Isso aqui tá empoeirado (ou você entendeu que eu chamava o ex-secretário geral da ONU?).
Perdi a mão com esse blog. Perdi a mão com muita coisa e me baguncei. Não por desleixo nem por desatenção ou desinteresse. É que, às vezes.... a gente perde a mão mesmo.
Talvez fosse (seja?) só uma fase, ou talvez eu ainda me engane ao colocar-me na fase onde ainda se acha que existem 'fases'. Só não posso dizer que essas férias de mim em nome de Mim tenham sido ruins. Pelo contrário. Nesses tempos pude ouvir os ecos do mundo externo bem aqui dentro, sem a cacofonia de meus pensamentos e sempre-ter-de-dizer, e de prestar atenção até mesmo aos silêncios que não deveriam existir, mas que existem e dizem muito. Porque isso necessariamente leva à mudanças, preferencialmente àquelas das quais ninguém gosta.
Mas algumas são boas: descobri, por exemplo, que meu vício pelo cigarro é majoritariamente psicológico. Descobri também que, ao contrário do que imaginava, vícios psicológicos podem ser mais nefastos que vícios químicos. Geradores de ansiedade e minadores da força de vontade podem deixar um rastro de caos maior do que uma enfisema.
Descobri que torcer pelo futebol é como torcer pela vida: é ótimo acreditar mas eu prefiro ter certeza. E, na falta, vale entrar na brincadeira pelo mero exercício. Foi bom comentar, xingar e acompanhar tão somente porque era importante xingar e comentar, por escolha e compartilhamento. Um novo sentido pra uma faceta tão pouco explorada da minha vida, a de torcedor esportivo rodeado pela família.
E por falar em família, descobri que o que a torna tão maravilhosa é que temos de nossos parentes uma distância e um abismo tão grande quanto em relação a qualquer outra pessoa, mas nela somos compelidos a criar pontes com mais verdade uma vez que nos damos conta do que Família pode significar. Mesmo que seja apenas um horizonte.
Estar só e acompanhado simultanemanente é surpresa constante mesmo em quem já viveu demais (o que não é o meu caso). Você se pega cercado de pessoas que estão e não estão - logo, na mesma condição sua. Mas estarem ali, ainda que pela metade, ainda que só no possível, faz toda a diferença. Para além das comodidades, para além da complicidade de interesses pragmáticos e demais motivos nunca-suficientes para justificar que, sim, meramente nos cercamos uns dos outros, como porcos-espinhos buscando um abraço... bem cuidadoso.
Meu estômago, operado após cerca de 10 anos de tratamentos não-invasivos, foi invadido élo bisturi e mostrou-se mais guerreiro do que pensei. Mas tudo bem, nada demais, pensamos sempre em tosca medida quando tentamos avaliar quão frágeis e fortes realmente somos. E se eu erro na avaliação de uma bolsa de alimentos e ácidos, que dirá dessa máquina de sonhos - e avaliações falhas - que teima em escrever num blog de mão perdida...
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Cof Cof
domingo, 9 de maio de 2010
Ironias da ciência - parte XL
(ou "Porque eu adoro morder a língua")
Você que se importa somente com o que faz diferença na sua vida pode não ter notado, mas uma recente notícia fez alguma na minha. Segundo os dados preliminares de uma recente pesquisa, os europeus e asiáticos têm partes de DNA Neanderthal (entre 3 e 4%). Tal informação vem do mapeamento genético (se não me engano, de 2/3 até o momento) dos Neanderthais (basicamente, os Bussundas das cavernas), primos primatas extremamente próximos a nós (e, como você vai ver - se interessar - mais próximos do que se pensava).
Tá. O que isso importa?
Bom, primeiro e mais importante: devo 50% de cerveja pro Marião, meu amigo romântico que ainda crê na humanidade. Devo porque sempre discutimos muito sobre esse tema nos nossos "exercícios de papo furado" (como talvez dissesse Samuel Klein).
