terça-feira, 1 de setembro de 2015
domingo, 21 de abril de 2013
A Verdadeira História por Trás da Moderação do Facebook e suas Denúncias Mesquinhas
Traduzido por Bianca Silva, o texto pode ajudar a refletir sobre as circunstâncias que antecedem o 'compartilhar' nas redes sociais e a maturidade de nossas reações ao que nos 'ofende'.
Lembrando que você tem o direito de sentir-se ofendido. O que não tem é o direito de não ser ofendido, por antecipação. Não há intocáveis no mundo e nossas noções narcisistas pouco importam pro Universo. Lidemos com isso.
"Imagine ir trabalhar todos os dias e no começo de seu dia, com sua primeira xícara de café, sentar-se para ver decapitações, crianças prestes a serem estupradas, corpos humanos em vários estágios de decomposição, os resultados vivos e mortos da violência doméstica, corpos de meninos de 10 anos enforcados acusados de serem gays, filmagens de assassinatos reais e rinhas sangrentas de cachorros e seus resultados subsequentes. Você consegue imaginar o horror humano? Eu provavelmente já o vi, ou uma foto, ou um vídeo de algo muito parecido. Posso dizer que algumas das pessoas que trabalham ao meu redor não passam muito bem. Frequentemente elas acabam sofrendo com uma enxurrada infinita de horror que testemunham de 8 a 12 horas por dia. Eu disse que “a maioria” dessas pessoas ganha por volta de um dólar para realizar esse trabalho? É verdade. Mas eu não. Eu sou um americano que exige seus direitos e tal, então, ganho aproximadamente $29 por hora a mais que elas. Tecnicamente, eu não preciso fazer nada além de garantir que estejam clicando nos botões na ordem correta. Não preciso olhar as imagens, mas a maior parte do tempo meu foco em manter-me livre de vieses em face disso me leva a fazê-lo assim mesmo.
Não é só Sangue e Entranhas, às Vezes é Pior
Nem todas as informações a que os moderadores do Facebook são expostos são tão terríveis quanto os resultados acima mostram, algumas são piores. O terror nessas é que são os chamados daqueles de quem os horrores privados, abuso ou assassinato estão em andamento. Verdadeiros gritos de socorro chegam de usuários do Facebook todos os dias, o dia inteiro. Os moderadores da rede social passam boa parte de cada dia de trabalho encaminhando “atos em andamento” às autoridades dos locais onde se encontram essas contas. Quando essas contas são legítimas (não contas-fantasma ou proxies) as denúncias podem e de fato salvam as vidas das pessoas. Essa provavelmente é a razão número um por que muitos traumatizados com os horrores visuais ainda seguem em frente.
Mas você ainda está chateado com quem possa tê-lo banido uma vez? Tente entender que a maioria dos banimentos é feita por um algoritmo automático, e apenas um pequeno percentual passa pelas mãos de uma pessoa. Por quê? Enquanto o Facebook declara ter 1,5 bilhões de usuários este ano, o dado impressionante é que ele possui 1,2 bilhões de usuários ativos que acessam sua conta quase que diariamente. Cada uma dessas pessoas tem um nível diferente do que as ofende.
Considerando tudo isso, eu gostaria de dizer a você o que me ofende. Me ofende que quase 80% das denúncias manuais que tenho que ler são de pessoas que se sentem ofendidas com alguma coisa. Uma lista recente de ofensas inclui (traduzida a partir das pobres desculpas pela gramática e ortografia com as quais a maioria vem):
- “Eu não acredito nessa moeda. Vai contra o que eu acredito.”
- “Esse peixe não parece um peixe, parece as partes íntimas de um homem, e eu tenho crianças pequenas por perto durante o dia.”
- “Eu vi isso no meu feed e não o aprovo, por favor, remova-o.”
- Essa página compartilhou minha foto sem crédito ou permissão.”
- “Você pode remover esta foto? Eu não gosto dela.”
- “Isso não é verdade, meu Deus jamais deixaria isso acontecer.”
