quarta-feira, 28 de maio de 2008

• Dignidade

Pois é. O que era pra ser uma festa em nome da tolerância e da diversidade virou uma quizumba pra adolescente emo encher o rabo de ecstasy e Jurupinga. Sempre gostei de pensar nos gays como mais um grupo de didadãos merecedores dos direitos dos demais, por definição e princípios. Foi isso o que aprendi com os muitos e excelentes seres humanos que conheci. Além disso, quebra de preconceitos e tabus é exercício obrigatório e legado de toda juventude que se preza.

Mas aí vai meu puxão de orelha:
Euforia não é alegria. A Parada Gay sempre passou longe de ser cisuda, e é pra ser assim mesmo. Mas porra... se pelo menos os trocentos assaltos que rolaram nesta última não foram culpas vossas, dá pra me explicar que diabos passou na cabeça dos infelizes que resolveram transformar a Paulista num vomitório, num prostíbulo, numa boca de drogas e num ringue de brigas?
Estive em três dessas passeatas, com mais de um milhão de pessoas e nenhuma, nenhuma briguinha sequer foi registrada. Era riso, alegria, cordialidade e respeito.
Nessa rolou porrada. Muita. Rolou trepada na rua. Não me venha com merda de "ai ti exageru di papinhu conservador, mona"; meter na frente de criança é mau pacas (crianças de colo, filhas daqueles adultos que foram lá se divertir e caminhar com vocês em apoio à causa, que levaram seus filhos pra aprender desde bem cedo o caminho da convivência - convivência que alguns macularam com seus excessos).
Homossexualidade não é vício, mas é assim que muita gente vai encarar a falta de tato. Que belo andar pra trás, hein?

Ora, vão à merda. Arruaceiro, homo ou hétero, tem mais é de ficar no gueto. Não tem a ver com sexualidade e sim com educação e civilidade, mas a festa era gay, perceberam a associação? Pelo jeito, não. Mas podem crer que seus algozes sim e não vão hesitar em usar contra vocês.
Os homossexuais na história sempre primaram pela liberdade, não pela libertinagem. Sempre gozaram de elegância - sabiam da importância de se buscar com sensibilidade, de ultrapassar os impulsos reaças da sociedade com estilo. Moeda de troca: respeito com respeito. Essa molecagem aí... sinto muito, não houve orgulho gay porra nenhuma, é ravezinha vagabunda pra aborrescente idiota, pra Prefeitura fazer seu jabazinho, pra gringo gastar el dinherito enquanto solta la franguita.
Não teve NADA a ver com a busca por respeito, igualdade e aceitação. Pelo contrário. Aquela festa de cores, música, de sorrisos e tolerância... virou barraco, arquibancada de futebol de várzea. Cadê aquela emoção de ver o casalzinho homo finalmente de mãos dadas, caminhando juntos, dançando, beijando e rindo com amigos de todas as escolhas? Ofuscada pela ignorância.
Espero que os gays dignos (são muitos) tenham o senso de separar o joio do trigo - não como um novo appartheid (a luta é justamente contra esse tipo de coisa) mas com a elegância de dizer "ei, aqui o objetivo é outro". Não tenham medo de parecer castradores, tolerar não é ser impassível. Espero que na próxima não se perca o foco.


Aos retardados, se souberem ler, uma sugestão: façam a Parada do Orgulho Imbecil, do Orgulho inconsequënte, do Orgulho Junkie, do Orgulho violento, do Orgulho Hiena que come bosta mas vive rindo. Só não usem como pretexto uma opção sexual que já tem inimigos demais - isso vai além, muito além das vossas mesquinharias pessoais. Muita gente lutou pra valer e morreu, das doenças do sangue e do ódio, para que agora milharezinhos de babacas pseudoliberais venham boicotar e cagar na batalha pela dignidade. Não desandem a meta nem transformem esse exercício político (sim, alegre, mas bem político) numa Micareta mal fadada, num Balbúrdiafolia, num mero Carnagay. Essa palhaçada não vale um Rimbaud, um Cazuza, um Oscar Wilde, um Ney Matogrosso. Não vale o AMOR livre que é o motivo maior da passeata.