Mario queria acreditar que havíamos cruzado com os primos, que algo deles viveria em nós (ele sempre simpatizou com as primas, afinal). Já eu sempre achei que não passávamos de descendentes de assassinos puramente sapiens, e que entre nossas vítimas estariam esses mesmos primos Neanderthais. Por que? Ora, um mix de pragmatismo de empirismo: se somos xenófobos com a nossa própria espécie, imagine com outra! Não vou me estender sobre o tema, é ponto-pacífico que conflitos étnicos foram o mote dos últimos séculos.
Essas eram nossas desculpas, nossa manta lógica sobre nossas paixões e nossas releituras para os fatos. Mas o interessante da ciência recai bem isso: independente do que você gostaria, do que você queria acreditar ou provar pelo viés, os fatos são os fatos. Podemos distorcê-lo conforme nossa mentalidade na época, é claro, e nisso se baseiam as discussões infindáveis dos sociólogos sobre "o que é fato de fato". Ainda assim, em ciência, se 2 + 2 = 4, fóquior célfi se você queria que fosse cinco. O que é ótimo.
Tão ótimo, aliás, que o sueco chefe das pesquisas, Svante Pääbo, defendia exatamente o ponto de vista do não-cruzamento até o ano passado, ainda mais depois das pesquisas de 2007, mas não cometeu o erro clássico de prender-se à crença diante dos fatos que apurou. Esse tipo de atitude que Svante sabiamente evitou, e que infelizmente é muito mais frequente que o máximo tolerável (zero), atrapalha e muito a expansão do Entendimento, seja em qual área for.
Ponto pro Marião. Mordi a língua e pagarei os 50% de cerveja com muito prazer.
* Mas só 50%, afinal nenhum de nós estava totalmente certo: traçarmos uma parte deles não significa que não matamos a outra, ou seja, o cruzamento pode significar que além de assassinos fomos estupradores! As pesquisas são preliminares e "afirmação categórica e definitiva" não é algo que exista no dicionário da ciência duradoura, mas vamos às cervejas mesmo assim.
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Segundo, as implicações.
Entende-se, por exemplo, que europeus e asiáticos SÃO genéticamente diferentes de africanos puros. Então...
Quer apostar que num piscar de olhos grupos racistas vão aproveitar o ensejo?
Preparem-se para pérolas como essa: "se temos 96% do nosso DNA idêntico ao dos chimpanzés, mas temos entre 3 e 4% dos genes de Neanderthal (que os africanos não herdaram), então temos 4% de diferença genética dos africanos, assim como dos chimpanzés". Não seria uma novidade histórica, já que justificam seu ódio com pseudociência desde os tempos de Darwin (ou do Nietzsche e até da picareta da Madame Blavatsky).
Mas nem tudo está perdido porque, ao mesmo tempo... não é irônico que Hitler tenha defendido a pureza de uma raça formada justamente por miscigenação? É isso mesmo! Somos nós, e não os africanos, os mestiços (e com uma raça que sequer chamaríamos de humana, a julgar pelos hábitos que temos entre nós mesmos). Chupa, Führer!
Claro, ninguém vai levantar a lebre de que, se puséssemos um terno-e-gravata num Neanderthal e soltássemos no Tucuruvi, por exemplo, ele seria assaltado como um ser humano qualquer.
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O importante da história é que, independente do que as pessoas farão com os dados, cabe à ciência apresentá-los. Verdade consome-se como verdade; quem regurgita polêmica é a nossa boca. A moralidade e, mais ainda, a Ética são nossas obrigações e nenhuma mentira ou verdade oculta se justificaria apenas porque os ouvidos de alguns permanecem crus.
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Outras tantas implicações surgirão além das muitas que poderemos imaginar. Mas nenhuma tem sido, até o momento, mais divertida do que pensar no dia em que tomarei umas cervejas 50% pagas com o Marião, enquanto observaremos ruivinhas neanderthais gostosinhas pelo bar (sob o mero prisma antropológico, óffi córse).
