Pois é, morri.
É hora de me despedir.
Preparei esta mensagem ao longo de muitos dias, bem ciente da estranha situação na qual me encontro. Se o post foi publicado, salvo algum erro de cálculo, isso significa que não estou aqui para prorrogar o timer da postagem programada mais uma vez, como fiz durante todo esse tempo.
Não encare como morbidez: apenas usufruí da tecnologia para fazer o que, de outro modo, não seria possível. Talvez exista algum humor negro nisso, mas se assim não fosse não seria eu, certo? :D Eu jamais saberei a reação que este texto provocará; não lerei suas mensagens, não verei seus sorrisos, não enxugarei suas lágrimas (ah, presunçoso!) nem poderei amenizar a tristeza com mais uma daquelas minhas piadas idiotas. Então terei de caprichar. Não é todo dia que se morre!
Eu amo vocês.
Vocês sabem; todos. Amei tudo o que chamou-me a atenção nesses longos anos.
Ah sim, em muitos sentidos foram longos: eu jamais poderia me contentar com uma vida que eu pudesse resumir como 'rápida'. Curti cada um de vocês o quanto pude, e quando não pude tratei de sonhar. E ainda sonho: fantasio que vocês estão aí, refazendo-se dessa surpresa um tanto bizarra, possivelmente triste, talvez reconfortante. Imagino que vocês seguem vivendo suas vidas e, nesse exato momento em que escrevo, penso o quanto isso é valioso pra mim - que vocês estejam vivendo suas vidas. Perdão pelo gerúndio, mas o tempo presente e contínuo que a mim não mais pertence é tudo o que mais quero que seja seu.
Eu fui muito, muito feliz com vocês. Nos meus momentos sozinho (graças a vocês, jamais solitário), sempre lembrei de cada instante que compartilhamos. A cama, os risos, os abraços, as realizações, as tristezas, os desafios, os karmas que eu achei que jamais terminariam, as noites sempre curtas demais, lindas demais, necessárias demais. Na verdade, jamais entenderei plenamente que não foram 'demais'. Poderíamos ter muitas outras e eu ainda assim pediria por mais. Eu queria mais, não tenham dúvida.
Desde criança sempre desejei que meus amores estivessem comigo: pais, irmão, amigos, mulher... vocês foram minha religião. Nas aventuras de ser homem na Era em que vivi, minha pequena arte (que recentemente descobrir ser do mundo) e minhas idéias foram todas não mais que o reflexo daquilo que estas pessoas causaram em mim. Vocês. Fui um menino tímido e introspectivo que repentinamente descobriu, na prática, o prazer previamente intuído de que me dedicar a vocês era Tudo - nisso encontrei o Sagrado. Inseguro, usei máscaras mil - a extroversão, a comédia, as palavras... com o único intuito de emocioná-los, cativá-los, amá-los. Também fui áspero, teimoso, soturno, e disso lamento um pouquinho - tempo gasto com mau proveito, onde caberia mais um beijo.
As pessoas não lembram (embora entendam) o quanto o outro é importante. Pode-se culpar a rotina, a correria (De que? Pra onde?), o que for... mas é algo que simplesmente não deveríamos esquecer jamais. Porque basicamente... viver, pra mim, foi isso: estar com os outros. Estar.
Hoje eu ainda existo, mas apenas sou. Pulverizado em átomos esparsos e nas suas memórias, nesses escritos, numas poucas obras, num corpo que está lá em algum lugar, a alimentar entes alheios a mim (e isso é ótimo!). Vivo até mesmo no sangue de alguns de vocês. Mas não mais estou.
Existe uma grande Poesia nisso. De certa forma sempre ansiei por dissipar-me no Cosmos e, ao mesmo tempo, em voltar pra Terra. Deixar de ser apenas eu pra me tornar tudo isso, energia dispersa rodeando quem e o que amei.
