sábado, 26 de abril de 2008

• O revés da Liberdade

"Falo, falo sim!" - diria Zé Bétio, grande radialista dos tempos do rádio a carvão que sempre despertava minha finada vovó (só não sei se pelos zurros ou por ofertar tanto falo...).
Falar o quê? Já comentei sobre isso aqui no Uaderrel. Incomoda-me notar, no exercício diário de voyeur dessa peça enfadonha, que os mesmos problemas mudam de roupa sem jamais sair do palco: você pagou por um épico e recebeu um monólogo. Não é só a falta de conteúdo; é o pode-não-pode sem acordo do dia a dia.
Ontem, em virtude da charge do Padre 'Djavan' ("também quero viajar nesse Balaaaão"), comentaram que era politicamente incorreto 'brincar' com isso. Se por um lado fiquei lisongeado (ufa!), por outro fiquei curioso com o fato do país inteiro fazer piadas antes mesmo dos defuntos esfriarem, enquanto publicamente impera a lei do "fiz que não vi". Jesus, Senna, Ulisses, Mamonas... até gente mais importante, como o Mussum, não escapou. Em cada boteco, em cada ônibus, em cada sala, lá estava a piada, a maior das homenagens.
Não é só o fato de ignorarem o poder transformador do humor; o que irrita é a onipresente hipocrisia do fri uôrld - "pode-se falar, mas não pode. Sacou?".

É, nem eu.

***

Liberdade de expressão. Não deixa de ser encantadora essa democracia atual, que funciona tão bem tanto aqui quanto na China. O maior conforto desse jogo do "fala que eu te estupro" é poder sentar sobre o próprio rabo. Fale do Tibet e esqueça o Crato, Fale do Morro do Alemão e esqueça New Orleans, fale dos Curdos e esqueça o a África, fale do Haiti e esqueça o Tibet.

Fale e esqueça.
Assim até eu, né mailóvi.

***

Pesos e medidas
Confesso que ainda não entendo essa dinâmica do que atualmente entende-se por liberdade democrática. Fala sem limites, fala-se com limites idiotas, fala-se sem responsabilidade alguma? A confusão instalada alimenta-se dos variados, personalíssimos e mui flexíveis conceitos do que é livre expressão, respeito, responsabilidade e correlatos. Seu marido larga a toalha molhada no seu lado da cama; sua vizinha lava a calçada durante o racionamento de água; o fumante ao lado da janela do restaurante não se importa se a direção do vento leva a fumaça na cara de quem come ("processe o vento; cumpro a lei ao não fumar lá dentro"); um perfil fake na internet ofende alguém (e contraria a Constituição, que veda o anonimato aos pretensiosos tagarelas); fulano discute com você e não escuta o que você diz (Reparou? Enquanto você fala, quando não interrompido, é meramente um tempo a ser usado por ele para pensar na continuação do próprio discurso). E por aí vai.

Veja que não falei das negligências do Estado, da leviandade da mídia, da monstruosidade do capital, do bestial em toda guerra, comercial ou armada. Falo do seu microcosmo, do meu dia a dia, entre nossos pares de privilégio, do grupinho bem nutrido a quem não falta internet, carro flex, celular com mp3 e outros itens indispensáveis à sobrevivência. Nem aí funciona. E Chico diz ao pai pra afastar um cálice que bem pertence à adega da casa, veja só. Pra piorar, o mundo é de Direita (obviamente, mas fica pra outro post) e onde há quem diga, há sempre quem mande calar.


Falo, falo sim.
Assim que puder. Assim que houver respeito.
Até lá, não mais que piadas e algum desabafo.

3 comentários:

Karin disse...

Só posso falar por mim. Quando eu me choco mesmo, de verdade, não dá vontade de fazer piada não... Agora, quando se trata de um candidato ao Darwin Awards, como é o caso do nosso ilustre ecumênico (http://www.darwinawards.com/), aí fica dose manter qualquer grau de seriedade, o cara praticamente deu o aval pra fazer canoa com a pele dele... rs

Mas lendo teu blog hoje me lembrei de um velório que fui há alguns anos atrás. Mãe de uma amiga minha, doente há muitos anos, (finalmente) faleceu. Minha amiga estava tranqüila, tinha feito tudo o que podia ter sido feito em vida, e ainda assim, como era de se esperar em uma família de bom relacionamento interno, estava triste. Existe coisa mais clássica e esperada do que piada em velório? Pois naquela madrugada, eu vi a minha amiga alternar entre lágrimas e risos, contando anedotas sobre a própria mãe. De descendência árabe tradicionalmente mão-de-vaca, ela contou como a mãe, morrendo, tinha feito ela pagar o próprio presente de aniversário. A piada fazia parecer de propósito. Claro que não era, mas conheci a senhora... ela mesmo teria dado risada! E acima de tudo, fez bem à minha amiga.

Não é a piada em si que é ofensiva. Não é a risada que é politicamente correta ou incorreta. O que faz a risada ficar amarga é a própria culpa em não ligar, em não respeitar o limite do outro, em não se importar com o sofrimento alheio. É o sadismo mal disfarçado. Então vamos esconder por baixo de uma capa de "civilidade". Pode notar que quando brincamos com quem nos é querido de verdade não nos sentimos mal, pois conseguimos colocar melhor as coisas dentro de um contexto mais justo. Quando queremos, bem entendido...

De Marchi ॐ disse...

Karin, :)
às vezes parece que perdemos a noção do que é verdadeiramente ofensivo neste planeta, né...

Vinícius Castelli disse...

Pois é. O foco sempre acaba indo para o lado errado. Ao invés de as pessoas fazerem algo útil pela vida, pelo mundo ou por seja lá o que for, se preocupam em dar pitacos onde não há nada de mais.

Lembra da história de olhar o remetente antes de avrir o envelope?
Que façam isso então.

Eu gosto daqui. :)