P.S. para a patroa: Se eu chegar bêbado e disser "Hoje eu tô com a macaca!", releve.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Oh sim, im live!
Não é que este blog esteja morto, longe disso (tá, não tão longe). Mas desde o começo do ano estive imerso no incrível mundo das coisas que não avisam quando vão acontecer e que acontecem em sequência. Computador que vai pro vinagre, dinheiro que também vai pra lá pra comprar outro, cirurgia de emergência (se fosse grave eu não estaria aqui, portanto), viagens de última hora, casamento...
ops, casamento? É, pode-se dizer que sim... estou a morar com a patroa desde janeiro (comecei 2010 já adestrado!) e acertar todos os ponteiros leva tempo (se é que um dia acertam-se todos). Mudança de casa, hábitos, tralhas... ufa, cansei só de lembrar.
Esse é meu meio chantagista de convencê-los de que não vos abandonei: apenas estou de licença por tempo indeterminado e, convenhamos, absolutamente compreensível. E, enquanto eu não volto, que tal rever os melhores momentos desse blog? É, eu sei, você tem razão... então reveja os momentos menos ruins desse blog, estã cheio de postagens ali do lado direito, tudo tão simples e acessível que até vocês conseguirão!
Um abraço e não sofram, pois eu volto.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Pra encher os olhos (e a cuca)
Não sou muito de tietagem, mas o que é ótimo merece ser dito. Já comentei aqui do Gilmar e do Seri, dois tremendos profissas na arte de dar vida ao grafite e à celulose. Se você gosta de charge, caricatura e ilustração, precisar dar uma zapeada nesse blog: é o Lápis, Papel e Fernandes, página que reune alguns dos excelentes trabalhos desse profissional, que é sem dúvida um dos maiores do Brasil e do mundo.
Não fustigarei vosso saquinho desfiando o currículo gigantesco desse cara; quem se importar com isso pode conferir no próprio blog. Ao invés disso, deixarei aqui uma pequena historinha.
Sabe aquela pessoa que um dia você viu, ouviu ou conheceu o trabalho, cujo impacto foi tão grande que mudou toda a sua vida? Então, Voilà.
Desde bem pivete eu era apaixonado por desenho, ilustração, imagem, o lúdico. E aqui onde eu morava havia um suplemento infantil do jornal local que eu adorava, cheio daqueles pinta-pontos, liga-pontos e muito, mas muito desenho. Um dia o caderninho sofreu uma revolução visual e os novos desenhos pareciam saltar da página de tão vivos. Pronto. Foi a primeira vez que admirei o trabalho de alguém a tal ponto que quis saber, por mim mesmo, quem o fazia. Pra alguns foi o Maurício de Souza, pra outros o Disney; pra mim foi esse cara que, pelas mágicas da vida, décadas depois, é hoje meu vizinho de baia aqui na Redação, onde fazemos esses mesmos suplementos.
O mundo dá voltas interessantes, não é?
Eu não podia querer melhor. Onde mais eu poderia ter tantas aulas de profissionalismo, postura e humildade?
Lápis, Papel e Fernandes - clique aqui
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Se você chegou aqui via Google procurando trabalhos de cartunistas, aqui vai uma dica que dificilmente vai ler em outro lugar: o melhor de aprender com as feras não está em passar o dia falando de técnicas, concursos, materiais ou dinheiro. Isso é bobagem. Ninguém fica falando como você deve desenhar, quanto ganhou num livro tal ou "abrir las portitas de lo mercado". Não acontece.
É aprender que dinheiro, como tudo mais, é consequência do exercício de um olhar vivo e de mãos treinadas à exaustão, de confiança no seu estilo, de amor ao que se faz apesar das pressões externas. É jamais esquecer que um ilustrador é feito de suor, tinta e dignidade. E, principalmente, que ser professor de verdade é ensinar sem pretensão, é jamais se postar como um dos muitos marketeiros e mercenários com seus séquitos e esquecer que artistas não têm discípulos e sim amigos.