Agora falo contigo, no singular. Eu gostaria de enumerar pessoas, fatos, eventos, sentimentos. Gostaria ainda mais que esta conversa (sim, nada de monólogos) continuasse eternamente. Mas o fato é que os limites sempre existiram e existirão, e no momento o que tenho disponível é pouco tempo para aproveitar sua atenção e dizer, com o mais amplo e irradiado calor que já senti, que TE AMO e que foi isso, e só isso, que fez tudo valer a pena, que fez com que eu olhasse para trás sem pensar em mudar coisa alguma ao mesmo tempo em que repensei, em vida, como melhorar nossa história; que fez com que eu enfrentasse essa situação desconfortável de imaginar-me finado, antecipar-me ao momento e preparar essas palavras apenas para que soubesse do quanto senti por você e do quanto sou grato por sua existência.
De todas as infindáveis possibilidades matemáticas, você e eu dividimos o mesmo tempo, a mesma geografia, o mesmo ar e muitas emoções. Conterrâneos, contemporâneos e amantes. Não dava pra não ser feliz, pra não comemorar a Vida. Digo, como poderia?
Com você por perto, eu tive motivo. Você me intrigou, atiçou minha curiosidade, chamou minha atenção, motivou-me de algum modo. E se agora não estou mais aqui, isso é mero percurso da sua história (não da minha, eu não sei de mais nada). Se não for muita pretensão minha imaginar que faço falta, lide com o fato de que não estou mais aí, que não poderemos mais fazer o que fazíamos juntos. Mas lide. Lide e vá viver mais, vá ser feliz como você me fez ser e não se prenda às memórias - tempere-as com mais e mais experiências, plante nos atos e faça-nos vivos mais uma vez. Memórias também precisam de vida e movimento ou apagam, perecem, perdem-se no vazio.
Comemore: nós nos divertimos pra cacete, não foi?
Dioniso, o deus da minha vida que me deu nome, é isso: só há caminho e o percurso é a meta. E nós dois caminhamos muito, eu e você. Tô feliz por saber que você vai continuar essa estrada; dissolvo-me nela agora, na nossa trilha, onde eu sempre quis estar. Sem imperativos, apenas desejo meu: Vai e segue, respira a brisa e a poeira e lembra do meu cheiro, do barulho dos meus passos e do seu reflexo nos meus olhos úmidos. Assiste aquele filme que é a minha cara e comenta com a parte de mim que existe em você; toma aquela nova cerveja que agradaria o meu paladar; conta aquela nova piada que você não via a hora de me dizer. Mas faz em silêncio, em segundo plano, pra que eu possa ouvir enquanto você vive com novas pessoas e novos sonhos. Faz pra si mesmo, o único ente que realmente me interessa. É aí, em você, que eu vou estar.
Ei, você sabe... nunca fui um bom gastador, sempre desandei na economia, mas deixo-te um bom testamento: conta pros teus netos aquela vez, quando... você sabe. Lembra? Mas se exponha sem orgulho; quando você também se for, teus ouvintes te carregarão e, por tabela, me levam junto. É assim que a Grande Família funciona, vivemos uns nos outros e morremos na forma porque, afinal, seria chato de mais empedernir, cristalizar. Deixa Shiva dançar porque um passo leva a outro e todos juntos formam a dança.
Bem... é isso. Se preferir, pense que vou tocar arpa peladinho agora, conversar com o Joseph Campbell, com o Carls Sagan, brincar com o Scooby e comer o crústi da vó Ana. Talvez até te esperar. Faça-me o favor de chegar aqui num estado deplorável, de bengala, depois de ter trepado até assar e de rir até doer o baço. Chegue com cãibra no rosto, com aquele sorriso que não se desfaz. Como o meu, quando lembro de você.
Beijos, meus amados e amores. Vivo aí, nessas lembranças.
AMO VOCÊS.
Finado Denis
P.S.: Talvez eu poste mais mais postumamente... por que não? Sempre gostei de provocar surpresas.
