quarta-feira, 5 de agosto de 2009

• Sociedade Viva Curintcha

Breinstórmi
Não sou dado a expor pessoalidades na web, mas creio que já sugeri isso nesse espaço amplamente visualizado por milhões de leitores
aróndi de uórdi. Então, é hora de assumir posturas.

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Meu avô paterno fugiu com a minha avó para se casar (ele era filho do dono da fazenda onde ela era colona e por isso foi deserdado pelo 'culto' porém ignorante pai dele, meu bisavô). Meu véio era um tourão; só força física, mas tosco. Ficou cuidando da fazenda até os 18, antes de fugir com a minha avó, e mal estudou.
Teve 12 filhos, chegou a morar em igreja abandonada e cortiço. Calçava-se na noção de que, aos filhos, teto e comida garantida eram o que bastava da função de pai (diz a lenda que meu abastado bisavô era extremamente sovina e agressivo, mas não vem ao caso - ou vem?). Ou seja, cria que dava o que seu pai não deu.
Severíssimo, descia o braço nos filhos, chegando a cometer os mesmos erros paternos contra os quais blasfemou. Um dia achou que meu pai havia roubado uma gaiola de passarinho (havia ganhado do vizinho); o menino apanhou tanto, mas tanto, até mal conseguir levantar (mas teve de conseguir mesmo assim, pois era engraxate na época).

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Há uma foto do meu pai, a única de sua infância, com uns 12 anos, descalço, shortinho surrado e camisetinha rasgada, jogando bola num terreno baldio da Petroquímica, no ABC Paulista. "Balé", assim apelidado pelos camaradas do futebol, era chamado para fazer gols e esquecido na hora do lanche. Pela janela, olhinhos vidrados na TV do bar (onde não podia entrar 'porque não consumia'), sonhava com a carreira de jogador e com o guaraná das mãos dos clientes. É, eu sou filho do Chaves brasileiro.
Esse homem abriu mão de muita, muita coisa. Estudou, ralou pra chuchu, dedicou 35 anos da sua vida ao trabalho, fazendo hora extra aos sábados (desde quando eu não entendia porque ele ficava com aqueles papéis ao invés de brincar comigo). Esse cara pagou o melhor colégio da região para que eu pudesse estudar em pé de igualdade. Chegou a dar 1/3 do seu salário investindo nos meus estudos. Queria que eu fosse arquiteto (ele trabalhava com engenharia civil), mas nunca negou dinheiro para materiais ou livros quando parti pra Comunicação e Artes (você tinha razão, velho!).
Ele só me dizia uma coisa: "você vai lá pra estudar, pra ter sua chance. Não se iluda com os colegas de escola, eles têm uma vida que jamais poderei te dar; vão falar de viajar pra Disney como quem fala em ir à padaria e terão coisas que não podemos comprar. Não se iluda, revolte ou inveje: aproveite a chance".

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Esse cara, sem apoio, sem protecionismo de Estado, sem estrutura familiar, sem porra nenhuma, foi lá e fez. Era o 11º filho de uma mãe com 40 anos, mais uma boca para dar de comer, mais um pra trabalhar (e, se fosse pelo meu avô, eternamente na roça).
Mas ele teve interesse. Ralou pra burro enquanto os camaradas do bairro faziam filho atrás de filho (quando qualquer imbecil sabe que trepar faz nenê).
Arranjou finalmente um bom emprego (nem de perto o ideal, muito menos o mais digno para sua capacidade, mas agarrou-se à oportunidade). Casou-se e criou seus filhos com um carinho e dedicação ímpares. Pagou seus preços na vida (caros, muito caros). Aquele menino de origem humilde fez de tudo para nós e ainda se cobra de que foi pouco, chegando a chorar porque gostaria de dar uma casa para cada filho pra começarmos nossas vidas, pagar mais cursos etc.
Porra... Me deu tudo o que eu precisava e muito mais - o Balezinho engraxate, jornaleiro, ajudante de mecânico entregou-me tudo aquilo que não teve.

Se houvesse Enem no tempo dele, onde não estaria este grande cara?

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Acredito em mérito - aquilo que você faz com o que tem. Comove-me quem não tem oportunidade. Revolta-me quem não tem chance de mostrar a que veio.
Mas, para vagabundo que tem e esnoba, eu não estou nem aí.
Seja de qual classe for.

