Você que odeia tópicos grandes deveria tentar com esse.
Estive meio capenga de saúde desde quinta-feira passada e a coisa toda chegou ao limite neste sábado... era tosse seca, peito chiando, falta de ar, febre que não parava (raramente na minha vida cheguei aos 38º e bati nos 39 dessa vez), enfim... uma merda. Cheguei a pensar que fosse coisa pior mas, por sorte, não.
Hoje me carregaram ao médico, não teve jeito. Não porque sou daqueles que têm medo de hospital (ojeriza não é fobia!), mas eu não estava em condições de decidir sequer isso.
É incrível. Pago 300 paus numa porra dum convênio SulAmérica (aquele do comercial com súperes helicópteros levando você pra desencravar a unha).
Fui ao hospital mais metido a besta da cidade, a referência de saúde da Classe Mérdia da região. Cheguei às 11h e só fui receber a inalação/medicação 3 horas depois. A porra da inalação, a única coisa que de fato me motivou a ir pra lá (uma vez que não fui pra ouvir que o que eu tenho é uma "virose" - "Mesmo? Qual?"); a única coisa que poderia me trazer alívio e que era o que eu tinha ido buscar.
Três horas.
Fiquei arfando como um cão velho das 11h às 14h num hospital particular. Não me acho mais merecedor que ninguém, mas descobri a força da necessidade.
Mais ridículo do que pagar caro pra receber um subserviço, mais absurdo do que precisar pagar por saúde, para além dos impostos, porque o hospital público é outro lixo, é eu chegar num hospital reformadinho, com cara de hotel, piso de mármore e gente desmaiando num domingo banal por falta de atendimento. Por falta de competência. Porque o brilhantismo da administração achou que as sancas de gesso com iluminação gradual seriam mais úteis aos doentes do que um bom atendimento.
Eu compreendo: depois de tanto fru-fru, o que deu pra contratar foi a meia dúzia de garotos mal pagos da recepção incapazes de lidar com público, com saúde e com a burocracia digital a qual chamam "Sistema".
É o novo dogma do planeta. "Tá sem sistema". Deus quem quis. Nada pode ser feito.
Sinceramente não me interessa quem é mal pago, se não dão estrutura aos profissionais, se o convênio paga mal, se médico também almoça: quem não pode não se estabelece e quem representa vai ouvir pelo representado. Principalmente no que concerne à negligência.
Nesse jogo de empurra, azar nosso? Jura, benhê?
Eu via Mony reclamar aqui, ali, tensa, notando a piora, a perguntar.
"Já mandamos a ficha pro médico, senhora" - disse o atendente. "Como você vê, a ficha não está aqui" - disse o médico.
Quando, às 14h da tarde, eu finalmente soube que esperaria pelo menos mais uma hora e que o suposto sistema de triagem (um tipo de pré-consulta que, sozinho, levou 1 hora pra atender-me) não considerou meu pulmão fechado e meus 39 de febre como prioridade em relação aos domingueiros que torceram o pé no futebol (nem os piores que eu, como o velhinho à beira de um infarto precisando de medicação pra pressão, nem as crianças desmaiadas no colo dos pais, etc), usei meu último fôlego.
Invadi a enfermaria aos berros, praticamente chutando os extintores no chão e fiz o mais ridículo dos papéis.
"Quem eu preciso assassinar aqui pra ser atentido?"
Bingo. Atenção.
"Três horas de espera. Eu vou esperar aqui a porra da inalação e se algum filho da puta engravatado* tentar encostar em mim vai ganhar um B.O. nas costas"
Ridículo.
Mas não é que funcionou?
Uma das 6 enfermeiras, duas das quais de braços cruzados, encontrou minha ficha lá num canto. Fui pra sala de inalação.
Estava vazia. Completamente vazia.
A partir disso tomaram uma atitude eficiente:
Trancaram a porta do ambulatório pra evitar novas invasões.
*Agora entendo porque há tantos seguranças. Três circulavam pela porta da sala de inalação. Fiquei encantado. O meliante aqui, com 1,60m e os brônquios implodindo, precisava de três pra garantir que não perturbasse a paz.
Enfim, inalei. Um alívio básico, simples, barato. Saí, passei pelo corredor. O velhinho estava lá, cabeça tombada sob o peito, ao lado do bebê roxinho. Eu ainda tremia e a mão formigava, mas não era da virose.
Deve ser um tratamento experimental: afinal você até esquece que está doente.
Aproximadamente...
Tempo de consulta: 4 minutos
Tempo de raio-x: 6 minutos
Tempo de retorno: 2 minutos
Tde inalação: 8 minutos
Tempo de incompetência: 2 horas e 40 minutos
Agradeço ao Hospital Brasil, a melhor cabana-do-pai-Thomás travestido de hotel da Grande SP, pela graça concedida.
P.S.: Se eu fosse minimamente próximo da incompetência dessa trupe, já tinha morrido de fome. Ocorre que, diferentemente do caso deles, os meus clientes sabem exigir seus direitos. Amanhã mesmo, são ou enfermo e após atender aos meus, ligarei pro convênio exigindo que não pague a consulta. Espero que o médico, único a atender-me com a mínima atenção necessária, receba salário fixo e portanto não seja prejudicado.