Inclusão digital é a nova religião. Logo logo vai-se imprimir a hóstia, como diria o Danilo. Hoje em dia é mais importante que ter feijão no prato: não precisa nem comer, mas tem de saber o login e senha. Meu avô, que é do tempo do arado, se perde com tanto botão.
Como adaptar-se? Como sobreviver a, viver sem?
É... mas tua avó vivia (e olha só, chegou lúcida aos noventinha). Você, periférico do computador, tá aí pelo hábito e pelo encantamento, lendo o que digo ao invés de ouvir o que falo. E se bobear estamos perto, num raio de poucos quilômetros (que nossos avós cruzaram a pé, veja só).
Tudo bem, distâncias são bem vindas ao mundo moderno. Quando se diz, por exemplo, que 1000 indianos morreram numa colisão de trem, ninguém chora. 1000 é um número. Mas se um, apenas um, AQUELE seu amigo morrer, aí complica. Isso, no supermundo moderno deverasmente supimpa, que você sustenta em seu lombo ao custo de não ver crescer seus filhos, é fundamental para que os Rockfellers continuem tendo os orgasmos que você não tem. O chato é que muitas vezes eles apenas acham que gozam, mas na verdade estão tão embotados quanto eu e você. Se alguém gozasse nesse jogo, ao menos faria sentido.
E por falar em orgasmos, nunca os homens tiveram uma contagem de esperma tão baixa. Excluindo desse comparativo os casos históricos onde a 'culpa' pela infertilidade "era sempre da mulher" (assim como o sexo do bebê, o gênio ou qualquer outra culpa), casos estes que alimentaram os erros de diagnóstico do passado, o fato é que a galera anda meia-bomba mesmo.
Trabalho sedentário, péssimos hábitos alimentares e recreativos, poluição... tudo aquilo que inventamos (tá, tá, nascemos e já estava lá) pra poder viver, gozar e ser feliz, quem diria, cobra o preço de não podermos fazer nada disso.
Hum... Pra poder gozar, o preço é castrar-se. Curioso, né?
Curioso mesmo é como caímos nessa. E curiosíssimo mesmo é o porquê de continuarmos na mesma, mesmo depois de sabermos.
'Não há jeito', dizem os profetas.
Não? É, não consigo rebater. Parece que não há mesmo jeito para nós, assim como para minha mãe em pânico quando o microondas dá problema. "Como vou cozinhar agora?" - questiona-se ela. Pois é, mamãe. Como? Que dirá vovó, que alimentou você e seus irmãos na base do fogão de lenha...
Quando se fala em qualidade de vida, só falam em tóchico, pinga e cigarro.
Ora, viciados em merdas destrutivas, somos todos.
Mais do que os coturnos dos Reis, somos reféns dos nossos apegos.
Todos esses aí, que nos tornam brochas, coxos, deprimidos e burros. Por opção.
Ma lascia star, ecco? Venha tomar uma cerveja comigo* que ganhamos mais.
*(Não sem antes me deixar um e-mail ou SMS!)
sábado, 31 de maio de 2008
• Você já foi bytezado?
• Notícias exclusivas! Kaghanda no Brasil!
Interrompemos este empolgante marasmo sepulcral para trazer as mais recalcinofolejantes notícias!
Um flagrante de máxima importância que irá atrair leitores e anunciantes ocorreu nesta última quinta (29). O devoto R.M.S. (23) de Ortolândia, RJ, enviou à Redação de Uaderrel um flagra exclusivo do Divino e Bojudo Mestre Swi Swami Kaghanda Yan Dandha (10.008), que, após seu retiro espiritual em Miami Bitch, reiniciou sua world tour pelo mundo e, pasmem, dirige-se para o Brasil! Sua chegada, ainda sem previsão, é esperada por dezenas de milhares de dúzias de fiéis.
Dona M.d.L.J. (59), de Carapicuíba, em Massachutis, fotografou por telefone celular uma recente manifestação sem fins lucrativos com o objetivo de arrecadar fundos para custear a vinda do Mestre ao continente Sul-americano.As fotos, avaliadas pela nossa Equipe de Imagem, mostraram-se autênticas. Os proprietários, que pediram para não ser identificados, cobraram pelas imagens um preço exorbitante. Aqui, cabe uma denúncia: a despeito da relevância extrema do evento registrado, nenhuma emissora de Rádio interessou-se em adquiri-las. Veja, Estadão e Folha também declinaram, alegando "desconhecer o assunto" (sic). Já a Rede Globo disse que o preço era absurdo e que criaria seu próprio messias (de novo).