Agora, você me perdoando ou não, eu posso garantir que isso é verdade. Face aos verdadeiros problemas que chegam a uma taxa de 250 mil por hora, eu cago e ando se moedas o ofendem ou se você não consegue sair do Facebook enquanto está tomando conta dos filhos do vizinho. O que me importa, que realmente me ofende mesmo, é o fato de que após cinco horas lendo seus mimimis descobri a garotinha de sete anos, muito assustada para contar a uma autoridade, que descobriu como denunciar uma foto dela que seu tio postou, foto que era gritantemente, claramente sexual, e pediu ajuda. “Ele disse que chegará às 2h. Você pode me ajudar, por favor? Eu não sei o que fazer.”
Se você acha que seus maiores problemas no Facebook são fotos ou status que o ofendem, não tem ideia de quantas vezes eu tenho vontade de excluir sua conta.
Graças às suas sensíveis suscetibilidades, eu não li a denúncia dela até que já fossem 5h. Quatro horas atrás eu poderia ter impedido um de seus estupros. Daqui a quatro horas eu provavelmente estarei chorando até pegar no sono porque não o fiz. Graças, novamente, às pessoas que deveriam ficar longe da internet. Por que a denúncia dela não chegou mais rápido? Porque ela tem sete anos, ela denunciou a foto como uma ofensa menor, que, se denunciada apropriadamente, teria furado a fila de denúncias, passando na frente de seus mimimis de injustiça visual. Aquelas coisas feias que estão no topo da fila toda manhã.
Supere seu narcisismo. Seus motivos desprezíveis por trás dessas denúncias de merdas não só são ofensivos como danosos em muitos casos. Quando eu era criança, nós não tínhamos uma maneira de nos comunicar instantaneamente com pessoas do mundo inteiro. Não tínhamos um amigo do outro lado do mundo que se importasse o suficiente para chamar a polícia por nós quando estivéssemos em perigo. Ainda assim, muitos de vocês se dedicam a deformar as potencialidades de uma rede social com um chororô tal que nem mais de 100 mil pessoas trabalhando de oito a doze horas por dia conseguem dar conta. A tecnologia deu a vocês um palco aberto diante do mundo, e alguns o têm usado como um pombo cagando num tabuleiro de xadrez. Vocês deveriam se envergonhar, mas, como um de seus moderadores, vejo claramente que não se envergonham.
Antes de terminar, eu quero compartilhar algumas das perguntas mais frequentes:
“Alguém pode ler minhas mensagens privadas?” Sim. “Mesmo aquelas fotos que eu...?” Sim.
Contudo, ninguém fica fuçando as mensagens privadas de sua conta. As únicas vezes em que elas são observadas por qualquer razão é quando o ID de uma conta aparece repetidamente em denúncias que falam de assédio ou outras questões que exigiriam um maior aprofundamento para se chegar à verdade antes de banir ou chamar a polícia. É uma exigência a que vocês deveriam ser gratos, acredite. Se não o fizéssemos, metade de vocês estaria na prisão agora.
“Por que o Facebook nunca respondeu à minha denúncia ou pedido de banimento?”
Eu vou ser curto e grosso aqui. Sistema sobrecarregado, o algoritmo automático ignorou você. OU, cagaram e andaram para sua questão se ela passou pelas mãos de alguém.
“O Facebook pelo menos vê os apelos ou e-mails enviados sobre minha página ou questões pessoais?”
Curto e grosso de novo: não. O Facebook mantém, e às vezes descarta, apenas um endereço de e-mail que acaba indo parar na lista de tarefas de alguém. O resto é recebe respostas automáticas sobre como eles poderiam ajudar, ou não. Eles não vão ajudar.
“Você verá quando eu denunciar esta postagem?”
Sim, mas vá em frente, você só vai aumentar o problema. Eu terei que remover esta denúncia também, porque não hesitei em xingar, mas...foda-se.
Eu queria poder responder mais perguntas, mas não vou desistir das oportunidades que tenho de ser justo ante as inacreditáveis razões por que alguns donos de boas páginas são banidos ou têm suas páginas removidas injustamente. Isso acontece muito, e provavelmente vai piorar antes que melhore. Provavelmente ajudaria se alguns de vocês voltassem a chorar para suas mães ao invés de fazê-lo para o sistema de moderação do Facebook."