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
• Post Póstumo
• Post Póstumo nº 4 - Pai
É, velhinho... eu não ia deixar passar não.
Achou que eu ia esquecer de você? Que eu ia seguir caladão?
Bom, de certa forma estou calado, mas se não posso mais falar eu ainda assim direi.
Eu te Amo, pai. Sempre amei.
Mesmo hoje, enquanto escrevo, ainda sinto o peso dos teus olhos, o peso que você carregou consigo, sobre seus ombros. Eu preferia que o único peso que te ocupasse a memória fosse o meu, menino, andando de cavalinho nas suas costas.
Sabe... Eu sempre odiei seu perfeccionismo. Não você, seu perfeccionismo. Foi ele quem não deixou que você visse o puta pai que você foi, o quanto superou-se e à vida difícil que teve. Eu sempre admirei isso e sempre carreguei seus valores com orgulho. Pergunte a qualquer um que conviveu comigo quantas vezes não contei sua trajetória, seus caminhos, desde a sua infância até os dias em que pagou meus estudos. Aquele menino engraxate, que quase atirou em si por acidente numa banca de jornais, que pulava da ponte em dia de rio cheio; o Balé, que quase jogou profissional.
Enquanto você perdia seu tempo cobrando-se por não ter dado mais bens materiais eu lembrava com carinho dos Bens magníficos e intangíveis que você me deu. Da caixa de papelão com olhos e boca cortados no fundo e uma vela dentro, lá na chácara da vó, às histórias mil da família, da sua vida, te terror. Lembra a gente com o gravador fazendo história de terror? Ouvindo disco de piada suja? "Vai logo, vai logo, senão entra água". Das 'glândulas seborófilas', do palito de fósforo aceso entre seus dentes. De fazer a barba ao seu lado, te imitando. De montar ferrorama no quarto, fazer cabaninha de cobertor e vassoura, desenhar.
Desenhar, pai. Minha paixão, minha vida e meu sustento. Aquilo que me definiu mais do que qualquer outra coisa e pelo qual talvez eu seja lembrado fora de casa. Se eu desenhei, se inventei e criei, foi por sua causa.
Era você quem trazia papel e caneta pra mim, folhas de papel-vegetal e lapiseiras. E tudo o que eu queria era ficar do seu lado, enquanto você trabalhava na mesa da cozinha. Eu via o que você fazia como algo tão importante, algo que eu não entendia mas sentia, que queria fazer também.
Lembro de um rato que você desenhou uma vez, no sobrado, na sua poltrona. Eu pedi "pai, desenha um rato?" e você fez. Eu pensava no Mickey... você fez um rato de verdade. E eu me encantei por aqueles traços acalcados, rabiscados uns sobre os outros, sem linha contínua. Achei lindo. Eu sempre te via desenhando com régua, num traço frio e preciso, e então lá estava... isso, pai, definiu o estilo que eu criei pra mim e pelo qual fui conhecido.
Eu espero que essas memórias, tão vivas em mim após décadas, estejam vivas aí em você. E que se mantenham, sem espaço para lamentos e arrependimentos. Nossas falhas, brigas e discussões eram apenas o sintoma de aprender a viver, e nós aprendemos juntos.
Carregue então contigo aquilo que estou a levar comigo: nossa história magnífica e o orgulho que tive em ser filho de Hamilton Sinachi, a quem amei, honrei e nos últimos anos compreendi.
