sexta-feira, 17 de julho de 2009

• Falando de boca fechada

Você fala e se arrepende? Muito, pouco?
Escrevo mais do que falo, mas também sinto falta de um ctrl+Z na boca e na vida. E a falta do que não existe é um desses mirácolos do novo milênio (e tanta demanda fará com que um dia esteja à venda, pode anotar).

Há tempos apontaram-me um comportamento cada vez mais rotineiro: posto e apago muito no orkut (entre outros canais de comunicação mais relevantes). E isso é cada vez mais frequente.
Não me importo, por exemplo, de ser flagrado com a mão na massa (ou melhor, no mouse) 'deletando' o que escrevo. Incomodame-me muito mais reler o que eu disse e pensar "pra que dizer, afinal?".
Talvez seja mais um sintoma da síndrome de velhice, não sei. Mas cada vez menos tenho pique e fôlego para entrar em discussões, das mais banais às mais graúdas, que ao final das contas sempre trazem a sensação de que não levarão a nada - ou talvez a alguma discussão fútil onde ninguém mudou a opinião ou aprendeu algo. O fato é: não há troca ou aprendizado no fluxo dos que falam e não têm tempo pra ouvir (aos outros e a si mesmos). E o maior problema não é nem ter a opinião formada, é ela ser definitiva. Sempre, e ainda que o discurso mude amanhã.

***

É punk gostar de comunicação e ao mesmo tempo sentir o quanto ela é torpe, frágil e motivada por forças que não estão à mostra. Se quer dizer outra coisa, por que não dizer logo? Num bate-papo vê-se muito monólogo paralelo: a pessoa fala para si e ali, naquela frase, deposita uma enxurrada de coisas que mal absorveu racionalmente.
Não que tudo tenha de ser racional, pelo contrário. Mas, como essa parece ser a única ponte restante, que permite que nos entendamos nesse mundo de instintos represados, fica difícil um saber onde o outro quer chegar. Você diz 'casa' e eu ouço 'casa', mas nossas casas mentais jamais são as mesmas (e, segundo os relativistas, nem há porque serem). Mas então, pra que dizer?
Tudo o que se lê e escuta, até mesmo numa conversa desprentensiosa, parece coisa pensada na hora, mas chovem ali conversas internas de anos, preconceitos, defesas emocionais para dessabores, alfinetadas e recadinhos, construções e armaduras mentais pra tolerar o cotidiano etc. Com algum treino você percebe com clareza o quão ridículas são tantas palavras agrupadas e subvertidas em seu sentido, apenas para comunicar uma dor ou euforia.
O que houve com o "Ahhhhh!"?

Uaderrel? De certo modo, chegamos ao ponto onde não se pode ter mais uma conversa descompromissada, onde alguém discorda de você e isso não é lá tão incômodo. Tudo é questão de vida ou morte, de "esteja conosco ou contra vosco", de radicalismos hipócritas num meio onde falta coragem e fibra pra assumir posturas concretas para além do blablablá. O espasmo morre na palavra e ali se perde.
E tem mais: ultimamente qualquer assunto acaba em reticências. Reparou? Tudo anda tão relativo que perder tempo definindo o universo em papos de boteco é só isso, perda de tempo. Há sempre mil e uma óticas e ninguém quer saber da sua. "Conversar" virou botar o galo na rinha, mas o que hoje é desafio e ofensa antes era um prazer.

Saudades das conversas ao pé da fogueira, de quando um quadrado era um quadrado. Nobres seres em cavernas sabiam que o grande prazer de um homem era a epifania de um bom churrasco - sentar-se frente ao fogo cercado de amigos, mulher, comida e muita, muita conversa. Era gostoso saber como aquele outro contaria uma história que você já conhecia, como diria aquilo que você nunca ouviu, como obrigaria a rever seus conceitos no jogo prazeiroso de crescer com as palavras.

Sei disso porque tenho a mesma humanidade desses homens. E quase me esqueço disso porque vivo numa Era de egos ávidos por troféus e medalhas. Ninguém mais parece saber o que quer, mas não importa: tem de vir no topo do pódio, na vitória do embate. Competir por tampinhas de garrafa na infância era mais construtivo porque ao menos você sabia qual era o prêmio. Hoje fulano fica feliz se te provar (ou vencer na retórica) que a vida é pura infelicidade.
E?
Mardito DuChamp. Amplitude de visão é uma coisa, mas diluição demais só esvazia, oras. Aprofundar-se no Nada leva ao Nada, não é óbvio?
Quem quiser, que queira. Mas tô a fim de algo mais.

***

Apago e deleto. Então, por que escrevo?
Porque quero dizer, porque quero participar do mundo com a minha ótima, minha experimentação, meu estágio. Porque quero outras óticas, outros brilhos, ouvir a reverberação das ideias em outras cucas, como reagem às minhas e o que devolvem. Nisso eu quero o que todos querem mas só eu sinto como sinto. É dasabafo, é troca e reavaliação, é expressão do turbilhão interno que todo mundo tem - e que não se diz em palavras, afinal.
Dizer é um ato para além de si.
Nos tempos onde todos defendem mil e uma bandeiras - definidoras de fronteira por excelência - e tudo precisa ter um porquê, estou cada vez mais inclinado a dizer apenas um sorriso.

7 comentários:

Mariana disse...

Na psicanálise esse medo de abrir a boca e despertar mil inimigos é chamado de borderline.
A gente achar que se falar algo vai despertar ou despertou a fúria alheia é um esquema construído num ambiente disfuncional.
Se o outro se feriu quando a sua intenção honesta, não era ferir, o problema não está com você mas como o outro.
Mas como você mesmo disse, vivemos num mundo de egos sedentos por medalhas, melhor é ficar calado e abrir a boca só na sala do terapeuta.
Assim a sua consciência além de tranquila fica também imaculada.
Deixar de falar o que se pensa para mantar o "amigo" que é inseguro e "noiado" não é covardia, é apenas viver e deixar viver.

Ou não!

A Moça disse...

Juro que era isso mesmo que eu queria dizer! Sinto assim...
'estou cada vez mais inclinado a dizer apenas um sorriso'

Vc escreve lindo, meu amigo!
beijooo

Gi Caipira disse...

Nem li ...
Quer dizer ... eu li...

Mas não vou comentar nada aqui, pq tenho medo do que as pessoas vão achar do que eu acho ...

E eu nem sei como é que apaga depois ...

:D

De Marchi ॐ disse...

Pípol, não é questão do que os outros vão achar. É entrar numa conversa sentidno sempre que não vai levar a nada, sacam?
Enquanto você fala fulano não te escuta, está apenas usando o intervalo pra preparar a tréplica.
Aí é foda, diálogo com jeitão de dois monólogos não tem sentido.

maray disse...

sou boa ouvinte. Há muitos e muitos anos. Então a fama criou cama, ou sei lá esse provérbio. As pessoas já chegam sabendo que sou boa ouvinte. E tudo que eu queria era poder falar um pouquinho e ser ouvida!
Não sei se a comunicação (e a falta de) é um problema. Pra mim chateia e muito.

Mariana disse...

"Enquanto você fala fulano não te escuta, está apenas usando o intervalo pra preparar a tréplica.
Aí é foda, diálogo com jeitão de dois monólogos não tem sentido." Tudo a ver!

Mario Ferrari disse...

Bah... Você podia mudar de amigos...

E fala que eu te estupro!

Ou então aprender LIBRAS. Deve ser emocionante dizer com as mãos e ouvir com os olhos (mas o estive uonder não deve concordar.)

Beijos ao pé do fogo meu microblogueiro.