terça-feira, 26 de maio de 2009

• Os muitos ciclos e espirais

...e é assim: de repente você sente que está perdendo as pessoas. Aí se lembra de que não se perde o que não se possui. E questiona todas as suas relações; as sagradas, as perenes, as fugazes, as condicionais, as passadas. Até coloca no mesmo tacho, encontra padrões e dilui lembranças. Vê-se, enfim, em seu estado original. Nota o vazio e pergunta a si mesmo se ele não é, afinal, você mesmo. O vazio de girar sem parar, em círculos levemente distintos, a expandir tangentes, ainda assim no mesmo eixo. E o eixo é silêncio. É imerso nele que você vive e se encontra, e percebe o quanto faz falta aquela luz curiosa que move a existência nesta sala de espelhos. E fica nessa, até que um lampejo, um soslaio, um movimento no canto do olho ou um reflexo de avião no céu te faça esquecer. E você volta a achar que faz parte de algo, que pertence, que será lembrado por mais de um mês e por mais de dez pessoas caso morra.
É vã a maior das vontades, a maior das vaidades.
Caçar vagalumes toma muito tempo da vida.

Apenas uma dúvida: Se a solidão é inerente à existência, por que não nascemos com a plena habilidade de sua aceitação?

6 comentários:

A Moça disse...

Boa pergunta!
Tenho que confessar que não sei a resposta :/ Quando descobrir, me informa?
beijo

Gi Caipira disse...

Texto muito inteligente pra minha cabeça de minhoca...

Manooster disse...

Na verdade, tudo depende de você.. Na verdade, solidão é um sentido ilusório, fruto da insistente mania que temos de sofrer por algo.

O ser humano foi feito para o belo, para o equilíbrio. Se respeitarmos isso, percebemos com o tempo que apaixonar-se por si mesmo atrai verdadeiros amigos, oportunidades reais e tranquilidade.

Um super abraço ae...

brunomaiasouto disse...

É bem manjado, mas sempre me tira o chão:

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Karin disse...

Lindo texto.

Eu sei que farei uma observação muito superficial para um tema tão profundo, mas o equilíbrio que eu almejo é aceitar que internamente, no meu universo íntimo, o meu vazio sou eu mesma e nada nem ninguém vai preenchê-lo. E isso é ótimo, pois não estamos aqui para esquecermos de nós mesmos, pelo menos não enquanto temos que aprender com a tal individualidade.

Mas ao mesmo tempo ninguém está só. O que eu faço no mundo interfere direta ou indiretamente com centenas de outros seres. Não conhecemos a maior parte da nossa própria influência, não importa quão anônimos sejamos. O fato de existirmos toca outras pessoas assim como não somos o poder auto-suficiente e isolado que muitas vezes até gostaríamos de ser...

Entre aceitar a solidão e querer a solidão... na verdade não temos nem uma coisa nem outra. Para mim, a beleza está justamente no equilíbrio, ou melhor, no contraponto. Assim como a música precisa do momento de silêncio e a pintura, de espaços em branco. Até a angústia e o sofrimento fazem parte... É, um dia eu aprendo a conviver com tudo isso em harmonia. :)

Mario Ferrari disse...

SI TU ME AMAS (Y DE CIERTO ME AMAS!)
Y YO TE AMO (LO QUE ES TAN CIERTO COMO TU MA AMAS!) ENTOCES ...

"FAMA, NÃO DANCE TRÉGUA NEM CATALA DEFRONTE DESTE ARMAZÉM!
O fama continuava dançando e ria.
A esperança chamou outras esperanças e os cronópios fizeram roda para ver o que ia acontecer.
FAMA disseram as esperanças -NÃO DANCE TRÉGUA NEM CATALA NA FRENTE DESTE ARMAZÉM!
Mas o fama dançava e ria, zombando das esperanças.
Então as esperanças se jogaram em cima do fama e bateram nele. Deixaram-no caído ao lado de uma estaca, e o fama se queixava, envolvido em seu sangue e em sua tristeza.
Os cronópios chegaram furtivamente, aqueles objetos verdes e úmidos. Cercavam o fama e o lastimavam, dizendo-lhe assim:
CRONÓPIO CRONÓPIO CRONÓPIO.
E o fama compreendia e sua solidão era menos amarga.
(de Julio Cortazar in Histórias de Cronópios e Famas)
Beijos!
CRONOPIO CRONOPIO CRONOPIO

Mario