Te amo muito, meu amoroso pai, e te peço que não esmoreça. Não macule minha memória com um pretexto pra destruir-se, pra abandonar tudo, porque não foi isso o que eu nasci pra inspirar. Lembra de mim com amor e segue o resto do caminho, cuida dos nossos tesouros e da vida que continua, seja na família, nos nossos bichos e em você. Por favor, se cuida e livra do meu espírito a angústia de imaginá-lo triste e deprimido. Lembra de mim, pai, falando bonito e inspirado, desenhando o que você tinha orgulho em mostrar pros outros, com aquela minha soberba marruda e altiva que te irritava. Lembra, pai, de mim no seu colo, das nossas conversas no sofá, da empolgação com que eu falava e ensinava o pouco que sabia. Lembra de mim e de nós, da gente na represa com bóia de câmara de pneu, fazendo balão carrapeta, nadando machadinho, tirando as rodinhas da bicicleta. Lembra do Nesinho, do Dê.
Porque eu me lembro de você, o meu pai querido, de que tão igual a mim mal enxerguei em parte da vida, e que hoje levo comigo com o maior dos orgulhos.
Cuida da mãe, cuida do Kit e dos bichos. Cuida de tudo o que amei. Por mim.
Muito obrigado por tudo!
Te Amo. Beijo
• Post Póstumo nº 2
É, eu sabia que você voltaria aqui pra reler...
Olhando bem, talvez eu devesse ter me exposto mais, né?
Falei tão pouco do que realmente me importava neste blog. Quase não há histórias nossas, daquelas pra gente relembrar com os detalhes que o outro guardou. Bem... não importa. Está tudo bem.
E então? Tá vivendo como eu te pedi? Tá tocando a vida, sonhando e amando?
Se eu pudesse esperar alguma coisa, eu esperaria que sim, que você tá sentindo mais vivo do que antes, pronto para o futuro.
Hoje eu quis falar com a minha família. Minha saborosa mãe, meu Nobre pai e meu querido irmão.
Dona Sula, meu amor, como você tá?
Eu não sei, mas imaginei quando escrevi. Tá chorando em silêncio? Pedindo pro Kit abrir as fotos, mostrar os videos? Visitando meus álbuns? Você não tem jeito, né véica?
Sinceramente, você não precisa disso. Não mesmo. Você sempre foi teimosa, fez sua vida e não perdia tempo com avaliações de placar; fazia e pronto, não é? Pois agora você tem o Kit pra cuidar (não relaxe, aquele cabeçudo teimoso puxou pra você hahahaha) e, se eu bem conhecia aquele cara, você tem agora netos pra cuidar também. Ou logo terá, isso é certo! Infelizmente não vou conhecê-los, seriam como filhos pra mim, mas você que pode curta-os muito! Você tem tudo pra ser uma vovó gostosíssima, tenho certeza.
Não se engane, todas essas pessoas e bichos à sua volta dependem muito de você. Faça-os felizes como você me fez, mãe. Porque eu fui muito, mas muuito feliz com você. Seu bifinho a milanesa, que você fazia sempre que eu aparecia em casa, era o resumo de como você demonstrava seu afeto, seu desejo de me ver feliz. Eu sempre fui caladão, mas eu notava. Reparei em cada atitude sua, no modo como relevava minha tosquice, meu jeitão meio rude, e me amava sempre. Eu tenho muito orgulho de você. Você é minha Casa.
Se eu fui tão feliz contigo em vida, pra que cacete eu ia querer que tu sofresse hoje?
Não quero, não quero mesmo. Você não merece passar por isso nessa etapa da sua vida, então não se derrube em vão. Eu só tenho o que agradecer a você e não posso pagar por tudo isso sendo um motivo pra você chorar, mãezinha.
Você lembra quando eu penteava seus cabelos, sentado no encosto do sofá? Quando ficava desenhando contigo na sala enquanto você lia Sabrina e Contigo hehehehe? E quando eu pegava um palito pra mexer nos teus dentes (tu achou que esse imprestável aqui ia ser dentista?)? Quando apertava 'os buchinho', fazia 'tuninho'? Quando a gente comia Skiny e Diamante Negro vendo Supercine?
