corredor, o macharedo falava sobre bundas (até então eu achava que podia ser pior porque ao menos não falávamos de futebol).
Ela passou por ali, parou, ouviu, bebeu outro copo d'água. Respirou dentro dele e mordeu o canto. Calou, respirou. Ensaiou e perguntou:
"Tá, e o que faz quem não tem bunda de Carla Perez? Se mata?"
Nessas horas ninguém sabe responder. Uns concordam com ela, uns dão uma risadinha, outros se calam. Os mais imbecis aproveitam o ensejo pra passar uma cantada (pouco esforçada, afinal ela não é gostosa mas pode render uma trepadinha). Já os medianamente sensíveis (que sempre se crêem mais do que são) não poupam o interlocutor e soltam aqueles axiomas de alento do tipo "ah mas quando alguém te ama isso não importa" (o equivalente eufemista do "o que importa é o prazer que proporciona").
Nessa hora vi nos olhos dela toda aquela raiva e furor que guardava sob a anca miúda. "Que amor? Eu quero trepar, ser cobiçada, me sentir sensual e atraente!". Sua boca nada disse, selou-se no plástico do copo branco. Mas seus olhos berraram palavra por palavra. E eu ouvi. E ela notou.

>> Fwd
Estava formado o link. Nosso segundo papo chegou no mesmo tema sem muita explicação. "Me dói isso" - começou assim, disparado.
J. sofria de Verdade, essa síndrome de enxergar as coisas como são, suas consequências e, ainda assim, dizê-las.
Meu desafio não foi encontrar alguma "palavra amiga" para vomitar, algum clichê sofisticado qualquer, que venha em drágeas analgésicas de 5 em 5 minutos. Foi não ser arrastado para seu turbilhão de sufocamento, vindo do mais profundo e cruel crítico de sua vida: seu próprio prisma. Também tenho minhas dores e o que ela dizia era o que não queremos ouvir de nossas bocas: que nossos limites, às vezes vencidos e outras vezes vencedores, estarão lá na próxima esquina até o último dia.

J. não sabia o que fazer. Queria dar prazer ao homem, fosse o escolhido, fosse qualquer um. Não queria a esmola daquele que a amasse apesar disso - era assim que via a situação, ser amada por alguém que "relevasse seu defeito".
Era isso: como ela poderia escolher, esbanjar sua lascívia mal contida? Teria de ficar com quem a aceitasse. Sem bunda ela não se sentia mulher, porque os homens gostam de bunda grande e pronto. Não sabia que alternativas teria: exercícios jamais funcionaram - a hereditariedade é poderosa e o melhor que conseguiu foi engordar por um período - menos a bunda. Tentou investir em outros atributos - e tinha bons - mas sentia sempre que essa compensação não adiantaria nada na hora em que seu homem quisesse uma bunda boa, polpuda e redondinha. Seria sempre a "desbundada mas gente fina, isso e aquilo".

As revistas femininas nunca ajudam nessa hora (aliás, algum dia ajudam?). J. disse que já pesquisou um sem número de sites sobre próteses de silicone, hormônios e seja lá que paliativos mais; Pensou em usar calcinha com enchimento. "Mas e aí? Quando eu tirasse...". Pensou em injetar gordura, mas não-sei-quem fez e o corpo reabsorveu; decorou os dados todos e sofreu, linha por linha, com as frases da medicina. Diziam nada poder fazer; que há picaretas no mercado; que o resultado final é artificial - mas ela só lia "esqueça, você vai morrer assim, incapaz".
J. sabia: o mundo é cruel e tudo o que ele quer de uma mulher é sua bunda. Era o que os homens (e mulheres - gladiadoras de vestiário) diziam entre si, entre risos, olhadas marotas, chupadas entre dentes e elogios, que podiam ser grosseiros ou não, mas sempre dirigidos a outras. Como não acreditar no que diziam?
"Eu não odeio os homens por isso, têm o direito de gostar de bunda grande. Eu é que não tenho o que dá prazer pra vocês".
J. diz que concorda com os homens.

|| Pause
J. sofre, de verdade. A dor do banal, a dor do pequeno, a dor de todos nós na sua própria escala.
Perdi contato com ela pouco depois disso. Passou um tempo até seu nome vir à tona.

► Play
Contaram-me ontem que J. tentou suicidar-se.
Esperou a família dormir. No celular constavam duas ou três ligações seguidas para o ex-namorado, que já era ex quando nos conhecemos. Circulou pela casa com as luzes apagadas e trancou-se no banheiro. Tentou cortar os pulsos e fez aquele malfeito, típico dos suicidas de primeira viagem.

▼ STOP
Tenho orgulho de J. pela capacidade de enxergar a crueldade do ser humano e das cobranças do mundo sem apegar-se a subterfúgios. Pela força de prorrogar o suicídio por tanto tempo. Pela incapacidade de conformar-se sem fazer nada. Pela coragem de confessar suas dores.
Apenas sinto, muito, que tenha tentado livrar-se de alguém tão rica.
Mas quem irá julgar? Cada calo só aperta no pé em que lateja e se há famintos na Somália isso não alivia suas próprias dores.

REC
Ela está internada e não corre mais risco de morte. Mas já morreu, trancafiada na exigência do mundo que turva a visão e mofa a alma. Resta romper, transformar, atravessar os traumas e descobrir o que pode fazer com o que tem - o único mérito real sobre algo que se herda. O resto é loteria e não há porque gabar-se.
Espero que ela ressucite e encontre o óbvio: que aquela bundinha miúda, de tão graciosa, só não é admirada porque turvados estamos todos.

J., você, que não me lê aqui mas ali me viu, boa sorte na sua nova Vida.