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S.V.C. (Sociedade Viva Curintcha)
As hienas são animais que comem carniça, trepam uma vez por ano e às vezes enganam-se pensando sobre si mesmos como reis da selva. Andam curvadas demais para mostrar os dentes aos leões, senão aos moribundos entregues como esmolas pelo Acaso.
Reproduzem-se como ratos e estão por todos os lados, do shopping à favela. E mesmo assim vivem rindo.
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EMPREENDEDORISMO
Todos sabem reclamar daquele mega-empresário que tem a cara de pau de dizer na entrevista que o segredo do seu sucesso foi 'ralar muito' (o couro alheio). Mas... reclamam por senso de justiça ou inveja? Você acha errado ou queria fazer o mesmo?
De um lado há os que falam em empreendedorismo como se fosse simples e dependesse tão somente de vontade (e não de dinheiro para investir, conhecimento a ser adquirido nem sempre disponível, justiça social, sorte etc).
Por outro, o assistencialismo mão-beijada dos politicamente corretos chega a provocar vômitos enquanto ignora que não se ajuda quem não quer ser ajudado.
Recursos. De onde vêm e para onde vão?

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NA SAVANA
Toda noite na savana, um leão sai para caçar. Ele tem de correr ou vai morrer.
Toda noite na savana, um búfalo é caçado. Ele tem de correr ou vai morrer.
Gnus pastam por todos os lados sem propósito além de alimentar jacaré, leão, leopardo. Um oceano de chifres e cascos. Milhares de gnus incapazes de dar um coice ou pisotear dois guepardos a comer-lhes a cria.
Gnus compensam fazendo filhos, muitos filhos, os quais Deus há de cuidar. Na savana, onde comem seis, comem sete e tudo bem: filho vai, filho vem. Sua vantagem numérica serve ao princípio de repor o estoque.
Na Natureza, o único critério para sobrevivência é sorte e força para viver. Quem corre mais, escapa ou janta. Isso porque 'ela' precisa de algum critério seletivo, algum meio de fazer seus recursos limitados não serem desperdiçados com má semente. Seria lindo se ela, segundo nossos mais humanitários princípios, promovesse meios de todas as sementes vingarem. Só tem um porém: mais sábia e mais velha que nós, 'sabe' que também somos limitados e este é só mais um sonho infantil, motivado por quem acha injusto haver justas medidas.
Como aos búfalos e aos gnus.

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O Governo não quer tirar ninguém da merda?
Fato. Mas tem uma malacada aí que não tá a fim de fazer força pra sair.
Sem essa de relativizar. Chega um ponto onde sublima-se tanto que um quadrado vira círculo em meia dúzia de volteios dialéticos. "Ah, fulano é lerdinho" ou "não teve boa criação" ou "tem miolo fraco". Tadinhos. Uma nação de tadinhos.
E? Que fazemos num sistema fechado de recursos limitados como a vida, onde nem todos podem passar ao próximo estágio? Não basta apontar para os dominantes que impedem o crescimento de quem merece.
Nos bons tempos cabia à natureza definir, mas não estamos mais guiados apenas por ela, para bem e para mal. Que fazemos nós, num mundo escasso?
Tenho um palpite. Investir em quem tem mais fome de vida. Até que se descubra um meio de fazer toda e qualquer semente vingar (coisa que nem a velha e sábia, a mais interessada nisso, conseguiu), o jeito é não desperdiçar recursos com quem não quer.

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Quer dizer que malandrage não tem grana pra comprar um livro, mas gasta 200 mangos por mês pra ver jogo em estádio de futebol? Pois que morra antes que assalte alguém, não tô nem aí. Se não liga que seu 'estilo de vida' não dê futuro, que não reclame do futuro de sua vida.
Rapêize posando com pistola e falando prástico, todo meninão... Vai ver estão felizes com tão pouco (e nisso até os invejo). Que seja, façam suas escolhas e arquem com elas.
Só não me peçam importância. O meu, não roubei de ninguém.

Às favas com o discursinho generalizado de 'vítimas e coitadinhos'.
Coitado é quem acorda às 5 da manhã pra trabalhar e estudar à noite. Vítima é quem nem isso pode fazer porque está entregue à fome.

E viva o Curintcha.

6 comentários:

Gi Caipira disse...

Uia !!
Minha bisavó materna era prostituta ... e meu bisavô materno um viciado em carteado ...

Mas essa história é muito grande, e a vó Manoela tem vergonha dela ...

E viva o Curintcha !!!

Mariana disse...

nossa o Dênis amanheceu brabo hoje!

edi_nanci disse...

Eu vim dizer que não tenho nada pra falar.

edi_nanci disse...

Só sei que essa Manoela era uma FDP.

De Marchi ॐ disse...

Eitaporra... esse texto não era pra ser postado, deixei programado com uma data qualquer pra revisá-lo depois e olha só: a data chegou e eu tinha esquecido dele heheheheh
Agora deixa. :D

웃 Mony 웃 disse...

Gostei do texto e tudo o que tenho a dizer é, amém, assim seja, saravá, namastê.
E quem quiser reclamar da vida, que antes faça por onde melhorá-la, ou chore baixinho pra não me acordar.