Mas a Redação de Uaderrel, que sempre
Brasil na Nova Era
Rumores, ardores e tumores de que o Mestre traria junto de sua pequena comitiva os 450 chineses que carregam a tocha olímpica parecem agora não mais que uma manobra para desviar a atenção do
Tais evidências demonstraram de modo sub-reptício o interesse do Mestre em nossas paragens nacionais. A futura presença do Divino Sri Swami Kaghanda etc no Brasil demonstra que finalmente o país entrou para o primeiro mundo, para a ONU, para a categoria de país estável ao capital estrangeiro e, obviamente, para o Novo Aeon.
E por falar em capital, em nota oficial, a Assessoria de Imprensa de Sri Kaghanda afirma, categórica: "Kaghanda ama o Brazil e as brasileiras! O Mestre envia mensagens de paz e Saramaléin a todos e demonstra estar feliz por brevemente estar convosco em Buenos Aires".
Da Redação•
quarta-feira, 28 de maio de 2008
• Dignidade
Pois é. O que era pra ser uma festa em nome da tolerância e da diversidade virou uma quizumba pra adolescente emo encher o rabo de ecstasy e Jurupinga. Sempre gostei de pensar nos gays como mais um grupo de didadãos merecedores dos direitos dos demais, por definição e princípios. Foi isso o que aprendi com os muitos e excelentes seres humanos que conheci. Além disso, quebra de preconceitos e tabus é exercício obrigatório e legado de toda juventude que se preza.
Mas aí vai meu puxão de orelha:
Euforia não é alegria. A Parada Gay sempre passou longe de ser cisuda, e é pra ser assim mesmo. Mas porra... se pelo menos os trocentos assaltos que rolaram nesta última não foram culpas vossas, dá pra me explicar que diabos passou na cabeça dos infelizes que resolveram transformar a Paulista num vomitório, num prostíbulo, numa boca de drogas e num ringue de brigas?
Estive em três dessas passeatas, com mais de um milhão de pessoas e nenhuma, nenhuma briguinha sequer foi registrada. Era riso, alegria, cordialidade e respeito.
Nessa rolou porrada. Muita. Rolou trepada na rua. Não me venha com merda de "ai ti exageru di papinhu conservador, mona"; meter na frente de criança é mau pacas (crianças de colo, filhas daqueles adultos que foram lá se divertir e caminhar com vocês em apoio à causa, que levaram seus filhos pra aprender desde bem cedo o caminho da convivência - convivência que alguns macularam com seus excessos).
Homossexualidade não é vício, mas é assim que muita gente vai encarar a falta de tato. Que belo andar pra trás, hein?
Ora, vão à merda. Arruaceiro, homo ou hétero, tem mais é de ficar no gueto. Não tem a ver com sexualidade e sim com educação e civilidade, mas a festa era gay, perceberam a associação? Pelo jeito, não. Mas podem crer que seus algozes sim e não vão hesitar em usar contra vocês.
Os homossexuais na história sempre primaram pela liberdade, não pela libertinagem. Sempre gozaram de elegância - sabiam da importância de se buscar com sensibilidade, de ultrapassar os impulsos reaças da sociedade com estilo. Moeda de troca: respeito com respeito. Essa molecagem aí... sinto muito, não houve orgulho gay porra nenhuma, é ravezinha vagabunda pra aborrescente idiota, pra Prefeitura fazer seu jabazinho, pra gringo gastar el dinherito enquanto solta la franguita.
Não teve NADA a ver com a busca por respeito, igualdade e aceitação. Pelo contrário. Aquela festa de cores, música, de sorrisos e tolerância... virou barraco, arquibancada de futebol de várzea. Cadê aquela emoção de ver o casalzinho homo finalmente de mãos dadas, caminhando juntos, dançando, beijando e rindo com amigos de todas as escolhas? Ofuscada pela ignorância.