Não sei se o autor é realmente moderador do Facebook, mas independentemente disso o caráter reflexivo do texto é importante.
Texto original: http://theinternetoffendsme.wordpress.com/2013/04/09/the-real-story-behind-facebook-moderation-and-your-petty-reports/
Página no Facebook: http://www.facebook.com/TheInternetOffendsMe
domingo, 6 de janeiro de 2013
• A coragem e bravura do esportista radical nº2
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| Circuito Radical de Tirolesas: Exorcizando 2012 em pleno ar |
Como da outra vez, minha super equipe de atletas e eu fomos conferir outra tirolesa nacional, dessa vez no Parque dos Sonhos, na divisa entre Socorro (SP) e Bueno Brandão (MG). Aliás, divisa mesmo! Em uma das tirolesas foi possível cruzar os Estados (e fazer aquelas piadinhas infames do tipo "de Minas até São Paulo em menos de um minuto").
Foi tudo muito bem, obrigado. O dia estava ótimo, com sol, todo mundo numa boa e o principal: dessa vez não fiquei preso no cabo.
O parque tem uma estrutura muito legal e os preços estão dentro do que se espera para um serviço de qualidade. Vamos aos destaques?
Dá uma olhada no vídeo!
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| É alto. MUITO alto. |
Um show! Encanta mais do que provoca a adrenalina - apesar da grande altura - pois tanto no topo do morro de pedra quanto sob os cabos você tem um visual digno de cartão postal.
Depois do friozinho na barriga durante a saída, o fluxo é suave e não é dos mais velozes (o que nesse caso é ótimo porque, uma vez lá em cima, você não quer que o passeio acabe rápido). Dois cabos de aço que suportam aproximadamente 3 toneladas e equipamentos em ordem, limpos e sem desgastes aparentes nem desfiados asseguram a paz pra diversão.
Atenção: por medidas de segurança o peso máximo do usuário deve ser 120kg (ufa!). Confira sempre se a prestadora de serviços tem os certificados de turismo de aventura e esportes radicais.
Tirolesa do Espanto: Com 400 metros de comprimento, está algo em torno de 35 metros acima da Cachoeira dos Sonhos e cruza os dois Estados. Seu diferencial além de passar entre as copas das árvores é a velocidade: entre 55 e 60Km/H, dependendo do seu peso (sim, fui rapidinho).
Está entre as mais rápidas do parque e garante a excitação.
Tirolesa do Calafrio: apesar do nome é bem tranquila. Não que seja água-com-açúcar: sua graça é ofuscada pelo impacto das duas anteriores. Tem aprox. 200 metros de comprimento e 25 de altura, sendo usada como retorno do circuito.
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| O "off-road" - um tipo de towner com banco do Playcenter |
Pelos mesmos 50 Reais você pode fazer a Tirolesa Voadora, a mesma de 1km, só que deitado de bruços a la superman. O parque tem ainda um bar/restaurante legal (alegrai-vos, gorduchinhos: as porções são bem servidas) e a entrada no complexo custou R$12 nessa data (sendo 10 da entrada mais 2 do seguro). Conta ainda com chalés e estrutura de hospedagem, que não avaliamos porque preferimos encarar, meio sem saber, a distância de mais ou menos 15 km entre o centro de Socorro e o lugar (boa parte estrada de terra, que em dia de chuva deve dar bem mais medo que todo o resto!).
A estrada do parque margeia o Rio do Peixe, a mesma da Gruta dos Anjos. Certifique-se que haja sol, que a suspensão do carro esteja em dia, leve a cueca sobressalente e corra (ou voe) pro abraço.
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| Sim. Aquele pontinho preto ali no meio é alguém descendo a tirolesa... |
Palavra final: Recomendado. Pretendemos retornar! :)
Cagaço: ** (duas ceroulinhas borradas)
Diversão: **** (quatro joínhas)
sábado, 1 de dezembro de 2012
Admirável Mundo Novo - Parte II
ou "Nem tão novo assim"
Acabo de ler um texto - muito legal, por sinal - e além de recomendar sua leitura quis dar meu palpite sobre o assunto do momento: a Deep Web. Então lá vem mais um texto enorme, prolixo e redundante que você não vai ler nesse blog bombante.
