sábado, 10 de maio de 2008

• Enganos e vaidades

Surpreendo-me com os tropeços do dia-a-dia. As nuances com as quais lidamos nesse jogo de tatear pelo escuro são riquezas e, ao mesmo tempo, ardis.

Peguei-me numa situação inusitada e corriqueira ultimamente: alguns conhecidos acreditam que sou jornalista de formação.
Não sou.

Nunca soube ao certo o porquê dessa recorrência. No início pensei tratar-se de um engano, lógica leiga ou algo do tipo: como trabalho na redação do jornal e alguns (pasmem!) acham que escrevo legalzinho... pumba, uniu-se A com B.
A confusão persistiu outras vezes e terminei por considerar que fosse apenas desconhecimento; só quem tem algum contato com a área sabe que uma Redação é multiplataforma.
Sem falar nos técnicos e revisores (fundamentais), há os produtores de conteúdo, que assinam os trabalhos: o repórter redator, o repórter fotográfico, o repórter gráfico (ou infográfico), o Ilustrador, o Diagramador (e/ou paginador)... e todos são Jornalistas. Todos têm o mesmo piso salarial, recebem o mesmo Mtb (o registro profissional), estão sobre o mesmo Sindicato, a mesma regulamentação, profissionais de Imprensa em pé de igualdade. Todos necessitam de conhecimentos específicos e, no mínimo, noções gerais da matéria acadêmica Jornalismo, aquela que até o momento é pré-requisito apenas para quem escreve*.

*Aliás, eis uma polêmica pra outro post: não é imprescindível. Apesar do lobby, caiu a Lei provisória que exigia nível superior para a profissão de Jornalista - por isso, para bem e para mal, você vê de tudo a escrever por aí (dos velhos bambas sem formação há trinta anos no exercício ao Mainardi -- o que me faz pensar se a Lei abrange todos os primatas).


***

Isso dito, parece definitivo. Mas... será?
Será que, por algum movimento ou omissão, "deixei de esclarecer"?
Será que, por alguma vaidade ou carência, não alimentei o engano?
Se por um lado sei que o diploma de jornalismo anda mais desvalorizado que CPI, que a maioria das faculdades é uma piada de péssimo gosto e que, em última análise, não se ensina ninguém a escrever bem (no máximo, lapida-se a técnica e a visão analítica)... por algum acaso guardo algum apetite pelo 'status' que o jornalista, apesar de tudo, possui no país?
Influência da TV? Dos heróis do gibi?

Achei que não iludia-me com isso. Nunca tive motivos, cria eu. Sempre fui apaixonado pela comunicação e já quis estudar Jornalismo academicamente, idéia que não resistiu à realidade: o que presencio nos estagiários que vêm e vão, o que dizem os companheiros, editores, a Diretora de Redação e mesmo o Mercado, quatro anos e muito dinheiro para ganhar o mesmíssimo salário... em suma, uma enxurrada de pequenos fatos. Todo semestre assisto à chegada de garotos com canudos na mão e nenhuma noção do que é New Journalism, do que é apuração, posicionamento, do que rende notícia - conheço o lado de cá do que se vê nas páginas por aí, onde fica o útero dos clichês, as dificuldades inerentes, a submissão aos anúncios e políticas. Há algo ali que inconscientemente eu inveje?
Nesses dez anos dentro das Redações (12 na área de comunicação) passei pelo Diário, passei pelo Grupo Folha, circulei por agências e editoras, voltei ao Diário - participei dessa grande e abstrata família pulverizada pelas Redações paulistas. Naturalmente, boa parte dos meus amigos é jornalista de formação. Talvez peguei seus cacoetes? Provavelmente, mas ainda me assusta o possível indício que isso traz: eu deveria ter mais orgulho das minhas funções de ilustrador e infografista (designer é a putaquelosparió), daquilo que faço.
Sim, já escrevi esporadicamente matérias assinadas, já cavei muitas pautas, diariamente tenho de pesquisar e criar conteúdo. Mas comunico-me na maior parte do tempo por imagens - comigo a palavra é o complemento. Até meu texto tem apelo gráfico e não hesito em usar caracteres por pura estética. Noticio, informo, explico, traduzo, poetizo, critico e conto histórias pelo traço, pela imagem. Sou um Comunicador Visual. Profissional de Criação.
Há alguma desvalorização em jogo? Isso de algum modo relaciona-se com aquela velha discussão?

Gosto de comunicar-me também pelas palavras - o hábito cresceu durante a adolescência, quase a ponto de ofuscar minhas artes nativas (desenho, pintura e modelagem). Tenho minha meia-dúzia de contos inacabados e uma pá de poesias de gaveta. Já passei há tempos da fase de encantar-me com os meus próprios discursos - fato que faz-me irritado com a natureza monológica dos blogs - gosto da interação, da conversa, do tráfego. Se faço bem algo disso tudo, o reconhecimento é automático. Por isso sempre acreditei que nas minhas ambições fosse maior o impulso do poeta, o desejo pelo aplauso à arte, do que qualquer suposto glamour da profissão.
E, novamente, não encontro motivos.


O que explicaria a recorrência de enganos?


Cartas à Redação.

7 comentários:

Karin disse...