Nós nos divertimos, né? Então lembra disso, mãe. O resto é bobagem. Você foi a melhor mãe que eu poderia desejar, nunca me passou pela cabeça nem mesmo nas fases revoltadas de "ter outra" que não você. Meu porto seguro. Tu me ensinou a ser tagarela, criativo, a gostar de mulher, ser um bom homem, gostar de ler. Tudo o que fiz e vivi na minha vida tinha no mínimo algo ligado a você. E se além de tudo isso eu continuo vivo no seu coração e memória, por que então sofrer? Não tá óbvio que eu sempre vou estar com você?
Lembra de mim nos bons momentos, nos Nossos momentos. E vive até o finalzinho, com o humor e a presença positiva que você sempre teve. Sorria como me fez sorrir, tá?
Hoje sou eu quem vai te benzer pra você dormir:
"Anjinho da gaida, poteja nezinho, tatinho, papai, mamãe, vovô, vovô, amém.
Pai, fio, pito, santo, mém".
:D
TE AMO
P.S.: Manda um dengo pros cachorros por mim, por favor.
OBS: Pai, Kit... deixei mensagens pra vocês também, viu?
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Se trabalhar fosse gostoso, você é quem pagaria pra fazer.
Título rude, né? Mas é isso, sem tirar nem por.
Você já viu aqueles artigos de blog "criativo" (oi?) reclamando de cliente? Já, né. Será que tem alguém que já não tenha trombado com eles nas redes sociais? Difícil.
Eu gosto, no geral. Acho legal quando um texto mostra que não é só você quem passa por algumas situações. E alguns textos são ótimos, divertidos (quem acompanhava o Di Vasca, por exemplo, sabia o que era se divertir muito com a desgraça compartilhada).
Mas – e, pelo calhamaço de texto abaixo, deve haver um baita de um "mas" – a maioria me parece um mimimi meloso de garoto assoberbado. Sério. Vem comigo.
Eu sempre sinto uma certa arrogância nesses textos que reclamam dos clientes.
Evidente que há péssimas figuras no mercado, mas repare bem no foco das reclamações. "O cliente é burro, o cliente paga mal, o cliente quer desconto, o cliente não sabe reconhecer minha genialidade".
A demanda pode ser justa, mas o tom e os modos às vezes botam tudo a perder.
De verdade: nem nós mesmos contrataríamos a maioria deles!
Eu espero que você não caia nessa. Espero também que esse mercado se profissionalize, porque a impressão que me dá nessas horas é a de que não evoluiu um milímetro. Conselho bom se vende e ninguém pediu, mas eu adoraria ter ouvido isso quando tinha 17 anos e tô de coração alegre.
Então senta que lá vem textão.
Tá aí um pouquinho do que aprendi nessas décadas de estrada, onde gente foi melhor e foi pior que eu. Espero que seja útil.
O cliente tem sempre razão?
Tem sim. Lide com isso.
Já o candidato a cliente... depende.
Para lidar bem com qualquer cliente, você precisa entendê-lo.
Coloque-se no lugar dele. O cliente quer algo que ele idealizou, que sonhou ou que precisa. Pode não saber bem o quê ou mesmo estar enganado, mas procurou um especialista com algo em mente.
Se pudesse fazer por si, o faria.
Se tivesse o tempo ou a habilidade necessária, já estaria pronto.
Mesmo que tenha tudo isso, ele talvez esteja ocupado demais com os seus próprios clientes, fazendo suas contas, honrando seus compromissos e cuidando do próprio negócio.
Então ele, como você, quer o melhor pelo menor preço possível. No jogo em que vivemos, esse desejo é compreensível e deve ser respeitado. Já o que é possível ou não no seu preço é você quem define. O que o justifica deve ser seu Valor, pra si mesmo e para o cliente, e também suas próprias necessidades. É natural que ele valorize o dele e você valorize o seu. O nome disso é negociação, não ofensa pessoal.
Assim como o fornecedor, o cliente está em avaliação. Sempre estamos, em qualquer negociação (inclusive nas relações não-comerciais). Encontrar o termo onde a mágica acontece faz parte das competências essenciais de qualquer trabalho.