Vários sites do mainstream virtual já disseram o bastante sobre o tema - melhor dizendo, abriram o necessário. Acredito que algo além do já apontado seria mais do mesmo, mas há sempre dúvidas que atiçam nossa curiosidade, quase sempre estimuladas pelo sensacionalismo das páginas caça-cliques. Usuário mediano de internet, nem um pouco hacker e com parcos conhecimentos, ainda assim tive minha minúscula parcela de contato com o que se pode chamar de obscuridade da rede.
Obviamente, o que digo aqui não pretende generalizar a realidade das Deep Webs (no plural). Mergulhar numa praia não é saber a fauna dos oceanos, claro, mas você pode ao menos entender que é feita de água, tem peixes, crustáceos, correntes, plantas, pedras e sal, e que isso provavelmente vale pra maior parte dos mares.
Então, só pra irmos um pouco além dessa imagem de "inferno de Dante" pintada por alguns blogueiros e páginas, que ainda assim apontam uma parte inegável da realidade - e sem também ter qualquer pretensão de acrescentar dados concretos ao debate mas, antes, elocubrar sobre sua natureza - deixo alguns comentários pra quem não conhece absolutamente nada do tema e só ouviu dizer recentemente:
O
primeiro, o de que "80% do conteúdo da internet é Deep web".
Bem... Sim e não. Isso não quer dizer que 80% da web é coisa de pedófi e canibal, nazzista e matador de aluguel. Quer dizer que a maior parte do conteúdo da web não é classificado, muito menos aberto ao público geral. Assim
como as pastas compartilhadas no seu HD numa rede interna não
representam a maior parte dele (a menos que você... bem... deixa pra lá,
mas normalmente só se deixa aberto um punhado de pastas), muito do
material da web não está colocado em sites de visitação direta e não
está indexado. Você não encontra todo o conteúdo do mundo simplesmente jogando no Google, certo? Digitar "salário do fulano de tal" não vai aparecer ali, ao lado dos links do Mercado Livre. Ou seja, no meu servidor pode haver uma pasta de arquivos que
ninguém encontra se não for por 'acidente', porque não há nada apontando
pra lá. Pode ser uma pasta com material a ser trocado entre o cliente e o webmaster, pode ser material fechado apenas para uma intranet, etc. Esses conteúdos todos permanecem obscuros para a maioria de nós.
O Google assume que, considerando o tráfego de informação na
rede, não abarca muito mais que uns vinte e poucos porcento desse material circulante.
Daí o tal número, que parece bem irreal à primeira vista se considerarmos o
quanto de dados todos os usuários de redes sociais jogam por dia na
www, por exemplo (redes P2P de torrents, compartilhamentos, gigas de fotos por hora, vídeos, stream, músicas, etc). É muita, muita coisa mesmo e parece difícil que conteúdo secreto/discreto ultrapasse isso. Mas ultrapassa, como você pode imaginar pelos exemplos acima. Só pra ilustrar novamente, aquele vídeo de 5 gigas que você baixou no Emule é mais do que postou no seu Facebook hoje, não?
Toda página que pretende ser encontrada possui um
index, nomes claros, palavras-chave para busca e afins. Elas pedem "clique em mim, eu sou isso e faço aquilo". O oposto acontece na Deep Web (e se você vir o primeiro exemplo acontecendo nela... corra que é cilada, Bino). Dizendo de forma bem básica e simploriamente, as que 'pretendem ser encontradas' apenas por
aqueles que possuem os links (seja na intranet de um grupo, seja na
rede mundial de computadores) dispensam o index na maioria das vezes, usam disfarces, firewalls ou, mais comumente, criptografia. Seu browser sequer acessa parte do material, simplesmente porque não foi feito pra você.
Assim como muito telefone não tá na lista telefônica, muito conteúdo não está classificado nos buscadores. É isso o que dizem esses tais números oficiais, na prática. Acho que você já entendeu.
