Eu pensava que os blogues ficavam vazios quando as coisas melhoravam na vida do blogueiro. Era batata: blog parado? Podia crer que o cara estava namorando, a moça tinha arrumado um emprego, a senhora tinha recebido uma nova receita de fluoxetina e o senhor arrumado outra amante.
Pois vejam só como é a falseabilidade da metodologia científica, amiguinhos. Este incomensurável bem da sabedoria da humanidade que, como toda sabedoria, não lhe pertence, nos traz exceções à regra. Claro, falseabilidade não é bem isso, mas soou bonito e parece até que eu sei do que estou falando.
Após minha longa ausência, sentida por milhares de fãs perdidos no Triângulo das Bermudas de popeline do além, passei por alguns blogs e notei a velha matemática: o namorante, trepante e enricante dovarante não postam mais. Voltam brevemente, ao menor sinal de desequilíbrio na balança de usufrutos da vida humana, mas o que importa é que no momento se ausentam.
E eu, por que tão ausente?
Não sei. Por desgraça não é, graças. Os problemas sempre existem e dou atenção a eles na mesma medida em que não dou. Perdi meu avô, coisa e tal, mas isso na pior das hipóteses renderia um bom post. Essa desculpa não cola.
Eu podia dizer que perdi o tesão de postar, o que seria mentira porque é mais fácil eu perder a fome do que a vontade de falar mais que o hómi da cobra. Também podia dizer que o mundo virtual me cansa por que os temas do mundo são sempre os mesmos, dos quais fala-se e fala-se e nada muda. Não seria mentira, mas faltaria aquele agente egoista que define o peso maior de toda equação humana.
O fato é que eu não levo adiante nenhum projeto que começo e que demande muito tempo (não à toa minha rotina de trabalho é imediata e não se arrasta para além de um mês). Não consigo: mil e uma ideias sobrevêm à cuca e logo logo estou em débito com aquela história inacabada, aquele quadro jamais começado, aquela crônica sem final, aquele I.R. pra fazer... (e, pela sequência de escolha dos exemplos, dá pra ver como defino bem prioridades).
Coisa de brasileiro? Sei não. Mas acontece. E a gente nessa época maravilhosa tem à disposição todo um armário vip cheio de prateleiras, um verdadeiro shopping center de desculpas. Falta de tempo, por exemplo, ocupa um andar inteiro.
Mas não é bem assim: há tempo. Mal aproveitado, mas há.
Por que não damos conta do nosso tempo? Por que o perdemos com orkuts, com conversa fiada, com aquele programa de bicho do Discovery que já decoramos a narração?
Talvez porque estejamos cheios de tanto "preciso" e tão pouco "quero". Talvez porque o que queremos realmente não seja nada ligado ao dever, ao horário marcado, ao "tenho de". Talvez porque nosso tesão não esteja lá. E o mapa do tesão... ah, o mapa do tesão... esse, nenhum shopping center tem bem exposto no hall de entrada!
Uatéver, blogues tomam tempo. Mas não é, afinal, nenhum tempo além do que disponho para perder com outras tolices. E quem irá dizer que não há utilidade no inútil?
quarta-feira, 8 de abril de 2009
• Mais evidências da estupidez do blogueiro nº5
• Kaghanda Yan Dandha vos diz
"Vivemos tempos tão modernos que médium já baixa psicografia em PDF"
Kaghanda 10 Xenical 13Sri Swami Kaghanda Yan Dandha ॐ
em "Throcadilhanda Yan Dandha -
a Iluminação através da Infâmia" - 69ª edição
Editora "Para Gostar de L.E.R."
ISBN 0394583904-308
Kaghanda vos diz nº4
quinta-feira, 19 de março de 2009
• A coragem e bravura do esportista radical
Olá!
Sei que ando sumido daqui, por motivos diversos, entre eles alguns bons. Um é o que você viu acima.
Pode não parecer, devido à essa minha malemolência mulata e atlética da cor del pecado, mas eu adoro um esporte radical (só acho esse nome meio besta, mas não importa). Já havia feito alguns ao longo dos anos, como o curso de sobrevivência na selva nível I e II pela SAS (uma das experiências emocionais mais relevantes da minha existência, apesar dos percalços).
Fiz pela Scafo o mergulho autônomo (é, sou do tempo em que se chamava assim), uma das atividades mais apaixonantes nesse ramo da eco-aventura (o que me faz lembrar que preciso fazer o batismo e buscar o certificado da PADI).
Pratiquei tiro na ISA-Embel com 380 e .40 (e não pude fazer o de armas longas devido a uma portaria baixada na véspera, que limitava esse tipo de treino às Forças).
Enfim, me meti nessas coisas. E adorei.
