quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Fox in my home

"Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras. Mas, se criarmos laços, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo"
A. Saint Exupéry




Sempre fui um bunda mole com bicho, desde criança. Daqueles que salvam mosquitinhos no box pra não se afogarem com o chuveiro ligado, sabe? Bem desses. E é assim, com corações moles, que boas histórias começam. Aquelas raras, tão boas de contar quanto de viver. 
Ainda me lembro do começo de tarde chuvosa que nos trouxe até aqui, um intervalo no aguaceiro daquele janeiro. Voltava da padaria com meu amigo Claudio (e amizade é sempre a tônica do que importa na vida) pela escura rua de sua casa quando vi aqueles passinhos tímidos, cabeça baixa e olhar perdido na minha direção.
Era uma raposinha. Uma daquelas que você bate os olhos e sem conferir os documentos já sabe que é fêmea. Trocamos olhares e ela veio, com uma certeza que só criança e bicho podem ter. Agachei-me e troquei com ela o primeiro dos muitos carinhos no fim da coluna que tanto adorava. Tá com fome? Quer um pedaço de pão? Pão é mancada, né, mas não tenho um bife aqui. Tá, ok, agora... vai.

Eu estava na idade onde começamos a endurecer. Não pela fibra adulta de quem faz o que precisa ser feito, mas pelo desejo de parecer sólido. Pensei naqueles olhinhos ali, tão imensamente meigos quanto eram grandes os motivos para não levar mais um cachorro pra casa. Pensei, pensei, pensei em tudo isso enquanto ela caminhava ao nosso lado. Entramos. Ficou para fora. Por trinta segundos. Enfiou-se pelo portão, atravessou a grade e pronto, novamente grudada em mim. Estava definido. Ponderei por longos e importantes vinte segundos que ela teria uma nova casa. Provisória, claro, afinal podia ter se perdido e alguém bem deveria estar bem triste com a ausência de um bichinho tão doce, tão lindo e tão fundamentalmente meu. Meu.
Telefone. Oi, mãe. Vou levar uma menina pra você conhecer amanhã. Você vai adorar. Desconfiança, beijo, tchau.
Tentamos dormir. Tentamos. A raposinha pulava, chorava e arranhava a porta do quintal tentando entrar. Maldita hora, coisa e tal. A gente sempre diz isso das malditas horas que deixam saudade.
Dia seguinte, vou pra casa e minha mãe me recebe com a menina no colo. Não, não quero, desse jeito vamos ter de sair pra caber mais um bicho aqui, não dá pra trazer todo cachorrinho que a gente vê na rua e ela é tão linda, será que está com fome? Olha, bebeu todo o leite, nossa que fedida, está com pulga, vou dar um banhinho nela e preparar a caminha. E foram 16 anos de banhos. 16 anos de leite.

Jamais responderam os cartazes no bairro. "Raposinha encontrada" não merecia mesmo resposta porque não era verdade. Correto seria "Raposinha reencontrada, finalmente está com a família, Fiquem tranquilos".

Batizada como Siouxie, um nome difícil dado por um teen curtidor de gothmusic para complicar a vida dos parentes. Siouxie, vulga Xuxinha, Chípis e o que mais meus avós conseguissem chamar. Ela vinha, sempre vinha. Descobrimos no veterinário que tinha aproximadamente quatro meses. Conviveu com Apolo, meu primeiro viralata, cujo nome era irônico demais para um cão mais feio que bater na mãe por causa da janta. Chegaram a cruzar numa escada nada romântica, mas foi efêmero: ele morreu pouco depois e veio Scooby (um nome originalíssimo para coroar o fracasso de minha iniciativa roqueira versus o talento do meu pai para apelidar qualquer coisa). Scooby (ex-Bowie e então "Cube") foi deixado ainda filhote por alguém (que provavelmente sabia o naipe dos corações-de-manteiga que ali moram) na garagem de casa e foi rapidamente adotado por Siouxie. E tanta era sua vocação de Oxum que com ele, tempos depois, teve cinco filhotes nascidos em casa. Tornava-se mãe enquanto minha mãe tornava-se avó (e parteira com amplo know-how). Essa mesma Siouxie, mãe de filhotes lindos que foram logo adotados, tornou-se avó de oito por uma das duas filhas que ficaram conosco. E assim formou-se a matilha que adotou meus pais. Um macho, quatro fêmeas e uma raposa, a matriarca, status que ela sabia usufruir.


Com as filhas
Matilha reunida
Siouxie era libriana, assim coquete, meiga, manhosa. Um tanto elitista, fresquinha até, desfilava pela casa com o rabão desfraldado. Completa e irremediavelmente grudada em minha (nossa?) mãe, de quando chegava até a hora de sair. Acompanhava no quarto, na cozinha, no banheiro. Aos poucos passou a dormir dentro de casa, depois no quarto em sua almofadinha VIP. Adepta da etiqueta, aprendeu sozinha a urinar no jornal. Visitava brevemente os parentes no quintal e retornava pra dentro, pra Sua casa, onde vivem as pessoas (como ela), numa rotina apenas quebrada pelos 'ões'. Rojões e trovões, como aqueles que tornavam todo Ano Novo um pesadelo, como aqueles que provavelmente fizeram com que fugisse de sua casa original num janeiro chuvoso, como aqueles que fizeram com que fugisse da nossa casa também, num descuido.