Segundo: a internet nasceu Deep Web.Eu não sei quando vocês começaram a entrar nela, mas seu começo foi bem assim. O "mundo novo" ali no título refere-se não à surpresa
pelo conteúdo das matérias, mas por ser notícia tratada como recente.Pense numa poça que começa rasa e
acumula água por cima. Novos rios que invadem o pedaço e encobrem tudo com seus grandes volumes. É isso. Os acréscimos vieram e obscureceram as camadas
debaixo. Mas ainda estão lá - a água ainda circula pelo buraco. O novo público da taverna encobre os bebuns do balcão - ao menos até um certo horário - a ponto de parecer que o local é bem outro, mais amistoso e de conversas em voz alta - mas o balcão ainda é usado para sussurrar. Como quem vê uma grande cidade de cima e não sabe que ali na linha do trem, no centro velho, circulam com a mesma velocidade que os carros da avenida os mendigos, craqueiros e travestis.E chega de metáforas bregas; vamos à História.
A
internet começou com universidades e órgãos do governo (imagino que saibam disso, mas o texto é pra leigos). Seu propósito era pra poucos, por natureza. Resumia-se a computadores ligados por
modens que trocavam conteúdo específico por horas a fio (literalmente, pelo fio das conexões discadas). E-mails e páginas que só se alguém te dissesse "vá
na pastal tal e procure o arquivo tal" você encontraria. Era uma rede
'íntima', por assim dizer, muito útil e ao mesmo tempo intocável na
época, posto que mal havia protocolos e compatibilidades patronizadas - e
parecia grego mesmo pro usuário comum (como eu e você, em nossos DOS e avançadíssimos Windows 3.11 isolados do mundo). E era isso.
Então
qualquer um que já usou IRC, Astalavista (lembra?) e afins nos anos 90 já
participou de algum modo da tal Web oculta (que só depois da invenção dos sites de busca
- ou mesmo quando o Google era uma página tímida que perdia em uso até pro
Altavista [não confunda] - passou a ser chamada Deep). Antes dos buscadores,
corporações comerciais e servidores profissionais era apenas a Rede, no máximo uma 'dark web' (simplesmente
porque não se sabia - ou via - onde encontrá-las). Isso lá nos tempos onde as empresas tinham um cargo para o 'enviador de e-mails' (!).
Repetindo,
quem trabalhava com comunicação, fez mestrados ou doutorados
provavelmente já usou bastante a tal rede paralela (que são várias -
minha máquina aberta pra de um amigo já seria uma rede e os algorítmos do Google provavelmente não tomariam ciência disso). Era esse um dos
únicos meios de conseguir uma publicação científica além de pagar 1.000 Reais pra importar um livro, por exemplo. Muita gente assustada com a tal novidade já fez parte direta ou indireta dela, inclusive
quem já baixou conteúdo pirata - uma rede de torrent obviamente não é a
mesma coisa que a Mariana's, mas sua natureza sim e serve para ilustrar a
ideia. Era esse o propósito
original da web, afinal: a troca de conteúdo digital à distância de modo
discreto.
Então lembre-se: pros chineses e iranianos Wikileaks e Google são 'deep web'...
Terceiro:
Sobre o anonimato.
Nós usamos canais oficiais de comunicação, páginas intuitivas, atraentes e
indexadas, registradas, com domínios, url, IPs dos provedores, cookies,
logs, www, http aberto, tudo bonitinho com protocolos 'universais' de acesso.
É por isso que não há, por princípio, anonimato em rede social - um apertão mais sério e os sites entregam o dono de um fake com tudo o que já foi dito. Seus passos virtuais, todos, são mais ou menos rastreáveis - seja por algoritmos que selecionam por palavra-chave o melhor anúncio pra botar no seu e-mail 'gratuito', seja por profissionais e servidores do setor (hackers, polícia, empresas etc). No meu tempo isso era somente uma teoria da conspiração chamada Echelon, veja só.
Só que todo esse aparato não substituiu as outras vias dos tempos de transpiração. Por isso diz-se ser coisa de 'iniciados' - você tem de manjar como andar no beco sem deixar rastros nem chamar a atenção do trombadinha, tanto a experiência das rotinas quando a técnica. Aqueles do passado sabiam muito bem brincar com o universo das telecomunicações - tanto que fundaram empresas de software, anti-vírus e sistemas operacionais. Pisar na água sem ver o fundo é pedir pra botar o pé no ouriço.