Aos imbecis ativos e passivos que estragaram a festa, minha tristeza de não poder mandá-los tomar onde dizem gostar, apenas pra aparecer e não porque sabem o que querem ou quem são. Você, que adora o estigma porque "é fashion, é diferenciado e choca", limite-se à vossa incapacidade de destacar-se por algo mais que não o uso dos genitais. Hoje, muita gente digna que sofre com os dedos que apontam, com os comentários maldosos e com a repreensão injusta, sofrerão mais um pouquinho. Eu posso beijar minha amada numa padaria e eles, infelizmente não. Agora talvez demore mais um pouco até que esse dia chegue. Agradeço em nome deles, que se calaram pelo cansaço de serem postos no mesmo balaio que os montes de merda aos quais dirijo-me.
Parabéns por piorarem a situação, por alimentarem a incompreensão dos demais, por associarem uma imagem irresponsável ao que sempre foi, antes de tudo, um ato ético e civilizado.
Estúpidos. Vocês não valem o esforço.


Ninguém respeita quem não se respeita.

10 comentários:

Walter disse...

Poizintão...
Lá nas Balzacas eu já havia me referido à isso. Essa tal "militância gay" é de uma estupidez tão grande quanto seria uma "militância hétero".
É a esses excessos a que me referi num determinado tópico (beijo gay na tv, se não me engano) - cria-se uma oportunidade mas aí arromba-se a porteira. Não há bom-senso, não há limite, não há respeito. Ainda citei o respeito que tenho por pessoas como o Ney Matogrosso, que se dá ao respeito, que não precisa levantar bandeiras para que seja ele mesmo, sem que precise esfregar na cara das pessoas a sua orientação e nem dar amostras grátis em público do que gosta entre quatro paredes.
Um evento lamentável e que em nada edifica, nem ao público e nem à cidade.
Antes de se posicionar como homo ou hétero e, ainda mais, querer bradar isso aos quatro ventos, que tenham um mínimo de educação, de compostura, de respeito pelo próximo.

웃 Mony 웃 disse...

Afe! Deprimi!
Assaltos acontecem em locais onde há uma grande concentração de pessoas, infelizmente. Isso é bastante previsível, apesar de não deixar de ser ruim. Até aí, o evento é amplamente anunciado, então, creio que pessoas com esse intuito saiam de casa só pra cometer esses crimes. Pessoas que não são as que foram lá pra manifestarem suaadesão na causa da igualdade de cidadania e direitos sociais que merecem todos independente de orientação sexual.Essa é uma questão de segurança pública.
Agora, tod o restante do relato me fez ver a festa como um circo de horrores e não era essa a minha visão, uma vez que já participei não só uma vez, e o ambiente sempre foi saudável.
Muito deprimente e um retrocesso para quem tanto batalhou pra fazer com que gay não fosse sinoônimo de promiscuidade, depravação e outros adjetivos pejorativos. Por conta de alguns imbecis, todos acabam levando a fama.
Muito triste, tomara ano que vem haja um controle maior, com a atenção inclusive das instituições sérias que presidem e organizam o evento. Ou é isso, ou é a decadência não só da festa, mas, de todo um esforço e da conquista que já havia sido feita...

Karin disse...

Controle só é preciso na ausência de consciência e respeito. E essa tem sido uma falha geral do ser humano, não apenas de uma facção.

Um dia talvez seja diferente.

De Marchi ॐ disse...

Fui atrás de mais informações e infelizmente não estou errado: não foi "meia-dúzia de heteros" que entrou em briga, como disseram alguns dos organizadores. Foi gente que, seja qual for a opção, jamais deveria estar numa passeata pacífica. Mais uma prova da igualdade: hetero ou homo, babaca é sempre BABACA. Esses, não sinto a mínima obrigação em tolerar.
Espero (por pura esperança) que não tentem estragar NOSSA festa que é motivada pela justiça da igualdade e cidadania (e não por uma oportunidadezinha de trepar cheirado na Avenida e chocar pelo prazer de agredir).

웃 Mony 웃 disse...

Pois é, Karin, a questão é bem essa, o ser humano, a grande maioria, afinal, existem pessoas equilibradas no planeta, ainda que poucas, ainda não sabe lidar com a liberdade... E a inda não tem consciência nem individual, tanto menos a coletiva. E respeito? Afe! Respeito é artigo de luxo, tanto o auto quanto o coletivo.
Quem sabe um dia o ser humano sai da infãncia tardia em que se encontra...

brunomaiasouto disse...

Eu diria que os gays levaram o conselho do Abujamra ao pé da letra:

Subiram ao patíbulo e enforcaram-se na corda da liberdade.

웃 Mony 웃 disse...

Esqueci de dizer, adorei a parte de "beijar sua amada"... :D
Beija muito que eu gosto! :P

웃 Mony 웃 disse...

O problema é que uns poucos subiram e todos se enforcaram... :(

Anônimo disse...

como sempre a culpa é dos aperitivo mano. he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he

Anônimo disse...

pau no cu desses... deixa pra lá