Mas que excelente tópico pra uma sessão de terapia de mesa de bar! :D

Uma coisa me chamou a atenção, porque bate com algo que eu tenho considerado ultimamente no meu próprio trabalho. O que leva alguém a procurar por um curso superior? Quando se tem 17 anos de idade e se tem condições/papai pra isso, é fácil. É praticamente uma continuação natural do que se fez a vida inteira. Com vocações distintas ou não, espera-se que o recém ex-pirralho consiga um diploma em alguma coisa. O próprio sujeito espera isso de si mesmo. Claro que alguns têm expectativas melhor definidas com relação a futura profissão, mas a maioria não faz a mais pálida idéia do porque está ali.

Quando se quebra essa seqüência, é preciso haver um motivo a mais para a volta. Já não é mais fazer o que sempre se fez. De certa forma, eu preferiria que as pessoas pudessem mesmo escolher isso mais tarde, evitaria um monte de desilusões. Mas queremos tudo rápido, o mais condensado e evoluído no menor espaço de tempo (im)possível, então vá lá...

O ponto todo é, depois que se sai do automático e que se entra em algum tipo de mercado de trabalho, a opção de ter um diploma e/ou uma profissão de nível superior regulamentada é diferente. A visão do trabalho que se faz ou se quer fazer é forçosamente diferente.

Eu não julgaria um curso acadêmico por seus egressos, com seus diplomas tão frescos que se passar o dedo em cima ainda borram. Eles refletem o conteúdo do curso apenas em parte e superficialmente, não têm como apresentar qualquer tipo de maturidade profissional. Seria mais negócio procurar os próprios acadêmicos ou saber da instituição de interesse o que ela pode oferecer, desde que se consiga uma informação correta e desprovida de marketing.

Mas a pergunta permanece, agora direcionada a ti: se tens mesmo algum interesse em qualquer área de formação acadêmica, seja na área das palavras ou das imagens, que interesse é esse? Obtenção de um diploma regulamentado para poder exercer alguma função que não te seja possível no momento? Obtenção de algum tipo de formação ou conhecimento diferenciado? O que vc espera de um curso superior, ou de qualquer outro que possa te trazer algum desenvolvimento profissional?

Eu sinceramente não acho que vc tenha deixado de ser claro quanto à tua não formação por qualquer interesse subjacente. Se tivéssemos que sair declarando tudo o que não somos o tempo todo não faríamos outra coisa, oras... O que vejo, sim, é a potencialidade de algo muito legal, não um suposto extravasamento do ego. Me interessa muito mais saber o que vc pretende fazer com essa onda criativa que transborda por todos os lados e que talvez pudesse mover uma usina a teu favor. Em todos os casos, ninguém além de vc mesmo pode dizer o que vc realmente quer colocar pra rodar na tua vida profissional.

(mas quanto blablablá pra fazer uma simples pergunta... :P)

Beijão!

Gurijuba disse...

Denuxo, para às favas com a obrigatoriedade da titulação, não compactuo com mais essa farsa capitalista, forma contemporânea de exclusão, forjada pela elite e jamais contestada pela intelectualidade permissiva. Forma impositiva que aparta aqueles que possuem dons naturais, primando pelos profissionais direcionados, catequizados e condicionados nas salas acadêmicas.
E tenho dito!(falei bonito, heim!) kkkkkkk

Anônimo disse...

quer diser que ser jornalero ta no sangue mano? deusme livre eu pressisar duma tramsfusao. he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he he

Kamilah disse...

eu já sabia q o dênis era dançarino de ballet, me confessou por depoimento ultra mega secreto miguxo cor-de-rosa

De Marchi ॐ disse...

Karin, por que você não posta isso no seu blog também? É um ótimo texto. Eu também me pergunto isso tudo, principalmente sobre essa cobrança so adolescente decidir qual será a profissão do resto da sua vida quando mal sabe ainda por onde goza.
É algo cruel, mesmo quando se tem uma vocação pra diminuir o leque.

Luiz Rogério disse...

Pegando carona com a Karin...
Uma das coisas que eu nunca me conformei é qualificar a pessoa pela profissão: fulano é jornalista, sicrano é professor, beltrano é “empresário” (esse é ótimo pra quem não faz nada...)... Abra um jornal ou veja uma entrevista e está lá: nome, embaixo profissão...
Cria-se uma imagem da pessoa, sem ter noção do que ela é, e sim do que ela aparenta ser... A Karin é cientista, portanto é lógica, sem emoções, não tem religião. O Luiz é juiz, portanto é um cara muito sério, não se pode brincar perto dele... e por aí vai....
Formação profissional é necessária em algumas áreas. Por exemplo, não dá pra imaginar um médico ou engenheiro que não tenha o MÍNIMO de conhecimento técnico. Já na área de comunicação, acho ridículo se exigir um pedaço de papel de jornalistas, desenhistas, atores, diretores, etc. Pode-se ensinar algumas técnicas, mas a criatividade é algo muito mais importante.
Eu me junto aos que te achavam jornalista, caindo no mesmo raciocínio simplista que vc fez (trabalha no jornal + escreve bem). Mas também acho que você pensa direito, tem uma puta criatividade e se pudesse utilizar isso para formar mais opiniões por aí, faria um bem danado...

luiz rogério disse...

cadê o autor???? depois reclama que ninguém comenta... rsrsrs