quarta-feira, 20 de maio de 2009

• A liberdade é a possibilidade do isolamento

És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre.
E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela. A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou. Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.


Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime.
Não me dói senão ter-me doído."


B.S. (Livro do Desassossego)

2 comentários:

웃 Mony 웃 disse...

A verdadeira liberdade não é viver só no mundo, isolar-se, mas, viver só em si, segundo sua própria alma.
Liberdade não viver numa ilha deserta, mas ser seu próprio aconchego, apoio e força.
Não ter que depender dos outros em nada, apenas estar junto quando e pq quer.
faz dias que ando pensando nisso e em breve conto num texto enorme o que penso a respito. ;)
Afe! Sincronicidade danada!

Vinícius Castelli disse...

Liberdade não é estar sozinho, mas sim poder ser feliz, mesmo que pra isso seja necessário a presença de outras pesssoas. O que é bem provável, aliás. Vai ver que é por isso que o mundo é feito de tanta gente, e tanta gente diferente. Liberdade é achar alguém, e se achar.