Foram semanas procurando nas ruas, pelas guias. Não esperava encontrá-la viva, afinal. Uma bobinha que parava atrás do carro quando estávamos de saída certamente não sobreviveria à avenida agitada onde morávamos. Procurávamos pelo corpo, em rondas noturnas de um lado ao outro dos bairros de cá da Avenida dos Estados (para os lados do centro sequer pensamos em ir; sobreviver a seis pistas de trânsito não parecia realista) até rarearmos as buscas. Papéis pelo bairro, alarmes falsos e esperanças minguantes.
Um dia Claudio, aquele Claudio, ligou-me no trabalho. Estava no tróleibus e viu um cachorro parecido com ela, lá na Pereira Barreto. Do outro lado da cidade. Quase em São Bernardo. Tá. Tá bom.
Pulga atrás da orelha. E se? Vamos lá. Cheguei naquela mesma rua onde a encontrei um dia. Deixa o carro aí, Denis. Onde eu vi é logo ali. Fomos até o local e já na esquina vejo uma raposa com um lenço no pescoço. Pulguenta e suja mas ainda cheia de pose ela correu pra mim, rabinho ligado no 220V.


Living la VidaLoka
Três meses depois de sumir ela estava de volta. Sã e salva. Três meses de vidaloka nas ruas. Chegara duas semanas antes no posto de gasolina onde a encontramos depois e prontamente adotada pelos frentistas. Ali confraternizara com os demais condomínios de pulgas e compartilhara com eles os restos de marmita dos seus novos anjos-da-guarda.
Foi uma negociação difícil. Os frentistas aceitaram, disfarçaram o choro e despediram-se. Entendo bem o que sentiram. Dei-lhes um engradado de Itaipava e uma foto dela dias depois. Antes disso, porém, eu tinha um outro coração pra aplacar.
Oi mãe, vou passar aí no seu trabalho... preciso te mostrar uma coisa.
Minha avó havia morrido pouquíssimos meses antes e, para minha mãe, a sensação negativa pairava sob qualquer notícia, por antecipação. A sensação durou até chegar ao portão. Cheia de lágrimas veio correndo até o carro e mal esperou que eu abrisse a porta. Pela janela enchia de beijos sua raposinha re-reencontrada. Ironia das grandes achá-la a poucos metros de onde nos vimos pela primeira vez. Poucas vezes fiquei tão orgulhoso de nós todos e ou tão grato ao Claudio.
Amizade é mesmo a tônica do que importa na vida.

Tempos depois a raposa fugiu novamente, pelo mesmo trovão que a fez arriscar-se anteriormente o pulo de um muro alto. Reencontrei-a novamente, dessa vez no próprio bairro. Vivinha. Não sabia mais se era um cão, uma raposa ou o Highlander.
Em maio, pós-cirurgia aos 16 anos
Felizmente foi a última vez. Era isso, chega de vida boêmia. Siouxie aposentara-se com uma vida pacata ao lado dos netos e das filhas, as quais lambia as orelhas até semanas atrás, como se ainda fossem filhotes.

Recompôs-se bem, a ponto de saltitar pelo corredor naquelas semanas pós-cirurgia de extração do câncer, onde foi castrada e mastectomisada, numa incrível recuperação para quem tinha 16 anos, catarata, boca semi-banguela e um bom saldo de histórias pra contar.
Última foto - 15h00 de hoje.
Vinte dias atrás adoeceu. As patas traseiras e o rabão vermelho de ponta branca já não se moviam. Quinze dias de medicação sem melhora e hoje, no veterinário, pensávamos em qual das tristes decisões teríamos de tomar quando, às 15h30, Siouxie deu seu último suspiro nos braços de minha mãe.
Junto de nossa mãe.
Por si. Por nós.

Só perde quem teve. Só deixa saudade o que vale a pena.
Obrigado pela enorme perda, minha raposa.
Obrigado pelos Amores, pelos filhos, pelas histórias.

Você é a única responsável por tudo o que cativou.
Uma honra ter você na memória. E no coração.

Adeus, irmã querida.



Set/1996 - 13/Set/2012 (15h30)

4 comentários:

Gabs disse...

Não sei nem o que dizer, Denis. O texto me levou às lágrimas.

Um beijo.

웃 Mony 웃 disse...

Sinto muito, imensamente, de todo meu coração, por tudo que ela foi e significou a ti e também a mim. Aquela eiguice em vida, aquela manhosinha carinhosa e cheiade dengo vai fazer uma falta danada. Afe! Ainda me lembro dela com as duas patinhas na minha perna pedindo carinho assim que chegava... Mesmo bem debilitada ela ainda vinha do mesmo jeito, com a mesma meiguice nos olhos já embaçados pela catarata. Só me resta uma dúvida, será que ela vinha pedir ou dar carinho?!
Generosa e doce que era, deixava a gente pensar que dava quando na verdade, recebia... (suspiro)
Dói e é gostoso pensar nela. Doçura, foi uma honra. Obrigada, onde quer que esteja!

teste disse...

Já me identifiquei com o " Daqueles que salvam mosquitinhos no box pra não se afogarem com o chuveiro ligado", pois sempre fiz isso e me sinto bem melhor sabendo que eu não era a "Super heroína das borboletinhas de banheiro". Eu tive cachorros que duraram anos. Lembro de uma que eu tive a infelicidade de encontrá-la morta na rua de baixo de casa, o veterinário disse que foi morte natural, e disse inclusive que os cães pressentem quando vão deixar este mundo, sendo assim eles procuram uma maneira de morrer longe do dono, para não deixá-lo triste. é aquilo que você escreveu, só quem teve sabe explicar a emoção e a dor que sentimos ao perder um animal tão querido. E eu fico horrorizada quando conheço pessoas que não gostam de animais, e sempre me pergunto: "Tem como isso?".
Abraços,

Jorge Ramiro disse...

Eu também me indentifico com a foto. Agora estou de férias, então eu construí para meu cão uma nova casinha para cachorro, porque a outra já era muito pequena.