Cá entre nós, não sou atleta, nem esportista, nem nada meramente assemelhado ao hábito saudável de evitar o sedentarismo. Mas, se podemos chamar de esporte um evento esporádico e exótico, então taí, tô nessa. Fiz natação dos 5 aos 18 anos e depois nunca mais pratiquei nada com regularidade, mas uma trilhazinha... opa, pode me chamar.
***
Há umas duas semanas recebi o convite de um casal de Amigos meus (falo mais deles num outro dia) para encarar uma aventurinha que há tempos passeava pela minha cuca. A inicialmente receosa Janaina (motivada talvez pela minha cinturinha de pilão) convidou-nos suavemente para fazermos Rapel num fim de semana desses. Papo vai, papo vem, Karin aderiu, alguns acertos de agenda e negociações na ONU e voilá, caímos na estrada para fazer o Voo do Falcão (a série de tirolesas do vídeo acima) e o Rafting, a boa e velha canoagem com 6 pessoas num bote, nos 8 km de uma corredeira nível 3/4 (a escala de dificuldade vai até 6).
Eu nunca havia feito, e meu olhar cresceu na hora pra esse lado. Havia também o cachoeirismo/canionismo no sábado, os três malucos foram. Mony e eu tínhamos um compromisso e ficou pra próxima.
Bom, pra encarar uma coisa dessas você tem de ter em mente duas coisas:
a) é pra divertir-se com a adrenalina
b) adrenalina só é divertida abaixo da linha do estresse
E foi justamente pra evitar o estresse que escolhemos uma empresa séria.
Parece exagero, mas não é: muito além da sua diversão, está em risco sua vida. 'Empresas' espalhadas pelo mundo oferecem todo tipo de serviço e se você não abrir o olho... bau-bau. Pra ter uma ideia, saiba que essa mesma amiga que foi conosco tinha pânico de água, agravado justamente pelo mau serviço de alguns desses picaretas espalhados por aí.
Então não era hora pra brincar. Ainda não.
Indicada pelo Zé Luiz, a Alaya mandou muito bem. Do atendimento simpático (thanks, Carla e Silvia) à execução, tudo perfeito. Os certificados e autorizações (coisa básica a se exigir de qualquer empresa do ramo) estavam lá, tudo certinho.
Mas o que não dava pra imaginar era o grau de profissionalismo dessa trupe. Nesses tempos onde você tem de vender ouro a preço de banana, me tornei exigente e quero ser bem atendido. Mas quando um prestador supera nossas expectativas, isso deve ser dito. E a Alaya superou.
Também pudera: só pra citar a equipe das corredeiras (por falta de 11, dou nota 10!), eles têm entre seu staff, simplesmente... os Campeões mundiais de Rafting! Sim, amiguinhos: eu nem sabia que os campeões dessa categoria eram brasileiros, quanto mais imaginar que teríamos seu know-how disponível.
Imagine caras que transmitem segurança, sem arrogância ou afetação, e que sabem exatamente o que estão fazendo. Que brincam na quantidade e momento certos (nada de piadinhas imbecis ou subestimar a véia, o gordinho etc - nada de gracinhas estúpidas, infelizmente comuns, como 'causar emoção' com movimentos bruscos para assustar apavorados etc).
Os caras não brincam em serviço: zelam pela segurança a ponto de, a todo momento, você notar com a visão periférica membros da equipe te rodeando nas margens, nos barcos e nos caiaques-batedores. Não havia um remendo no nosso barco, uma correia meio carcomida; parecia tudo comprado anteontem.
Quando chegou a hora de brincar, de cantarem as infames musiquinhas, já estávamos no ônibus a caminho da sede, molhados e satisfeitos. Eles sabiam que se brincassem assim ANTES do passeio, algum mala mau humorado poderia questionar sua seriedade. Isso é atenção aos detalhes, é tarimba de quem entende do riscado e tem experiência.
Quando o Paulinho, chefe da equipe, disse nas explicações iniciais que se algo de ruim acontecesse eles fariam o resgate em 45 segundos, pensei que fosse marketing. Depois do que vi, duvido até que aconteça algo ruim, mesmo que você queira (os suicidas devem escolher outra coisa, porque ali não dá).
O nosso instrutor, Marcelo 'Lafon', soube ser divertido e liderou sem fazer força. Foi sensível o suficiente pra relaxar nossa amiga em pânico sem fazê-la sentir-se como uma mongolóide (ou emendar cantadinhas idiotas - as meninas do nosso grupo são lindas e qualquer fulano menos profissional cometeria essa gafe). O resultado foi tão positivo que lá pro meio do passeio, num remanso, Jana pulou do barco pra curtir a água do Jacaré-pepira, em Brotas.
Preciso dizer mais?
Preciso sim. Descer uma corredeira com um salto de 2,50m é simplesmente duca!
Vou de novo, recomendo e digo mais: o preço dos caras, pelo que oferecem, é muito justo. Picaretas pela metade do valor existem, mas minha vida e meu barato valem mais.
(Mas não vão aumentar só porque eu disse isso, hein... :D).
