quinta-feira, 20 de março de 2008

• Ensina-me a hora de deixar ir

Um dia fiz uma troca com a tesuda e boêmia Mamãe do Céu (que Deus a conserve gostosa como sempre): Troquei a boca da alma por um amor.

Eu sei, vai dizer que é tolice.
Jura? Não me interrompa, caraio.

Uatéver, assinei o contrato. Evoquei, disquei 9 para a opção desejada, teclei estrela pra falar com uma de Suas atendentes, aguardei na linha e formalizei o pacto. Diria Toquinho: um pinguinho de sangue caiu num pedacinho azul do papel, e num instante desci lindo e gaivoto pro inferno, de rappel.

Não sei se há alguma proteção jurídica nesses casos que impeça, em fórum apropriado e na devida comarca, que garotos estúpidos exerçam sua vocação. Eniuêi, assim fiz e pumba, a pilantrinha sorriu-me todos os dentes, enrolou o pergaminho e falou:
"Fio, sei lá que puêrra vou fazer com isso, mas como tô entediada, verei de novo esse filme".

Talvez tenha sido a novela do Manoel Carlos no Vale a Pena Ver de Novo, ou talvez Cérbero tenha comido novamente a Veja que o puto do Mercúrio sempre joga no chão da garagem, quiçá um Dejavu (que, você sabe, é apenas uma falha na Matrix); o ponto é que Ela prestou uma baita atenção no meu repertório.
Como eu sei disso? Cazzo, você faz muita pergunta pra alguém que nem posta nos comentários, hein?
Sabe o acaso, aquela coisa sem sentido que pinta por aí? Então. Quanto mais acaso, mais material pra você imaginar aquelas incríveis coincidências escritas nas estrelas. E ela, te digo, vomitou 30 arrobas de acaso ao dia.
O fato, cético e asséptico, é que forcei a minha cota de permissividade para além do acaso. "Déti zíti", como dizem os Homens-aveia: empenhei minha arte num mal negócio.

A gente faz dessas todo o tempo, é o tal risco de mercado (já que tá na moda usar economês até pra falar de sentimentos, bote-lo-emos juntamente do pé en la jaca). Você investe, avalia, arrisca e, vez por outra, ganha uns caramingüás ou descobre um novo rombo na sua poupança.

Conclusão(?): o mal negócio foi só isso mesmo e não me arrependo, dá até pra dizer que foi bom. Mas, imprestável e canalha como eu só, ando muito afim de rasgar o contrato. Eu sei que recebi o que pedi e o problema é só meu se não reparei que tinha pentelho nesse sabonete. Mas mesmo assim, não consigo deixar de lembrar das palavras da Boazuda me dizendo "o que que eu vou fazer com isso?".
Então, se Ela levou minha Arte só porque era o que eu tinha pra oferecer, será que não dá pra devolver?
Ao menos, emprestar.

Se bobear até empenho outra coisa, qualquer coisa.



Brincadeirinhaaaa hehehehe...

***

Sinto falta, muita falta da Arte. O que antes fluia até com exagero hoje parece-me um espasmo, um espectro qualquer destituido do sobrenatural. Dá pra imaginar um fantasma banal? Então.
Claro, a Voz encontra um meio de expor-se. Se for preciso trocar o veículo ela troca, não tem medo de metrô, trólebus nem tonquinha Bandeirante. Hoje eu falo a língua dos estrangeiros como se fosse minha. Mas sinto falta daquele meu sotaque, daquele sibilar labial tão típico de mim mesmo e que um dia cheguei a pensar que jamais perderia, posto que Eu mais do que meu. Uma arte natural confunde-se com o seu portador, mais ainda se precoce.

Meus otimistas acompanhantes de jornada sugerem que é apenas falta de treino - "é como andar de bicicleta": se voltar a pegar no lápis, a mão se lembra. Obrigado, Teletubbies tão amados, mas o cu da cascavel é mais pra perto do chocalho.
Num momento eu desenhava compulsivamente, 3, 4 vezes ao dia. No outro, parei, e parei pra valer. Anos. Um rompimento assim, seja qual for o motivo, tem seqüelas e entrelinhas que não dá pra ignorar com uma sentada no selim.
Por maior que fosse meu medo, nesses anos 'peguei no lápis' várias vezes, com mais carinho e zelo do que masturbação de pré-adolescente. É, hoje, para além da mão destreinada. O pânico não vem do tentar, vem do não sentir. Nunca precisei perguntar-me o que iria desenhar. Nenhum papel nunca esteve em branco até então, jorrava antes mesmo de ser posto na mesa. O ranger da ferrugem das veias e nervos é sintoma; a causa está lá, no grito oco da caixa-d'água.
Achei que tinha desapaixonado-me pela Vida, que só isso explicaria o sumiço da Arte. Mas, passada a amargura das desilusões, descobri-me na mesma volúpia pela existência que antes sentia. Aliás, minto, bem maior.

Mas ela não voltou. Jamais voltou.
Dá pra entender por que ainda espero?

6 comentários:

Vinícius Castelli disse...

Não sentir é como passar a vida em branco.
Se for para tentar, é para fazer acontecer.

Uma vez um amigo querido disse: "Tudo vai dar certo para quem faz acontecer." :)

Karin disse...

Duvido que vc seja o mesmo de antes... por que esperar que a forma de expressão da sua arte continue igual? (e como é fácil dar pitaco na vida dos outros...)

De Marchi ॐ disse...

A merda é que faz uma falta... :(

Anônimo disse...

Ki tau
tentar com a linguagem corporau?
Se a alma nao fala, da sinais....

Anônimo disse...

língua é importante para expressar o que você sente no seu loveones Anable seu / sua para você atherstand

Anônimo disse...

língua é importante para expressar o que você sente no seu loveones Anable seu / sua para você atherstand

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