Daí
que as redes menos rastreáveis, com protocolos próprios, criptografia e
afins logicamente levaram ao uso por parte de bandidos, gente louca e fulanos que têm muito a esconder (pra bem E pra mal). Não é diferente de quem vai comprar material ilegal na favela ou entra nela 'só pra sambar'. nesse sentido há uma dark web ali mesmo, ao lado do seu bairro, que por mais que vá na feira pela manhã não vai querer andar ali sozinho na noite.
Ocorre que, apesar de tudo isso que certamente existe, um canal discreto/secreto também serve pra circular informações importantes, que de outro modo seriam barradas. Wikileaks só existe
por isso, afinal se um informante pode ter seu IP e e-mail rastreado ele
não vai abrir a boca. Além disso a tal troca de materiais envolve
direitos, pirataria e afins. Ou seja, refletindo sobre o comportamento do usuário comum de internet, nem nós estamos assim tão longe da
deep web como não se trata de algo além de humanos atrás de
computadores, dos piores aos melhores. Eles correm atraídos pra lá como os ratos correm pros esgotos, e podemos pensar que essa via seria melhor se fosse higienizada, urbanizada e catalogada - mas não perderia, assim, seu motivo de ser? O problema é haver sombra ou o tipo de bicho que lá se encontra? Pior, o fato da sombra ser 'virtual' aumenta o problema ou apenas se soma?
Aí entra o quarto ponto:
Lembro que nos
anos 80 o FBI quebrou uma rede de snuff
movies nos EUA que pegava uns 4 ou 5 estados. Tentei encontrar referências sobre o assunto numa busca não muito esforçada e não achei nada, mas o fato me marcou. Basicamente, fulanos que faziam esses
filmes trocavam cópias entre si. Detalhe: sem internet, só caixas
postais e fitas betamax e/ou películas de projeção. Soube-se por denúncia anônima ou pegaram um e o
resto caiu, não sei ao certo. Mas era uma rede, obviamente secreta, usando os correios. Eis o sentido principal: a internet nos fez mudar parte do sentido do que é, de fato, uma rede. Então lembre-se que uma máfia é uma rede, uma gangue é uma rede, um caderno de enquete circulando pela sala de aula é uma rede e um
mensaleiro que converse pela web de modo anônimo está, de certo modo, numa
deep web.
É
claro, repito, que um ambiente que permita maior anonimato em nível
mundial atraia quem tem muito a esconder (do mesmo modo que um correio sem raio-x e pacotes invioláveis atrairia). Mas, assim como na sua agenda
não tem o telefone do Cachoeira, no Google o conteúdo deles não aparece.
A "novidade" das deep webs talvez seja o alcance, mas grupos de humanos ou coisas parecidas que
se unem para confabular segredos são coisas bem velhas. O que choca é saber que
existem esses sentimentos, impulsos e principalmente ações às escuras. O que ainda nos choca é o grau de decadência bizarra que nossa raça pode chegar. Com ou sem internet.
Esse ainda é o grande fator e o grande perigo ali exposto, o de que existe gente - por falta de termo apropriado - capaz de fazer o impensável, para além de qualquer ética, moral ou sanidade mental.
O foco na ferramenta cria um bunda-lelê sobre o assunto a ponto de parecer que ela, por si, é responsável pela
marginalidade dos frequentadores (e marginal é quem está 'na margem',
como numa boca do lixo onde há traficantes e prostitutas mas também
aquele cara jurado de morte por falar demais). Mas convém reforçar que nem todo mundo que se esconde é bandido - e depende sempre de Quem nos escondemos (ou você não apoia aquele blogueiro do terceiro mundo postando fatos sobr seu ditador?).
O fato é que tão logo um tabu qualquer venha a deixar de
sê-lo ele sobe pra camada de cima (seja uma prostituta com carteira
registrada, sejam gays que eram obrigados a se esconder em guetos e
que agora podem se beijar nas ruas). De outro modo os assuntos reprimidos - com ou sem motivos justos - vão pender sempre pra osbcuridade e é apenas isso o que têm em comum.