Taí a propaganda mais que merecida.
Quem quiser encarar a aventura pode ir tranquilo com a Alaya (www.alaya.com.br).
***
Ah, um comentário importante: apesar da brincadeira no vídeo, é relativamente comum que ocorra o retorno na tirolesa (quando você cruza mas, ao invés de parar na estação de pouso, retorna para o meio do cabo de aço e fica suspenso). Eu já havia feito antes e sabia disso (só não fazia ideia de como me resgatariam dali, porque quando fiz da outra vez mal passava de 10 metros... e ali eram 50!). O rapaz não soltou o cabo de frenagem de propósito, apenas escapou de suas mãos porque precisava simultaneamente manter o cabo preso e buscar-me na rampa. Como eu estava segurando a câmera numa mão e a faixa da cadeira na outra, não consegui segurar também e retornei. Foram longos minutos de puro cagaço mas cá estou eu são e salvo. Pode-se questionar o procedimento nesse caso, ou mesmo recomendar um alerta específico sobre essa possibilidade na apresentação inicial (quem não conhece poderia entrar em pânico, ficar histérico e dificultar o resgate), mas no meu entendimento isso não depõe em nada contra a empresa. Tanto que pretendo retornar muito em breve (aos cursos, não ao meio do cabo hehehe).
Agradecimentos especiais ao Jean-Claude, líder da Alaya em Brotas, que foi extremamente solícito em suas respostas.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
• Médica de Alma
A gente reluta muito com as novidades, não é?
Claro, não com as boas. Ou pelo menos com aquelas que demos o devido tempo para que mostrassem a que vieram. Sim, porque a gente quase nunca olha bem pras possibilidades, mais pelo hábito e pela desconfiança com todos os marketings que invadem nossas vidinhas do que por bem avaliá-las.Pra ilustrar, digo que fui pela primeira vez num psiquiatra. Ou melhor, numa. Eu não me considero a última bolacha do pacote, mas até que tenho um básico de cultura pra saber que psicólogo e psiquiatra não são coisas pejorativas. Mesmo assim, relutei. Menos pelo clichê e mais pelo receio em falar.
As máscaras são fáceis: você liga o botão e os sorrisos saem até quando a alma está numa escala de azuis. As piadas brotam como um placebo pra esquecer da joenete no pé da alma. Falar de si é difícil, principalmente pra desconhecidos e mais ainda pra desconhecidos pagos pra te ouvir.
Eu sempre achei que havia um componente patético nessa relação, mas é fato que não há outra via. Uma vez que desaprendemos a conversar conosco e os bons amigos ouvintes de nossas lamúrias cedo ou tarde darão suas opiniões pessoais, o jeito é apelar pro profissional. Há quem não concorde com isso, mas se você pensar que seu amigo pode ter uma outra visão sobre você (em geral, a que você não quer), te julgar (isso, mesmo sendo amigo - gente comete erros com a melhor da intenções) ou seja lá qual for o caso, dá pra considerar melhor a outra hipótese. Foi o que aconteceu comigo, cansado de importunar quem gosto com as minhas manias e conversas subjetivas demais na hora do 'vamovê'.
Tomei coragem, marquei a hora e pumba, apareci. E olha que oportunidade de não ir não faltou: dia marcado errado, melhora no humor, coisa e tal. Mesmo assim, teimei.
Parece grande coisa, mas não é: nesses dias todos aguardando a consulta, cara pra diabo (dos que vestem Prada), imaginei mil discursos, argumentos e diálogos que uma mente mediana é capaz de produzir pra se proteger. Até chegar ao ponto onde pensei "vou dizer o quê?" e partir pro "o que sair, saiu" foi uma caminhada e tanto.Os motivos. A gente sempre tem motivos pra cuidar do órgão mais estressado e maltratado de todos. Você vai umas 300 vezes no clínico geral, umas 400 no ginecologista e umas 50 no ortopedista. Mas vai no neuro só se desmaia ou treme, se viu na novela sobre coágulo no cérebro e encucou ou se foi achar sinusite em ressonância. Tratar a alma, Psiché, é algo relegado ao último plano, logo atrás do cisto cebáceo.
Médica de alma. Foi com essa frase que a psiquiatra me ganhou. Não é bom ouvir de uma representante dessa classe, que em sua maioria trata a mente como um subproduto de uma bioquímica idiota, auto-entitular-se assim de forma tão franca?
Foi um prazer. Quando ela disse isso eu notei que o negócio dela era software. Nada de remedinhos pra te deixar no piloto-automático sem sentir coisa alguma. O negócio ali é o ScanDisk. É o que eu queria. E é por isso que esse assunto vai aparecer por aqui mais vezes (ou tão logo eu tenha 180 Reais pra próxima consulta).
Pronto. Agora vocês poderão dizer, com toda a propriedade, que o papo desse vosso amiguinho é bem loko.


