quarta-feira, 8 de abril de 2009

• "O sabor da brisa de Champs-Élysées no outono"


Tem algo pior do que um Enochato?


Tem sim. Dois.
Essa supimpa categoria do esnobismo tem proliferado com uma força tremenda, quase tão rápido quanto o número de romelés americanos (que atualmente concorrem para saber quem tem a barraca mais transada no acampamento de hipotecados). Mas o enochato, ao contrário dos homeless, dá mais trabalho pra resolver - ainda que também seja um problema que ninguém sabe como não se pôde evitar em tempo. Não, amiguinhos, nenhum Obama miraculoso pode saldar as dívidas do enochato para com os nossos saquinhos. O enochato, como um câncer de esôfago, surge pra incomodar sem o benefício de inutilizar a língua, o que nos faz pensar que até o tumor evolui, menos ele.

Este é o mais firme expoente da velha vanguarda do pedantismo, seguido de perto pela categoria dos gastrochatos. E o pedante é algo complicado: depende de um semancol subjetivo, que não define em termos claros o que é de bom tom e o que não é. Você "sente" o pedante antes mesmo de entender. No entanto, a falta de referências não serve como desconto: o que é abstrato torna-se imediatamente concreto tão logo surje, brota e fervilha do nosso algoz - e nem precisa de contexto; aliás, quanto menos, mais fértil o terreno. Nessas horas, embora tenhamos plena noção de que há muitas coisas mais importantes, todo o nosso foco fixa-se naquele rapagote garboso, sentindo-se o Ó do forrobodó ao cambalear sua tacinha de caldo de uva entre os pares, que orbitam ao seu redor como anéis de Chaturno.
Reconheçamos: o Enochato chega a ser mais chato que este blógui.

Sejamos justos: um sommelier precisa (e sabe) avaliar vinhos - a maioria é paga pra isso. Há também bons enófilos que curtem todo o barato da coisa e não poupam esforços pra achar o melhor tom para o seu paladar. Nenhum problema em curtir um bom vinho. Pelo contrário: venho de família italiana e, não bastasse, tenho uma gastrite que seleciona vinho pelo grau de queimação. Gosto do negócio tanto quanto possível, sem frescuras. É ótimo você provar algo de qualidade, perceber como seu paladar se treina e percebe novos sabores, o calorzinho bom na bochecha, não encarar ressaca etc.

Mas...

Achar aroma de brisa de Champs-Élysées no outono numa porra duma taça de vinho é o ápice do lazarentismo recalcinofolejante!

Repare um dia, num desses programas de TV do tipo "ejacule com o falo alheio" e perceba O QUE os caras encontram no vinho. É supimpa: vão de nódoas do mosto do colostro de uma virgem dos Bálcãs ao sapore de uma caminhada pelo penedo de Vicenze ao entardecer ou a crepitância do Luar de Montenegro refletido na baía de Saint Tropez em abril.
Olha... torço para que encontrem um dia o suave sabor da gonorreia de mamãe. Porque só falta isso.

Gente... sou só eu ou alguém mais acha que o máximo que um picareta desses poderia encontrar ali seria o sabor de algo comestível? Algum aroma da madeira do tonel, algum tempero, um fungo, um tipo de uva, algo assim... mas... porra, aroma de entardecer? Tanino trufado com sovaco de Chinchila e fibra de amianto, nada, né? U-lá-lá.
Não é licença poética, porque esta é reservada aos poetas e não se concede a qualquer pelego, mesmo que tenha entre seus dedinhos sacolejantes uma taça cujo preço seja algo em torno de 200 euros (a primeira e mais importante coisa num vinho, claro). E, se fosse concedida, aí o agravante recairia sobre o péssimo mau gosto que o suposto degustador de vinhos tem em degustar palavras.

Ó-quei, continua subjetivo. Alguém pode dizer que isso varia muito, que falar de vinhos que custam milhares de dólares só ofende a quem se importa que outros passem fome, no que concordo. Fica realmente difícil pro enochato - que já era um chato antes mesmo de provar o primeiro goró - encontrar parâmetros.
Tentemos então definir os sete cabalísticos caminhos de ouro, em busca do perfil do Enochato quase-perfeito (considerando-se que perfeito mesmo só seria se morresse em silêncio):

A primeira característica do enochato é que ele bebe para os outros.
É isso aí: só bebe com plateia, senão bebia Sang de Boá mesmo. O ritual, o enfadonho e redundante ritual consiste em rebolar la tacita com dois dedos, reparar na viscosidade aderida ao copo, no odor dos bosques, na transparência, no copo do amigo, naquele cara da Fiesp com quem ele conversa... tudo, TUDO menos calar a boca, parar com a pose e curtir o tal prazer que o gosto e a chapância inerente ao mé propiciam.