6 comentários:

Karin disse...

Não duvido que essa menina sofra. Só fico pensando se um dia ela vai entender que não é por causa da ausência de bunda. Esse é apenas um foco que ela encontrou pra suas mazelas. É fácil e terrível focar toda a atenção em algo que não se pode mudar.

Sinceramente, o que aconteceria se um dia ela acordasse e lá estivesse a bunda dos seus sonhos? Entre a perfeição e o remendo, se esse é um problema tão grande a ponto da vida não valer a pena, tasca o silicone e manda ver. Na hora de chamar de 'gostosa' o cara não tá precocupado se é de verdade ou não, ou não haveria a indústria do silicone. Mas isso não era o suficiente, era queria uma mudança de essência...

Espero que o susto leve essa menina pra um bom tratamento psicológico. O que ela tem não se resolve tão fácil...

웃 Mony 웃 disse...

Patroa é como homem chama mulher com quem tá casado há 25 anos. Pára de bestági, caraio! :p

AFe! Dá dó.
Que fique bem...

Mas tem algumas coisas que essa menina precisa entender antes que enlouqueça de vez, que, independente de bundagrande, pequena, média, seja lá como for, comer todo o que tiver oportunidade bem comeria. Veja-se o narrador e seu excesso de sinceridade.
Até pq, comer qualquer um come, dar, qualquer uma dá.
A questão é, há que se ter mais do que bunda para sustentar um relacionamento. Uma bunda magnífica é encantadora, tesuda até certo ponto, mas chega uma hora que empapuça se não tiver mais nada ali, dentro do tal corpo portador da bunda, que sustente uma relação pessoal. Ninguém vai passar a vida conversando com uma bunda.
E tá no caso do cara ficar com a bunda e procurar desesperadamente uma pessoa com quem possa conversar, falar de si, seus sentimentos, seus feitos, suas metas, falar o que der vontade. E aí, a bunda vai ficar chorando pelos cantos dizendo, "Oh! Ele me traiu!"?!
Tá ter bunda é bom, mas não ter não é o fim do mundo. E pra isso tem jeito sim, prótese de silicone resolve. Já pra alma não tem cirurgia plástica!
A outra coisa é, quando a gente é criança até se preocupar com o que os outros falam é natural... Mas, depois de adulto há a opção de "fechar as orelhas", não dar a menor bola. O que os outros sabem de vc? Como sabem o que se passa aí dentro? O quanto de bom tem a oferecer.
Olha, antes de reclamar, agradeça. Os que merecem pouco, que se pegam nesse tipo de bobagem, é bom mesmo que nem se aproximem. Pra quer perder tempo com gente vazia?
E outra, não é o que as pessoas falam o que machuica, pq por mais delicadas que sejam as palavras, quando elas tratam a respeito de uma encanação sua, parece que é o fim do mundo, é mexer em vespeiro, você certamente vai se ofender, afinal, aquele é seu clacanhar de aquiles. A gente ouve as coisas segundo o ponto de vista que está condicionado. Quem tem mania de perseguição se sente espionado sozinho, se passar uma mosca voando já acha que tem câmera e o escambau...
Mais uma, essa coisa não é tão assim não, é neura mesmo, não está todo mundo olhando. Uma vez passei quatro horas sentada ao lado de um homem que não tinha braço e nem reparei. Notei sim que ele tinha idéias muito boas, fazia perguntas bastante pertinentes, que mostrava ser inteligente, uma pessoa interessante com quem eu adoraria conversar mais. De certeza que teria um monte de coisas a aprender.
Acaso você se apresenta, sorri de frente e já fica de costas antes de iniciar uma conversa?!
Desculpe, eu sei que pra vc pode ser um sofrimento. Mas só é sofrimento pq enxerga a vida de forma trágica, pq vê as coisas como quer ver.
Nada é assim definitivo.
E mais outra ainda, pq será que há gente magra, gorda, branca, negra, japonesa, pequena, alta?!
Pq a beleza está na diferença, e para tudo o que existe há quem goste, pq a natureza é sábia e não gasta energia com o que não funciona.
Ah! E chega que eu já falei demais com alguém que nem vai ler o que escrevi...
Boa sorte. E acorda, pq se enquadrar no que todo mundo quer, se plastificar, se limitar, deixar de ser quem é só pra agradar o outro é a maior expressão de vontade de ser capacho. Se arrumar bunda é capaz de achar outro defeito pra continuar se sentindo inadequada e continuar capacho do mundo...
Afe! Páraaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!

De Marchi ॐ disse...

Sofre-se de verdade por problemas concretos ou não. Carrega-se este sofrimento em silêncio, eu, você, todo mundo. Às vezes superamos, às vezes Ele volta. E vivemos...

Num mundo que vive de vender o sonho da eterna ultrapssagem de desafios, como ficam aqueles cujos limites são intransponíveis?

Dores, temos todos. Mas sempre vale a pena olhar pela janela do umbigo e ver no outro algo mais que um espelho. E, vejam só... o resultado disso é um sorriso.

V.D.S. disse...

Confesso que não gosto muito de ler textos grandes em blogs. Mas li até o final. Adorei a narração, mas preferia que fosse só ficção.

Mariana disse...

Que pena que ela nao conseguiu se matar
Eu chamaria isso de seleção natural

Mario Ferrari disse...

PEDRA: AQUELA QUE QUEM TEM TETO DE VIDRO NÃO ATIRA!

um pensamento de:
ZÉ FARIA VITAL USO DA ROCHA

ou também oportuno...

OS ROTOS SEMPRE FALAM DOS RASGADOS...
Divagação de
Esgar Sadim Farroupilha Callado

palavras meteóricas a todos e muita rasgação de seda...