quinta-feira, 24 de abril de 2008

• Pequenos desafios...

...como o de fazer funcionar um blog cada vez mais calçado no cômico, quando meu espírito na verdade alterna-se numa escala de tons, de sons, de cinzas e de cor.
Sem essa de bipolaridade: esqueça por um minuto os rótulos e as novas doenças da moda sem as quais seus avós bem viveram sem. Desde que o mundo é mundo a alma oscila num pêndulo desatinado, Roda da Fortuna de emoções e contradições. Mas se você se esquece do eixo... aí qualquer carapuça bem serve; tanto faz. Quero falar da alma.
Nunca tive a intenção de fazer um blog até umas poucas semanas atrás e, por começar como uma brincadeira, uma experimentação, só a piada parecia justificar-se. De repente noto nas páginas de amigos um brilho especial de intimidade partilhada, para além do voyeurismo habitual, e sinto o apelo bater à porta. O que dizem, o que sente, me move e me comove.
***
Confessio
No mais sincero de mim há também o silêncio, a melancolia que crê-se sem rosto e por isso subverte-se em máscaras: das mais dóceis às mais divertidas, todas máscaras. São feitas sob medida, silicones de humores moldados com meus relevos e pintados com cores minhas, mas num tom fixo que oculta quando enrubesço, quando brota a palidez, quando domina o sépia, o cinza e o negro.
Bem... há uma certa pretensão, um desejo de segurança em crer nessa espessura. As máscaras não escondem nada; no máximo escamoteiam, transformam em nuance o que de contorno há em mim. Esse translúcido nem sempre é bem vindo, mas nem por isso dispo-me de seus ditos encantos. Por apego, por nele reconhecer-me, posto que obra. Por dedicação ao que a alma deseja, esta que sempre acreditei menos eficiente que o lúdico no ato de encantar e fazer sorrir. Meu desejo de gente alimenta este Eros, ávido pelo olhar proibido de uma Psyché diária que lhe desvele o rosto, fome antagônica de fim e de perene.
Ela pulsa pelas varizes em meu rosto.
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Recortes
Um dia frustrei-me em tentar um esboço de explicação a uma amiga.
A dinâmica dos que fazem rir ainda que tristes é tino de clown, é espasmo de arte. Não se explica.
Os comediantes e os cínicos, cada um em sua medida, são românticos desiludidos. Se entornam em risos o fel de suas gargantas, se estravazam o desassossego com euforias, se claudicam entre o escárnio e a sabedoria, fazem e não o sabem. Neles há apenas o impulso de transcender um 'Que' maior, que não conhecem e apenas intuem, o sublimar de um jogo perigoso de mariposas, luas e lamparinas.
O palhaço é triste, mas alegra-se no riso alheio, que sabe ser mais do que seu. Busca aquela centelha de entendimento nos olhos alheios, para além da compreensão, para além do riso que manifestam.
Quanto a mim, imerso na filosofia dos inaptos, queria rir através de suas bocas, pois da minha não controlo nem a chuva nem o fogo. E como desejei controle! Nele depositei toda a fé na magia de querer e, pele tecnikos, alcançar. Aprendi: o erro estava em pensar que todo e qualquer controle poderia substituir o enlevo da integridade pega de surpresa. Sem dívidas aos deuses nem preparo nem taumaturgias. Não se pode viver de forjar atos espontâneos, não se pode apreender o feliz que jaz no instantâneo. Vive-se no momento onde se vive e só.
Hoje, todos os pontos sem nó dou ao vento porque, sinto, não há vivência concreta para além desse hálito luciferiano, lascivo, tumoroso, rejuvenescedor e terrível. E rio, e faço rir, pelo prazer da troca. Mesmo quando choro.
É como a Iluminação: dá na mesma, mas não dá.
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Rir é zombar dos deuses que zombam de nós.
Ri comigo?

6 comentários:

De Marchi ॐ disse...

Muitos "mins", "eus" e "meus" depois, voltemos à programação normal!

Vinícius Castelli disse...

Como é bom entender, acreditar e comover-se com os que estão por perto. Símbolo de uma delicadeza ímpar.

***

É doloroso ver um rosto, um olhar triste tentando fazer alguém rir.
Dizem que o palhaço, após fazer tanta gente soltar gargalhadas, volta para casa com lágrimas.

Eu também rio, e faço rir, pelo prazer da troca. E choro por igual.
Quero tudo de verdade.

Adorei seu texto, Denis.
Sinto como se eu tivesse escrito isso tudo.

Karin disse...

Somos um pouco preconceituosos com o "eu"... o que mais temos para compartilhar senão o que somos? Com todas as nuances e máscaras... Tudo o que sai de nós passa pelo nosso filtro. Até mesmo quando servimos de espelho às projeções dos outros, são atitudes e características nossas que disparam as reações alheias. Adorei a tua reflexão. Também sou brisa e lama, e a pessoa que mais tem dificuldade em aceitar e conviver com isso sou eu mesma. Continue compartilhando você conosco. Ao menos para mim, a minha viagem individual fica mais agradável e produtiva ao observar estradas paralelas que eventualmente se cruzam e se acompanham. E adoro vislumbrar a tua estrada. ;)

Um beijão!

Anônimo disse...

Cara só sei que isso te gera uma responsabilidade muito grande, pois também delicio vislumbrar essa tua estrada, e de lei, todo dia eu abro seu bloguinho (hehe). E todo dia estarei presente esperando uma nova postagem.

Saúde, felicidade e vida longa a todos os "palhaços" que nos fazem sentir mais vivos a cada dia.

Abração

Anônimo disse...

É verdade, quando eu abro e vejo que ainda não escreveu nada novo, fico na expectativa rsrsrs
Me impressiona esse dom que vc tem em escrever e se fazer entender. Lindo isso!

Jana.

De Marchi ॐ disse...

Obrigado pelo carinho... :)
desse jeito eu acredito que tô agradando e vocês vão ter de me agüentar. Não dêem corda pro maluco!

P.S.: fiquei tímido, caraio. :D