A segunda: não importa o lugar, toda hora é hora.
Nada de reunir-se em vinícolas próprias para isso, ou numa roda de amigos em frente à lareira - que tem em casa e quase nunca usa - ou numa festa que jamais deu porque mancharia a chaise longue. Vinho não é bebida e confraterninação, é cartão de visitas! O Enochato convicto aproveita o batizado do seu filho pra perguntar pro padre se o vinho da missa é trufado com nódoas de carvalho. Aniversário de 1 ano do sobrinho? Belezura! Ele vai girar, cheirar e olhar contra a luz até a mamadeira do guri.

A terceira: neguinho nunca sente o aroma da madrugada em Atibaia.
É sempre um entardecer em algum point parisiense, suíço, primeiro-mundista, chique-benhê. Não importa que Londres fede a mijo de ale e fuligem - é melhor do que Paraty porque afinal é na Zorópa.

A quarta: enochato que se preza emenda outros ícones do bem-viver na sequência - nunca se sabe quando o vinho sairá de moda! São 4 mil anos em voga, mas de repente...
Pode ver: o bon vivant terá em sua geladeira um super-queijo maltado da glânde do Zebu das Estepes, um top chocolate escalafobético com guano de morcego, ovas de esturjão albino e lichia desidratada, bem como em seu bolso um estratégico cachimbo de raiz de roseira ou charuto enrolado nas coxas do João do Pulo, não importando se a mula proprietária não saiba não tragar, muito menos se fede pra chuchu. Ele não é um fumante: é um apreciador das boas coisas da vida que pretende narrar cada baforada, enquanto quem gosta de fumar ocupa a boca apenas fumando. E o bom enochato consome tudo de uma vez, sem confundir seu nobre paladar.

Quinta: um enochato sempre tem uma adega climatizada que jamais abre, senão para visitação pública. Aí reside a incoerência: um hedonista que se preza manda às favas todo tipo de precaução (ou avareza) e cai de boca nos prazeres. Sabe como é... carpe diem et correlatos - menos pro enochato. Se todo lugar é lugar, nem todo momento é pretexto. A gente bem sabe o que o faz devolver uma garrafa de vinho no restaurante, supostamente porque não está do seu agrado - resumindo, dá umas goladas, dá xilique, devolve e discorre sobre. Não, meus colegas: o enochato jamais "gasta" uma garrafa sua. Bebe dos outros - e bota defeito. Ignora completamente que levar o convidado para ver um rótulo empoeirado equivale a mostrar a calcinha que a filha vai usar na lua-de-mel: o visitante NÃO vai sentir o gosto, é só pra imaginar que alguém um dia botará a boca ali.

Sexta: um enochato convicto sabe (o) que você não sabe. Ele precisa disso para completar a encenação esnobe com máxima eficiência. Se você conhece a Europa, ele vai sentir a pujança da brisa de Vanuatu. Se você conhece Vanuatu, ele vai sentir as neblinas lúgrubes de Jupiter. O que importa é você dizer Oh ao final. A dica é dizer antes, pelo interfone, logo que ele chegar.

Sábado, digo, sétima: não importa quão bom seja o vinho que você oferece: ele conhece um melhor. Quer fodê-lo? Ofereça direto na taça, sem mostrar o rótulo. Quando ele perguntar, mande-o adivinhar. Aí nasce a saia-justa do enochato: ou ele assume que não manja porra nenhuma, ou chuta um palpite que pode depreciar o vinho e ofender o anfitrião... ou então terá de achar a brisa de Hapa-nui Setentrional ali mesmo no seu Almadén. Em todos os casos, os planos de pagar-de-gatão vão por água abaixo.


Com estas mal traçadas linhas, espero ter ajudado meus milhões de leitores a evitar esse mal do milênio. E assim despeço-me, pois vou sentir a adorável maciez do úbere da vaca Mimosa que deu o leite do meu Toddy numa manhã de orvalho.

11 comentários:

Cris disse...

KKKKKKKKK Adorei!!!
olha:
http://portalexame.abril.com.br/servicos/vinhos/m0119352.html

beijuss

A Moça disse...

hahaha excelente manual para identificar enochatos. Vou enviar esse post para um 'cêrumano' que conheço. Cai como uma luva! :D

웃 Mony 웃 disse...