Então... a menos que você me diga que prefere pagar 3 mil num celular que vale 2, e que vai recusar se te oferecerem por mil... melhor rever isso aí.
Outra: pode ser que o que ele quer não seja o melhor, o ideal, o mais eficaz. Clientes muitas vezes decidem mal, com a melhor das intenções, simplesmente porque não têm obrigação alguma de entender do seu negócio, e sim do próprio.
Mas é o que ele quer, e será feito por você ou por outro. O risco que vem com a escolha é do cliente, desde o momento em que decidiu fazer algo. Se ele vai se arriscar, nada mais justo que seja sob seus próprios termos.
Sua parte, qual é? Não sei, decida-se. A minha tem sido a de oferecer as melhores opções, apresentá-las sob prós-e-contras honestos e respeitar o desejo alheio, que propus a mim mesmo realizar. Sob pagamento, claro. Do contrário, pra fazer exclusivamente a minha vontade eu trabalharia só pra mim, em casa. E é aqui que retomo o título: a satisfação primordial é a de quem pagou pra ser satisfeito. Ponto.
A palavra final é do pagante e isso é ótimo pra todo mundo. É também por uma questão de garantia que um profissional tenha um custo, afinal. Ele também tem medo de pagar e não receber. Tem receio de que você seja um picareta sem palavra, que não vá dar conta, que vá deixá-lo na mão, que vai estourar os prazos, que mais fale do que faça de verdade.
Pode faltar um dinheirinho a mais ali, pode faltar um conteúdo extra acolá, mas o que importa é chegar no termo onde um dá o que o outro quer e a troca valeu a pena, sem traumas. O que mais você quer?
Fulano/a queria ganhar 50 mil por mês, o cliente queria um mega portal com vídeos em 4K e dançarinas de Zumba recitando Goethe ao vivo. Ilusões de grandeza temos todos, mas isso não é motivo para saírem sem nada. Em vez disso, você vai poder pagar seu crediário esse mês e ele vai ter um site funcional.
No mais... em termos bem realistas, é dele o direito de escolher o fornecedor e é seu o de aceitar um cliente.
Claro, se ele fizer uma escolha ruim apesar das opções justificadas que você fornecer e vier imputar a você o resultado do erro... bem... se podemos chamá-lo assim, esse é um cliente que você quer ter? De novo, decisões. Um bom médico faz o exame minucioso, receita o remédio e ministra o tratamento. Sua consulta estará paga de qualquer modo: o cliente tomando o remédio ou preferindo o chá da vó Neusa. Se o câncer voltar depois, não adianta dar chilique na recepção, adianta?
A lógica permanece.
Faz parte encontrar dessas coisas pelo caminho. Como também faz parte aprender, desviar-se e jamais assumir uma conduta que prejudique o bom cliente em nome de alguns ruins. Se você quiser sobreviver, claro. Isso é muito comum, tanto quanto lamentável.
A síndrome do Gênio incompreendido
Sabe... não tem campo de realização pessoal pra preencher na nota fiscal. Você pode ter muito prazer como resultado de uma parceria legal, de um trabalho onde as partes se comprometeram com o resultado. É uma delícia e a boa parceria, aquela duradoura, sempre surge assim. Mas esse prazer é consequência e, principalmente, sorte. Por isso também, o foco profissional é receber o pagamento e, sendo promissora para todos, ter a continuidade da parceria. Afinal, seu banco não aceita pagamento de boleto com abraço e parabéns.O que vier além disso é lucro. Literal e metaforicamente.
Dito isto...
Realmente não entendo essas estrelas todas. Essas divas que só tatuam o que querem, que só decoram o que acham legal, que só cozinham o que lhes der na telha. É o couro do outro, o quarto do outro, a barriga do outro! Não importa se você é o famosão, algumas inversões tão têm cabimento.
