quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

• Um post de Natal diferente

Nada como uma boa ficção para o final de ano cheio de resoluções para o futuro.
Todos aqui sabem o que penso sobre o Natal, mas este é um post diferente.
Um pouquinho de amor pra adoçar os corações, com a promessa de um UADERREL mais simpático no ano que vem.


Do futuro que não vivi



"Hoje falei com o filho do meu irmão. Ele fez pirraça e xingou o pai com alguma daquelas palavras que tão habilmente escolhemos para ofender a quem amamos e, em nossos pequenos delitos cotidianos, abusamos por conhecer pontos fracos.
O garoto chilicou na cozinha, porque é isso o que garotos fazem, e perdi a paciência a qual nasci sem alguma. Chamei-lhe de canto em três passos: por favor, venha já e agarrado. No terceiro ele veio, lançando-me o mesmo olhar que seu pai usava para cravar-me na memória aquilo tudo que jamais ousei esquecer.
Contei ao menino bicudo e ensimesmado - que é o que os garotos fazem - sobre o quanto seu pai o amava. O quanto havia sofrido para que ele, garotinho bicudo e ensimesmado, fosse bicudo e ensimesmado. Que essa sua magnífica capacidade, sua soberba e sua pretensão iam muito além da vocação dos meninos: era hereditária, genética e, mais do que isso, era um direito.
Direito conquistado por aquele pai, que poupou-lhe da rotina de perdas e danos que afligem a milhões de vozes de todas as idades que, caladas, conformam-se com o destino. Destino reforjado e moldado por ele, o pai, que a custo de privações pessoais, medos e desafios, amenizou dores e amplificou doçuras.
Por amor. Por amor, aquele outro garoto raçudo e metido, cheio de sonhos e talentos, atleta, músico e colega carismático, optou por anular-se nas complexidades, sutilezas cruéis e mil relevâncias da vida adulta e tornou-se pai. Não como um fardo, prisma visto por egoístas e gente de fora como eu, mas como uma meta, um objetivo, um foco e, principalmente, um espasmo da alma, que não se explica por palavras mas transborda em atos do coração.
Não adiantava, no entanto, contar-lhe o quanto eu o amava como se fosse meu – ali eu era apenas um tio num contexto indesejável. Mostrei-lhe então em cada frase, com a clareza que jamais tive, o quanto eu amava e me orgulhava de seu pai. O quanto vi naquele outro garoto (que velho e careca continua meu moleque) tudo aquilo de melhor que jamais fui.
Ficou claro ao guri o quanto eu faria valer minha autoridade, de quem limpou muitas vezes a bunda do seu criador. E do quanto, na verdade, eu sabia que ele, meu sobrinho, amava o pai, mas perdia tempo com orgulhos idiotas e questões tão menores.
Mas escolher as palavras, como o garoto já descobriu, são difíceis nessas horas.
O menino dissolveu seu bico, que deu lugar ao olhar inquisitor que herdou do pai e que tantas vezes flagelou-me com perguntas duras de respostas óbvias que jamais aceitei. Olhava-me com reprovação, pelo meu excesso de zelo com algo tão banal (“eu só briguei com meu pai”), por intrometer-me (“você não é meu pai”), pela minha tomada de partido (“você não é um tio legal”) e por não ver o seu lado (“vocês são todos iguais”).
Foi quando endureci. Quando mostrei-lhe que nosso sangue é o mesmo, não importa qual porcentagem, e que também tenho melindres. Medi forças – porque é isso o que garotos fazem – e apontei-lhe que era por ele, e não por meu irmão, que eu dizia aquilo. Para que não perdesse o bonde do tempo nem deixasse de dizer o quanto ama sua família, que jamais se desse ao luxo de economizar gestos e palavras diante do amor, que jamais contasse com a eternidade do tempo como uma inesgotável poupança a qual se auferem lucros e jamais dividendos, que nunca contasse com o ‘subentendido’ e dependesse das bolas de cristal daqueles que precisam ouvir, de nossas bocas, aquilo que temos a dizer. Que não fizesse como eu, que dizia a ele tudo aquilo que eu não disse ao meu próprio irmão. Porque é isso o que garotos, perdidos e tolos, fazem.

Eu, tolo do mundo, que tanto deixei de dizer, ensinava ao garoto aquilo que não aprendi: que pais morrem, irmãos morrem e tudo vira lembrança, vaga e rala como leite C. Menos as saudades, e o arrependimento por ter construído menos delas do que se gostaria.
Eu, tolo do mundo, reconfortava-me com duas certezas: a de que meu sobrinho não me entendia, mas teria tempo e capacidade para o fazer um dia porque fora criado pelo meu irmão; e que me esqueceria rapidamente após minha morte, exceto talvez por isso. Porque eu, tardio, finalmente e só ali não fiz o que homens fazem.
E Falei:

Eu amo Renan.

3 comentários:

웃 Mony 웃 disse...

Mas que coração lindo em esse meu amor!
É lógico que não será esquecido facilmente, seu tonto! E trate de viver muito e com saúde... ;)
EU TE AMO!


Afe! Nem digo que me emocionei e pensei em tanto que queria dizer e não disse ao meu velho pai... E o que não queria ter dito tbm...


Beijo.

Mariana disse...

Afinal de contas, qual foi o babado que rolou na cozinha?

De Marchi ॐ disse...

Nenhum... é hipotético... hehehe