Então devagar com o andor. Há monstros horrendos, sim, e há também quem simplesmente não pode subir à margem sem ser comido pelas gaivotas.
Quinto: O
grande perigo da deep web é a falta de confiabilidade.
Claro. Não há leis,
você não pode processar ninguém e quase nunca tem certeza de onde vai
chegar (nenhum link é 'obrigatoriamente' o que aponta). Não é lugar para fuçadores. Muito lixo cai
no seu colo, pra dizer o mínimo. Ali a programação retorna às origens: um link é algo que quando clicado leva a uma ação e nada mais; não importa
o que está escrito nele, pode te levar (ou baixar) qualquer coisa, sem
garantias. Chovo no molhado ao dizer isso, pois aposto que já tiveram más
experiências aqui mesmo no mainstream da internet, em blogs que ninguém visita, correntes de e-mail de péssimo gosto, vírus em sites etc.
Nada,
repito, nada do que eu disse nega ou ignora que o substrato do lixo
existe aos montes por lá, e que você pode esbarrar neles sem querer
(como nos anos 90, onde você clicava num ok de uma página 'normal' e
caía numa página fascista que enchia sua tela de pop-ups incontroláveis). Como em
qualquer lugar concreto onde a polícia não entra e não há leis, é lá
que você também vai encontrar a bandidagem, seus golpes, armadilhas e sistemas de segurança - vírus por todos os lados, trackers e gente que manja dessas maquininhas. Vai encontrar também todos os seus subprodutos, policiais à paisana e muita, muita sujeira a ser peneirada (SE possível). Eu disse Também - pra reforçar que há toneladas de
informações importantes que seriam impossíveis por outras vias, sob holofotes. Um exército de Assanges trabalham nas profundezas apenas porque não podem ser cercados numa embaixada.
Tem coisa boa no underground - sempre teve. E devemos muito de nossa 'liberdade' atual a grupos que se esconderam de igrejas e Estados, para discutir livremente ideias ousadas como o direito à expressão. O resto (talvez a maior parte, que ofusca e choca) é não mais do que a red pill apontando o que existe aqui fora no mundo real e lá dentro das cabeças doentes.
***
Meu
comentário é apenas pra aliviar o mito de algo sobrenatural por trás da internet, como se não encontrasse vários equivalentes na vida real (e desconhecidos pela maioria de nós). Para que não pintemos dragões e sereias no mapa do Pacífico, saibamos que há alguns tesouros e muitos tubarões. E para sabermos um pouquinho melhor onde pisamos, tentei somente amenizar um pouco do sensacionalismo (de certo
modo bem vindo) do texto, afinal somos basicamente como nossas mães e avôs
clicando em spam de enlarge-your-penis, nesse sentido (quantos e quantos
vírus não peguei no astalavista? Ê laiá...). Aventurar-se nessa seara é pra poucos, que sabem se defender tanto tecnicamente quanto emocionalmente. E não me incluo neles.
Endosso
que, pra grande maioria de nós, entrar nessa selva não traz mais do que precisamos aqui nas vias tradicionais - além de incidentes e desgostos. Talvez o que exista de bom ali não compense pra nós o montante de lixo humano no seu mais baixo - e inimaginável - 'nível', além de riscos como o de tomar contato, de gaiato, com material ilegal, perigoso e insano. Até você explicar que focinho de porco não é tomada, meu amigo... aquele arquivo no seu e-mail já te mandou pra delegacia.
Dito isto, a ferramenta é sim muito útil - e acredito que será muito, muito mais no futuro - e só não
caiu ainda (como caiu o Megaupload) porque é praticamente impossível para qualquer autoridade intervir sem
derrubar toda a internet mundial. Enquanto houver um servidor russo que
dispensa cadastro, uma máquina conectada à outra ou duas pessoas cochichando num beco... haverá de tudo por aí. Esse, afinal, é o grande efeito colateral da liberdade irrestrita: O que fazemos dela.
*Pretendo editar futuramente esse texto enorme e repetitivo. Se você chegou antes, azar seu. A internet é cheia de riscos. :D