Todo ser vivente que só fale num assunto e principalmente de uma maneira que só ele entende, fora do horário de expediente (e mesmo assim sempre há espaço pra falar de outros assuntos) é chato, irritante e, euzinha faço o que possível for para não estar perto.
Coisa mais desagradável.
Adorei o texto, sabia que o tema renderia muito segundo tua ótica e esse teu humor...

Karin disse...

hahahahahahahahahaha, que saudades de te ler, Denis! :D

Realmente, vc deve ter tido um encontro imediato de terceiro grau com um desses caras... rsrsrsrsrs

Eu ouvi de um enólogo ex-vizinho meu que no final do curso deles havia um exame que era degustar várias garrafas de vinho, com seus devidos rótulos à mostra. E lá foram as ovelhinhas dizerem o que devia ser dito de cada vinho. Depois do teste, o professor contou que havia trocado os rótulos e todas as carinhas foram devidamente ao chão. E depois tiveram que repetir o teste na raça, é claro.

Concordo com a Mony, arrotar conhecimento, em qualquer área, é sempre muito fácil e quase sempre muito chato.

Mariana disse...

Ai Denis, antes de mais nada meus pêsames encontrou um enochato. Já assistiu o filme Sideways? Eles têm uns adjetivos no mínimo curiosos para descreverem o vinhos nesse filme.
Seu texto me fez lembrar também o livro da Danuza Leao - Quase Tudo, onde ela conta a jornada do marido no mundo dos vinhos até o dia em que ele descreveu um certo vinho como tendo um sabor que o lembrava um tiro de espingarda kkkkkkk
Tenho uma amiga enóloga, ganha dinheiro provando vinho, formada em duas escolas diferentes, uma no Chile e outra aqui na Zoropa chique benhê, em Londres.
Agora ela esta aqui "embaixo" da água como eu e abriu a sua empresa Wine for Fun.
Um dia convidou a sua mortal amiga que aqui vos escreve, para uma degustação maravilhosa de Barolos que só acontece em dois lugares do mundo por ano blalablabla e dessa vez um dos gares escolhidos foi Amsterdam blablabla.
Denis, ser somelier, enólogo, connaisseur é NOGENTOOOO

Todo mundo no lugar punha o vinho na boca mas nao engolia, sentia e depois COSPIA no spiton (cospedouro?) depois de eu cospir nesse troço duas vezes quase vomitando ( a terceira o fiz de olhos fechados) resolvi que ia beber mesmo.

Fiquei ali a tarde toda enchendo a cara de Barolo enquanto todo mundo cospia e nao bebia.

Eu acho maravilhoso alguem ter uma lingua sensitiva, uma lingua mediúnica diria, deixo para eles o trabalho de provarem.

Eu nunca encontrei um enochato, graças a Deus, minha turma do brasil é da cervejinha e aqui na holanda também hehehe

Agora tira esse ódio do coração vai, dá cá um abraaaaço :-)

maray disse...

eu ainda me sinto humilhada com meus critérios. Ainda outro dia o cara do supermercado, aquele que vem sorrateiramente quando te vê na prateleira de vinhos veio perguntar o que eu procurava, se podia ajudar, etc, etc. Disse a ele um dos meus critérios: procuro vinho pequeno". ele me olhou feio e se afastou. Resultado, toda vez que tomo meu periquitinha na medida vem o olhar dele na minha mente. Faltou a ele dizer que meu segundo critério é vinho até trinta. Reais, não anos. :)

De Marchi ॐ disse...

HAHHAHAHAHA ótimos comentários, pessoal... me diverti :D

Gi Caipira disse...

O Vinho Chapinha tem a cor de uma bela chacina ao entardecer em diadema, com nuances de tiroteio em Guaianases.
O aroma é de um magnifico banheiro de beira de estrada ao amanhecer.
E na boca desce que é uma beleza...

Isabel de Figueiredo disse...

AMEIIIIIIIIII

Sou deum comunidade do ORKUT que fala disso, chama-se

ENOCHATOS ME ENTEDIAM !!

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=51819045

Parabéns!!

Waldir Diniz disse...

Achei essa postagem por acaso enquanto navegava por aí. Ganhei meu dia. Muito bem escrito, parabéns.

Andrei disse...

Apoiado.Eu odeio essas frescuras.kkkkk