Espero que os gays dignos (são muitos) tenham o senso de separar o joio do trigo - não como um novo appartheid (a luta é justamente contra esse tipo de coisa) mas com a elegância de dizer "ei, aqui o objetivo é outro". Não tenham medo de parecer castradores, tolerar não é ser impassível. Espero que na próxima não se perca o foco.
Aos retardados, se souberem ler, uma sugestão: façam a Parada do Orgulho Imbecil, do Orgulho inconsequënte, do Orgulho Junkie, do Orgulho violento, do Orgulho Hiena que come bosta mas vive rindo. Só não usem como pretexto uma opção sexual que já tem inimigos demais - isso vai além, muito além das vossas mesquinharias pessoais. Muita gente lutou pra valer e morreu, das doenças do sangue e do ódio, para que agora milharezinhos de babacas pseudoliberais venham boicotar e cagar na batalha pela dignidade. Não desandem a meta nem transformem esse exercício político (sim, alegre, mas bem político) numa Micareta mal fadada, num Balbúrdiafolia, num mero Carnagay. Essa palhaçada não vale um Rimbaud, um Cazuza, um Oscar Wilde, um Ney Matogrosso. Não vale o AMOR livre que é o motivo maior da passeata.
Aos imbecis ativos e passivos que estragaram a festa, minha tristeza de não poder mandá-los tomar onde dizem gostar, apenas pra aparecer e não porque sabem o que querem ou quem são. Você, que adora o estigma porque "é fashion, é diferenciado e choca", limite-se à vossa incapacidade de destacar-se por algo mais que não o uso dos genitais. Hoje, muita gente digna que sofre com os dedos que apontam, com os comentários maldosos e com a repreensão injusta, sofrerão mais um pouquinho. Eu posso beijar minha amada numa padaria e eles, infelizmente não. Agora talvez demore mais um pouco até que esse dia chegue. Agradeço em nome deles, que se calaram pelo cansaço de serem postos no mesmo balaio que os montes de merda aos quais dirijo-me.
Parabéns por piorarem a situação, por alimentarem a incompreensão dos demais, por associarem uma imagem irresponsável ao que sempre foi, antes de tudo, um ato ético e civilizado.
Estúpidos. Vocês não valem o esforço.
Ninguém respeita quem não se respeita.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
• Inércias & refluxos
Os blogs estão parados mas as vidas caminham.
Será que este brinquedo afinal é como tantos outros?
Sofisticamos as ferramentas de sublimação. Tenho cá comigo que meus comentários nos blogs dos outros são melhores que meus posts aqui. Eu pensava que era apenas pelo desejo de interação, e nisso não estava totalmente errado - apenas parcial em medidas.
É gostoso e sem dúvida mais dinâmico criar em cima dos dizeres dos outros, o que reforça aquele papo de que as idéias não pertencem a ninguém.
Ainda assim nosso ego blogueiro quer ver mais comentários e caras diferentes a cada post, assim como queremos aplausos e elogios a cada nova criação, transformação e repaginada.
No fim das contas, a mesma velha sublimação, não é?
Quem vive o que sonha não precisa sonhar. Migra do sonho para a vida.
Já pensei isso um dia.
No momento não sei se estou pensando. Nisso ou em qualquer outra coisa.
***
"Será que a inspiração se alimenta apenas da dor?" - perguntou-me X, que parou de escrever quando curou-se de uma paixão. Já Z nunca curou-se de paixão alguma, mas hoje raramente exercita a instrospecção da poesia - antes, revisita sombras e publica velhos desesperos. Pudera, seu momento demanda a extroversão dos jogos eróticos do aqui, do agora. Y e W, a encher seus tanques, recompõem-se entre um silêncio e um espasmo. K luta contra seus controles tentando controlar-se e, quando relaxa, vocifera as volúpias de uma alma em transição.
E todos vão conseguir. Todos chegarão lá.
"Onde?"
No oposto de onde estão.
E eu aqui, a dizer dos outros porque de mim nada tenho no momento.
Mas chegarei lá.
"Onde?"
No oposto de onde estou (o que talvez signifique que em breve eu só diga de mim por nada ter dos outros).
Chega-se lá, queiramos ou não.
"A madrugada fria só me traz melancolia"
Na voz de Maria Bethânia