Uma coisa é você ter o seu cardápio, ok - não se faz picanha no restaurante vegan, seu produto é X e o Y é no box ao lado. Outra é você recusar-se a trazer o saleiro ou tirar a cebola porque "tem de" ser assim.
Baixe a bola. A menos que você vá pagar pro outro engolir, essa equação tá errada. Muito errada.
É por isso que eu odeio esses termos da moda, sabe? Essa autoimportância dos títulos vazios. "Profissão Criativo", seja lá o que isso for. O mercado pede que a gente seja 'artístico', não que seja "artista" - se por "artista" você entender aquela pessoa cuja única demanda ao criar for a própria, que fez o que quis e alguém foi lá ver depois. Confessa: é esse o caso?
Fellini fez Casanova a contragosto, por encomenda; um dos seus filmes mais poderosos. Da Vinci pintou a esposa de um cliente; por acaso tornou-se seu quadro mais famoso. Talvez ele preferisse bem mais seu cavalo de bronze do que pintar baranga, pode apostar. Não importa pra ninguém além dele. E ele certamente achou um meio de fazer o que quis com o dinheiro recebido pelo que "não quis" (e quis, já que aceitou).
Tô falando dos grandes.
E nós? Pois é. Garotear não cabe.
De(s) graça?
- Vai 'dar um boi' pra ganhar o cliente? Faz parte. Com ou sem crise, mimo e desconto todo mundo gosta.- "É só um desenhinho"?
Se você for um desenhistinha, não perca.
- Vai trabalhar de graça por "divulgação"?
Isso é contigo. Eu mexo meus contatos e anuncio em página dupla, vou no boca-a-boca, enfim, mil maneiras ao meu ver mais dignas.
- Ele "tem um sobrinho que mexe no Corel"?
Certamente o que ele deseja está nesse nível. Se você se identifica ou "tá precisado", dispute com o sobrinho. Eu digo Parabéns, sucesso. Boa sorte.
A gente encontra de tudo na feira. A questão é que não cabe a você questionar, necessariamente. Cabe aceitar ou recusar. Quais são os seus termos? A que está disposto? Do que precisa?
Aqui entre nós: eu só trabalho "de graça" quando quero. Se terei algo que compense e me satisfaça de algum modo (como ver um amigo próximo deslanchar, por exemplo, ou porque sempre quis fazer um trabalho do tipo). Posso até fazer de presente, depende! Já fiz muito, aliás - e nesse caso o prazer foi a compensação. Mas, sem pagamento formal envolvido, as condições do meu trabalho e do meu tempo são minhas.
Pode ser que alguém se magoe aí. Uma pena que se confunda. Profissão não é favor pessoal, é? Então magoar-se é opcional. Na verdade sabemos que a pessoa provavelmente está apenas frustrada porque seu plano de vantagem não deu certo. Mas dará com outro, não se preocupe com o seu amigão. Já caí em muito papinho furado e não há garantias de que não caia de novo. Ou você.
O ponto é que, pelas regras desse jogo, algum retorno tem de ter. Até porque... seria um puta desrespeito com quem me paga - e paga direito - pra ter o que faço. Não é justo dar pra papo-mole aquilo que gente séria valoriza.
Mas isso sou eu, nesse momento da vida, e não sei do dia de amanhã.
Hoje eu me atrevo a dizer que a relação é profissional ou é pessoal. Tenho grandes clientes amigos e amigos clientes, mas em cada momento há a sua devida atenção. O Amigo e o Cliente podem ser a mesma pessoa, mas não seus contextos. Podemos ou não trabalhar juntos. Podemos ou não tomar uma cerveja. Só com o CPF. O CNPJ não bebe.
Então... só pra lembrar: pondere, negocie e decida. Se topou os termos, mudar de ideia depois é uma baita mancada. Engula e siga em frente. O mesmo vale para o cliente.
O acordado se faz acordado e o respeito mútuo nasce daí.


